Brasil se abstém na ONU para não contrariar Sudão

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazia sua visita à África, nesta quinta-feira, o Itamaraty preferiu se abster na votação na Organização das Nações Unidas de uma solução proposta pelos países ocidentais para a crise humanitária na região de Darfur, no Sudão, considerada pela ONU a mais grave do mundo. Nos últimos dias, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas vem debatendo o assunto. Europeus e outros países ocidentais propuseram uma resolução em que se pedia que o Sudão investigasse e punisse autoridades dentro do governo responsáveis pelos massacres. Mas com o apoio dos países árabes, africanos e com a abstenção do Brasil, o Sudão conseguiu evitar a aprovação da proposta. Zâmbia, Filipinas e Ilhas Maurício também se abstiveram. O conflito começou em fevereiro de 2003 entre população de etnia africana do país e governo muçulmano do Sudão. Cerca de 2,5 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas temendo as ações do Janjaweed, milícia conhecida por sua brutalidade contra os rebeldes em Darfur. O governo do Sudão sempre negou que esteja apoiando a milícia. Mas peritos da ONU acusam os representantes de Cartum de dar um apoio velado e de não punir os massacres. O Brasil preferiu aprovar uma resolução proposta pelos próprios governos africanos, que pede o fim da crise, mas deixa a questão para ser resolvida entre os países do continente. A resolução ainda não aponta qualquer culpa do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, e elogia o governo por colaborar com a ONU. Diplomatas do Sudão não escondiam a satisfação em relação à posição brasileira, lembrando que a abstenção era "reflexo da política do governo de Lula em relação à África". "O Brasil tem uma postura muito positiva", elogiou um funcionário de alto escalão do governo de Cartum. Argentina e Uruguai, sócios do Brasil no Mercosul, apoiaram resolução da Europa pedindo investigações sobre o envolvimento do governo. "Está difícil conseguir que o Brasil critique a África", afirmou um experiente negociador argentino na ONU. O Brasil, porém, se aliou a 28 países e aceitou a proposta dos europeus de promover uma reunião especial na ONU sobre o assunto de Darfur, que deve ocorrer em 15 dias. "Não temos problema com a realização de uma reunião. Vamos usá-la para esclarecer tudo", afirmou o diplomata de Cartum. Visita Em um esforço para convencer alguns países considerados estratégicos, o Sudão convidou um diplomata brasileiro para viajar até Darfur, visita confirmada pela missão do Brasil na ONU, há duas semanas. "O Brasil foi convidado por representar a América Latina e para ver com seus próprios olhos que a situação não é a que mostra a mídia. Há uma campanha internacional contra o Sudão e tudo não passa de uma grande mentira", afirmou o chefe da missão do Sudão na ONU, que pediu para não ter seu nome revelado. Na ONU, as autoridades continuam chocadas com a situação em Darfur. O secretário-geral, Kofi Annan, pediu que os países formassem uma aliança para tratar da crise "baseados em princípios" e não se dividissem entre Norte e Sul. "O governo do Sudão e as milícias alinhadas a ele continuam a ser responsáveis pelas mais sérias violações de direitos humanos", disse a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Louis Arbour.

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