Brasil pode ser o 1º do ranking do linchamento

Brasil pode estar entre os países onde há mais linchamentos no mundo, superando os Estados Unidos, que vinham ocupando a primeira posição desde o século 18, quando surgiu a própria expressão. Muitas dessas execuções são realizadas com alegada motivação de autopreservação, para restabelecer a ordem. Essas são algumas conclusões do sociólogo José de Souza Martins, após 20 anos de pesquisas no País e no exterior. Resultados parciais já foram publicados separadamente, mas a íntegra da pesquisa só surgirá em livro no fim do próximo ano. O estudo se insere num mosaico que Martins vem tecendo com seus estudos sobre o meio rural, os pobres, a violência e a fronteira, abordados em 19 livros, o último dos quais intitulado ´Reforma Agrária, o Impossível Diálogo´. Há cinco anos, ele integra a Junta de Curadores do Fundo Voluntário das Nações Unidas Contra as Formas Contemporâneas de Escravidão. A junta estima que há 200 milhões de escravos no mundo, sob diferentes formas de sujeição. AE - Qual o motivo dos linchamentos? José de Souza Martins - O Brasil está, provavelmente, entre os países que mais lincham. Em nosso caso, a motivação básica é de natureza autodefensiva. Na maioria dos casos, os linchadores estão preocupados com o restabelecimento da ordem e da normalidade social, rompida pela ação de algum de seus membros. Uma proporção muito significativa dos linchamentos é praticada por grupos comunitários, agentes de formas primárias de solidariedade. Isso não exclui atos praticados por grupos de anônimos. AE - Em que consiste sua pesquisa? Martins - A pesquisa vem sendo feita há cerca de 20 anos. No início consistiu num levantamento sobre o tema e na criação de um protótipo de banco de dados. Simultaneamente, aproveitei viagens ao exterior para levantar material sobre o assunto. O linchamento tende a ser uma explosão súbita de violência contra uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas. Fiz várias tentativas de estudar a previsibilidade dessas ocorrências. Nenhuma se confirmou. Mesmo que se confirmassem, a única alternativa ética seria evitar o linchamento. AE - Como lidar com esse problema? Martins - O pesquisador se torna dependente de uma fonte que muitos consideram inconsistente: os jornais. É verdade que há uma porcentagem de crimes definidos erroneamente como linchamentos. E há outra em que os crimes são linchamentos e não aparecem como tais. Os Estados Unidos realizaram o maior número de estudos sobre esse tema. O país foi também, até os anos 30, o que mais linchou desde o século 18. AE - Como o senhor chegou a esse tema? Martins - Quando iniciei a pesquisa sobre os conflitos fundiários, especialmente na Amazônia, em 1977, estava interessado no estudo dos movimentos sociais. De fato, era esse o tema do projeto de pesquisa. Iniciei pesquisas sobre o conflito fundiário, linchamentos e saques. Em pouco tempo, porém vi uma realidade que ia sendo absorvida por conflitos políticos e, já hoje, partidários. Ficava difícil fazer interpretações consistentes em cima de dados que estavam cada vez mais contaminados por outras dimensões da realidade. Precisava de um referencial comparativo mais autêntico. Escolhi, então, os linchamentos, porque eles ainda dizem respeito, na história da teoria dos movimentos sociais, ao chamado comportamento coletivo. AE - Formas primitivas de exploração subsistem em todo o País? Martins - Infelizmente, estão difundidas por todo o País, a partir de ocorrências mais sistemáticas e intensas na região amazônica, nos anos 70 e 80. Isso está acontecendo não só no Brasil, mas no mundo todo, incluindo Europa, Estados Unidos e a China comunista. AE - O Brasil é socialmente arcaico? Martins - O Brasil é, sobretudo, um país contraditório de um modo particular. Aqui, o arcaico não só sobrevive, mas se renova com as energias da modernização e da transformação social. A transição política, que tem como uma de suas conseqüências a reforma do Estado e a modernização política, só pode ser feita mediante um pacto com as forças da tradição e das oligarquias e com sua anuência. O MST é encarado por suas bases mais populares de modo clientelista.

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