Brasil quer maior participação no FMI e G-8

A demanda do Brasil por uma cadeirapermanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) tornou-se a principal alavanca da estratégia do presidente Fernando Henrique Cardoso de inserir o País nos foros de decisão internacionais. O foco dessa tática, entretanto, nãoestá exatamente na conquista do posto fixo nesse conselho. Masna maior participação brasileira nos organismos multelaterais definanciamento, como o Fundo Monetário Internacional e o BancoMundial, e em um G-8, o grupo que reúne as sete nações maisricas e a Rússia, ampliado com economias emergentes.O presidente detalhou sua estratégia em uma conversa informalcom assessores durante um coquetel oferecido pelo cônsul-geraldo Brasil em Nova York, Flávio Perri. Em pé, na sala de jantarda residência, o presidente reconheceu que o assento permanentedo Brasil no Conselho de Segurança da ONU teria um custo elevadoe, portanto, incompatível com as restrições orçamentáriasimpostas pelo ajuste fiscal. Essa posição, por exemplo,significaria uma presença acentuada do País nas operaçõesmilitares da ONU, como as forças de paz. Questionado sobre essadificuldade, o presidente deu uma piscadela e concordou.Logo em seguida, emendou que a participação mais ativa do Brasilnos foros econômico-financeiros internacionais tornou-seprioridade diplomática, assim como seu empenho para que o G-8seja reformado, com a inclusão dos países emergentes. Essespontos estavam presentes no seu discurso na abertura daAssembléia Geral da ONU, ontem. Mas o presidente, que pelaprimeira vez discursava para aquele plenário em seus doismandatos, já estava informado que o ambiente amplo provocariauma dispersão de suas palavras.Daí a execução de sua tática de antecipar suas demandas eargumentos aos líderes europeus e dos Estados Unidos nas semanasque antecederam esse evento. FHC contou que afirmara aopresidente americano, George W. Bush, na última quinta-feira,que o Brasil quer ter uma "voz mais ativa" no mundo. Disseainda que repetira o mesmo discurso aos líderes europeus a quemvisitou no início do mês - o presidente do gabinete espanhol,José María Aznar, o presidente da França, Jacques Chirac, oprimeiro-ministro francês, Leonel Jospin, e o primeiro-ministrobritânico, Tony Blair.Segundo FHC, suas declarações foram recebidas de forma distintapor esses mesmos chefes de Estado e de governo. Aznar, porexemplo, o apoiou integralmente porque a Espanha, apesar de seruma economia desenvolvida, está alijada de boa parte dosorganismos mundiais. Na noite de ontem, o presidente voltou aotema ao falar com jornalistas brasileiros, mas direcionou seusargumentos para a opinião pública nacional."Acho que, crescentemente, o Brasil está compreendendo que éimportante a sua participação no foro global porque a economiaestá globalizada", afirmou o presidente. "Se o Brasil nãotiver a possibilidade de uma voz forte, quem perde são osbrasileiros, na vida cotidiana. É para o povo que interessaisso. Porque aumentam as possibilidades, não só de comércio, mastambém de intercâmbio cultural, de política, de defesa doBrasil."O discurso do presidente, entretanto, teve o seu eco no prédioda ONU. Conforme narrou aos jornalistas, vários líderes da AméricaLatina e da Europa lhe disseram, ainda ontem, que era exatamenteo que pensavam sobre o tema. "Todos me disseram que o que eudisse lá (na abertura da Assembléia Geral) expressava osentimento deles também", declarou.Durante a conversa com seus assessores, o presidente fez umadistinção entre o seu próprio grau de interlocução entre oschefes de Estado das principais Nações, que considera bastanteelevado, e a do País, que ainda se mantém em um patamar tímido.Conforme explicou, seus esforços estão concentrados nesse finalde mandato em promover uma "institucionalização" da presençado Brasil nas discussões de temas de impacto mundiais e nosforos de decisão. Ele chegou a dizer que é o Brasil que deve serum interlocutor forte, e não um ou outro de seus presidentes.Essa seria, portanto, a principal herança de sua diplomaciapresidencial a seu sucessor.Em relação aos organismos financeiros internacionais, opresidente mencionou que vem notando mudanças na orientação doFMI. Mas ele deverá apresentar um forte discurso em favor dareestruturação do Fundo, bem como do Banco Mundial, naconferência das Nações Unidas para o Financiamento doDesenvolvimento, em março de 2002 em Monterrey, no México.Ontem à noite, FHC foi convidado para participar dessa reuniãopelo próprio presidente mexicano, Vicente Fox. "O que forimportante para o Brasil, eu vou. Esse é um caso importante, masnão sei como está a minha agenda", afirmou FHC.No final de agosto, o presidente já havia disparado críticas àcondução do FMI, particularmente à rigidez de sua metologia decálculo das metas de ajuste fiscal que devem ser cumpridas pelospaíses a quem concede empréstimos, como é o caso do Brasil. Comoalternativa, ele propôs que o Fundo passe a adotar os mesmoscritérios previstos pelo Tratado de Maastricht, que rege osistema financeiro e de coordenação macroeconômica da UniãoEuropéia. O Brasil, nos últimos, também vem defendendo o acessoa uma cota maior no FMI, que lhe garantiria maior peso nasdecisões do Fundo.Depois de seu discurso na ONU, FHC teve uma série de encontrosbilaterais, entre os quais com o presidente do Irã, MohammadKhatami. Na conversa, o líder iraniano argumentou que tenta implementaruma versão islâmica da democracia em seu país e condenou osataques terroristas. FHC ainda visitou os escombros das torresdo World Trade Center, o alvo dos atentados de 11 de setembro, econfessou-se comovido, principalmente quando conversou, na saída com um grupo de cerca de 50 americanos."Eu me emocionei porque alguns deles choraram quando eu disseque vinha do Brasil prestar solidariedade", afirmou ele. FHCembarcou hoje, por volta das 11 horas (14 horas, no Brasil) paraBrasília.

Agencia Estado,

11 de novembro de 2001 | 18h34

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