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Dida Sampaio/Estadão
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‘Brasil se isola do mundo por Bolsonaro’, afirma cineasta luso-brasileiro

Diretor de ‘Raiva’, Sérgio Tréfaut tenta mobilizar políticos – entre eles o presidente de Portugal –, partidos e a sociedade portuguesa contra governo brasileiro, que acusa de ‘crimes de Estado’

Entrevista com

Sérgio Tréfaut, cineasta

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 09h39

RIO – O cineasta luso-brasileiro Sérgio Tréfaut iniciou em Lisboa uma mobilização para que o governo de Portugal  assuma uma posição internacional crítica em relação ao presidente Jair Bolsonaro. Sobre o tema, divulgou carta aberta ao presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa,  no jornal ‘Público’; lançou abaixoassinado à Assembleia da República; deu entrevistas à TV RTP e a emissoras de rádio. O diretor do premiado ‘Raiva’ também aposta na articulação da sociedade portuguesa para uma manifestação de rua, em alguns dias. Avalia que o Executivo local terá de se posicionar, até com uma proposta de censura nas Nações Unidas, contra supostos ‘crimes de Estado’ do ex-capitão.

“O objetivo (da movimentação) é que Portugal se manifeste na ONU, falando dos atentados à democracia que estão acontecendo no Brasil”, disse o cineasta, da capital portuguesa, em entrevista por telefone ao Estadão.

Tréfaut afirmou que o governo brasileiro será julgado - informal ou formalmente -, por atitudes como a política de Bolsonaro para enfrentar a covid-19. A doença continua a se espalhar pelo Brasil, enquanto o presidente duvida de sua importância. O cineasta também criticou o que classificou de “genocídio” dos povos indígenas e mostrou indignação com a tentativa do governo de mudar a divulgação das estatísticas da doença. Também criticou o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril - na carta a Sousa, chama o encontro de “covil dos infames”.

“Dizem os políticos que Portugal e o Brasil são países irmãos. Marcelo Rebelo de Sousa aprecia esta figura retórica. Mas chegou o momento em que é necessário decidir de que país Portugal é irmão. Do Brasil que está a matar? Ou do Brasil que está a morrer?”, perguntou, na mensagem ao presidente português. Nascido em São Paulo em 1965, filho de pai português e mãe francesa, Tréfaut deixou o Brasil com a família em 1976. Seu irmão, dez anos mais velho, fora preso por atividade política e  torturado no DOI-Codi do II Exército. Só foi localizado por intervenção do cônsul da França. O cineasta voltou em 2018, após a eleição de Bolsonaro, e se impressionou com o clima entre os brasileiros – muitos, em tom pessimista, lhe perguntavam por que mudava para o País. Vinha filmar o documentário ‘Triste Brasil’ e, como disse em ensaio na imprensa portuguesa, resgatar sua “identidade mutilada” pela saída às pressas nos anos 70.  Retornou a Portugal em maio de 2020.

A seguir, os principais trechos da conversa de Tréfaut com o Estadão.

O senhor dirigiu ao presidente de Portugal um pedido para que se posicione em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro. Por quê?

Há duas coisas neste momento.  Há uma carta ao presidente, que está no (jornal) ‘Público’, e que imediatamente todas as rádios aqui em Lisboa noticiaram, e foi preciso falar. Eu estive no Jornal Nacional, na televisão hoje (terça, 9) às 13 horas. Há uma repercussão enorme disso, porque há um divórcio, na verdade, entre uma posição muito formalista, hipócrita, portuguesa, de dizer que é um assunto delicado, e de ter receio de uma ingerência, no que se passa em outro país. Ninguém está pedindo que Portugal entre com o Exército no Brasil, mas que o presidente português, que é uma pessoa que obviamente tem a pior opinião do Bolsonaro, diga o que disser, coadune um pouco mais o que é a opinião dele – real – e a dos chefes de Estado – real – com o seu discurso. É esse pedido que é feito, claramente. Fizemos um abaixo-assinado que foi lançado há umas horas (em 9 de junho), mas que já está com centenas de assinaturas, para que a Assembleia da República, para que o presidente da Assembleia da República, se pronunciem. Ou seja: idealmente, haveria uma conversa do presidente português com o presidente brasileiro, avisando que passará uma moção de censura à ONU, que é o objetivo principal.   O objetivo é que Portugal se manifeste na ONU, falando dos atentados à democracia, que estão acontecendo no Brasil. Todas as atitudes do presidente Bolsonaro  são contra a democracia.

Por quê?

Para qualquer europeu que vá ao Brasil, é inacreditável o que acontece. A simples divulgação daquele vídeo da reunião do dia 22 obrigaria em qualquer, mas qualquer país, de democracia firme, a demissão imediata de todos os ministros. Isso não já não tem nada a ver com direita, não tem nada a ver com esquerda. O governo brasileiro, neste momento, é um governo que só tem semelhante na Alemanha da (Segunda) guerra (Mundial). Não existe outro lugar. Nem a África do Sul do período do Pieter Botha (ex-presidente e ex-primeiro-ministro sul-africano durante o regime racista), não existe nada que se compare com o governo brasileiro. Um dos focos que eu cito é a política bolsonarista de lutar contra a Justiça. Há cinco mortos no Rio de Janeiro por dia (pela polícia) que são silenciados sem julgamento. Depois, há o genocídio. Há o genocídio, por um lado, dos índios, que é claramente aprovado na reunião do dia 22, ou seja, ninguém se pronuncia sobre aquilo que levará à morte dos índios. Enfim, há uma petição que foi colocada no Tribunal de Haia, no ano passado. Ontem (8 de junho), houve outra mais geral, sobre a covid, apresentada e que começa a ser examinada. Há um movimento do (fotógrafo) Sebastião Salgado, em curso, sobre o genocídio índio.  E depois há o genocídio da pandemia. Porque a política brasileira para a pandemia não é semelhante à de nenhum país.

Em que sentido?

É vergonhoso  que o governo brasileiro, a  um  dado momento, tenha citado a política da Suécia ou a política da Inglaterra,  que são países onde há toda preocupação de cuidado com os hospitais, de ter enfermeiras preparadas, tudo isso, mesmo que em dado momento tenham se arrependido – se arrependeram. Mas o Brasil nunca refletiu sobre nada. O próprio (Luiz Henrique) Mandetta,  que foi ministro (da Saúde)  por algum tempo, desde o começo do governo, e que agora, quando foi afastado, de repente parecia que se opunha ao Bolsonaro,  durante os meses de janeiro, fevereiro e março não fez rigorosamente nada  de sério para combater a pandemia. Não apresentou plano. Ou seja há um crime de Estado relativamente ao tratamento da  covid no Brasil. Não tenho a menor ideia (dúvida)  o governo atual brasileiro será julgado tem uma maneira formal ou informal.

E Portugal, como o senhor espera que se posicione?

O governo português estará nos próximos dias muito pressionado pela opinião pública. Não é só um grupo de pessoas. Todos os partidos estão pressionando. Vai haver brevemente manifestações, com pessoas que são representativas de todos os  partidos na Assembleia,  pessoas que representam a voz dos portugueses, indignadíssimos com o fato de em Portugal ainda, timidamente, respeitarem esta diplomacia de vender vinho e queijo. Quando os poderes sabem que quem está no poder no Brasil não tem qualquer legitimidade, existem mais de 30 impeachments contra o Bolsonaro. É toda uma série de coisas em que o silêncio começa a ser criminoso. E a sociedade civil, neste momento, se revolta. E eu, como estou dos dois lados, brasileiro e português, participo muito ativamente nesse movimento.

O senhor disse que fez um pedido à Assembleia Nacional, e os partidos começam a se movimentar. Como está isso? Os partidos estão discutindo?

Entre eles, não sei o que discutem. Pedimos apoio a vários partidos para nossa iniciativa,  um ato público acontecerá dentro de dez dias. Não o partido do governo, mas as pessoas do partido do governo, (Partido) Socialista, se sensibilizam. Esta não é uma questão partidária.  Por exemplo: Portugal teve anos atrás um Ministro dos Negócios Estrangeiros chamado Diogo Freitas do Amaral, que era do CDS,  o partido mais à direita da Assembleia Nacional naquela época. Ele tinha posições internacionais de uma clareza, de uma correção…  No momento, há um Ministério dos Negócios Estrangeiros que não tem essa clareza, que não tem essa altivez.  E o que a sociedade civil vai fazer, e praticamente todos os partidos farão, é pressionar. Da esquerda à direita em Portugal existe nojo  pelo Bolsonaro, isso é uma coisa evidente. As pessoas distinguem completamente uma posição política de atos contra a humanidade. E o governo Bolsonaro se colocou do lado da abjeção. Isso é absolutamente geral como percepção na sociedade portuguesa. Se for a um café, e um senhor, que eu não conheço de lado nenhum, me vir na televisão (falando do governo Bolsonaro), dirá: isso é abjeto – ponto final, parágrafo.

Então, a imagem do Brasil sob Bolsonaro, em Portugal, mesmo entre a população em geral, piorou com o governo Bolsonaro?

É inacreditável. Quer dizer, não é em Portugal é a opinião pública internacional toda. O Brasil perdeu toda a credibilidade mundial  Em Portugal, se por acaso o Jair Bolsonaro tentasse (visitar), haveria cordões à porta do aeroporto para impedir de entrar. Ele é odiado de uma maneira inacreditável, o governo todo, enfim. O vídeo da reunião do dia 22 circulou aqui.  Cada pessoa que fala (sobre o vídeo), só recebo mensagem de abjeção total. A petição on line que foi colocada há pouco (na tarde da terça, 9), há uma hora, eu nem sei quantas assinaturas tem, mas deve estar nas centenas. Porque é o nojo, apenas isso.   É impossível.  A política do Bolsonaro relativamente à covid é uma política eichmaniana (de Adolf Eichmann, nazista preso, julgado e executado em Israel, nos anos 60, por sua participação no extermínio dos judeus). Tão simples quanto isso.

O vídeo foi o que mais impulsionou esse sentimento anti-Bolsonaro?

Não, não foi só o vídeo. Portugal inteiro se revoltou ontem (8 de junho), as pessoas falam nisso, do fato da sonegação dos números. O mundo que preza a democracia não pode, de modo algum, tolerar o discurso nem sequer de campanha eleitoral de Bolsonaro. Agora, o presidente português deu-lhe o benefício da dúvida. E desde então tem se mantido mais ou menos silencioso. E o movimento português, neste momento, é fazer com que haja uma moção nas Nações Unidas ou fazer com que haja uma tomada de posição séria, de condenação internacional. É isso sim que vai acontecer. Há o isolacionismo… Portugal, por exemplo, viveu o isolacionismo durante o período da guerra colonial. Teve uma ditadura de 48 anos, mas, durante o período que vai de 61 até 74, a guerra colonial isolou completamente Portugal. O Brasil está se isolando completamente. O presidente português tem esta grande vantagem: ele não precisa de um tradutor para perceber o que aconteceu naquela reunião de abril.

O lema “Brasil em Luto”, lançado recentemente pelo senhor, é uma campanha?

Não, isso daí não é bem uma campanha.   Foi uma chamada de atenção que fizemos. Há várias iniciativas, como a Julio Villani, em Paris, lançou uma campanha gráfica. Não falaria de campanha. Mas está tendo uma repercussão  enorme em outros lugares, com materiais denunciando o comportamento político brasileiro. Isso foi feito na embaixada de Paris, há pouco tempo, agora foi feito também no Canadá. Fizemos uma primeira iniciativa  em Lisboa, rapidamente, teve repercussão, ou seja, começar a juntar pessoas a isso, em uma indignação geral. É mais ou menos isto de as pessoas colocarem bandeiras na janela, algumas colocam na internet. Mas são linguagens pequenas. Nós não esperamos, neste momento, ainda, que isso seja forte. A esperança é que uma manifestação dentro mais ou menos de uns dez dias ou coisa assim, não seja uma manifestação de brasileiros revoltados em Portugal, mas uma grande manifestação da sociedade civil portuguesa com representantes de todos os partidos, isso já foi mais ou menos falado, para pedir a condenação expressa, do governo brasileiro, ao governo português. É mais ou menos por esse caminho que nós vamos, é um processo.

O senhor mencionou os brasileiros. Como tem reagido a comunidade brasileira radicada em Portugal?

Houve uma porcentagem alta de pessoas que votaram no Bolsonaro nas eleições presidenciais (em Portugal). Há muita gente arrependida, mas não sei o que isso significa numericamente. É difícil de dizer o que isso representa. Houve uma imigração recente, que já é uma imigração organizada pelas igrejas evangélicas, que fizeram a campanha do Bolsonaro.  Ainda hoje, eu recebo, no meio disso tudo, por exemplo, quando (Sergio) Moro saiu do governo, havia aquelas imagens dos deputados evangélicos, o Anticristo estava no corpo de Bolsonaro sendo esfaqueado pelos seus traidores, que eram o (governador de São Paulo João) Doria e outros, terminando no Sérgio Moro. Eu não sei até que ponto essa militância evangélica, que existe em um meio sem formação,  no Brasil, terá impacto nos evangélicos que representam uma parte da votação aqui em Portugal. Isso não sei. Mas, sim, eu ouço muito as pessoas dizendo: “Ih, a minha mulher votou no Bolsonaro, coitada, já se arrependeu…” Já ouvi isso muitas vezes. O que  representa, não sei. Enfim, perante a opinião pública portuguesa, isso é certo, há um repúdio.

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