Brasil segue passos de EUA e China ao se interessar pela África

Presidente Lula realiza sétima viagem ao continente a partir desta segunda-feira.

Denize Bacoccina, BBC

15 Outubro 2007 | 06h20

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia nesta segunda-feira mais uma viagem pela África e segue os passos de outros países, como Estados Unidos e China, que se deram conta das oportunidades no continente que, até os anos 90, era visto como atrasado e estava praticamento fora do mapa de comércio e investimentos mundiais.Agora, com o que os historiadores chamam de "renascimento africano", com relativa estabilidade política e crescimento econômico superior ao da América Latina nos últimos anos, a região se torna uma das mais atrativas para investimentos tanto na exploração de recursos naturais como na construção da infra-estrutura e destino de exportações."A África passa por um momento muito auspicioso", afirmou o embaixador Roberto Jaguaribe, subsecretário Político do Itamaraty em entrevista no ministério. "As oportunidades de investimento são importantes e estão crescendo muito".O presidente Lula faz sua sétima viagem ao continente, a primeira no segundo governo. Ele visita Burkina Faso, Congo, África do Sul e Angola, um dia em cada país. Até o fim da semana, terá visitado 19 dos 53 países africanos, alguns deles mais de uma vez.O presidente já manifestou a intenção de visitar todos os países do continente e embora os diplomatas do Itamaraty não acreditem que será possível cumprir a promessa de fincar a bandeira brasileira em absolutamente todos os 53, já planejam novas viagens para o próximo ano.As exportaçõs brasileiras para a África mais do que triplicaram desde 2003. Naquele ano, o Brasil exportou US$ 2,4 bilhões. No ano passado, foram US$ 7,5 bilhões. Este ano, os dados até setembro mostram um crescimento de 15% em relação ao ano anterior. Dos US$ 6,2 bilhões acumulados no ano, US$ 5,1 bilhões são produtos industrializados.Apesar do crescimento das exportações o Brasil tem déficit comercial com o continente. Este ano, este saldo negativo já está em US$ 1,3 bilhão.A maior parte do crescimento, no entanto, apenas segue os números gerais do comércio exterior brasileiro, que cresceu de um modo geral neste período.A importância da África no total das exportações aumentou, mas nem tanto. Passou de 3,91% em 2002 para 5,39% atualmente."O Brasil vai à África como muitos estão indo. É uma das últimas fronteiras do capitalismo", diz o historiador José Flavio Sombra Saraiva, professor da Universidade de Brasília e autor de vários livros sobre a África.Ele diz que o processo atual é "uma nova partilha da África", numa referência ao processo de divisão do continente por potências coloniais européias no fim do século 19, pelo grande interesse mundial no continente.A diferença, claro, é que agora os estrangeiros entram como parceiros comerciais e investidores na atividade produtiva. As exportações africanas chegaram a US$ 41 bilhões no ano passado - dos quais US$ 8 bilhões vieram para o Brasil - e a projeção de crescimento do PIB para este ano é de 6,2%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).Embora a França ainda seja o maior parceiro comercial e investidor na África, Saraiva vê um interesse crescente dos Estados Unidos e da China, este último interessado especialmente nos recursos naturais.O interesse da China se intensificou nos anos 90 a partir do isolamento chinês depois do massacre da Praça da Paz Celestial. Em 2005, o comércio entre África e China foi de US$ 21 bilhões e a previsão era dobrar no ano seguinte."A África cresce, é um ambiente de oportunidades, e o Brasil não quer ficar de fora. Quer participar, ainda que de forma subalterna, porque sabe que não pode concorrer com os europeus, americanos ou chineses", afirmou.Saraiva não vê uma mudança estrutural na política brasileira para a África, muito mais antiga, na avaliação dele, mas uma retomada a partir do "abandono do ângulo atlântico" durante o governo Fernando Henrique Cardoso.Desta vez, diz o historiador, com um discurso de resgate de uma dívida histórica, para justificar internamente os interesses objetivos - comerciais e econômicos - que o país tem na região."Essa é a grande diferença. A construção de um discurso de africanidade e de resgate de uma dívida é para consumo interno. Mas a política externa não é guiada por isso, mas pelos interesses nacionais". Ele diz que o Brasil teve "a felicidade" de lançar nos últimos anos uma política africana coincidente com o renascimento econômico da África. "Isso é uma coincidência histórica", afirma.Nos últimos anos quatro anos, o Brasil abriu 12 novas embaixadas na África, e agora tem representações diplomáticas em 25 países do continente.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Mais conteúdo sobre:
lulaafrica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.