Brasil pode deixar tratado de não-proliferação nuclear

O secretário-geral do Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, disse no VI Encontro Nacional de Estudos Estratégicos que "é possível" que o Brasil venha a denunciar (se retirar de) o tratado de não-proliferação de armas nucleares. Respondendo a pergunta de um militar sobre isso, segundo a qual Índia, China e outros países vêm fazendo maciços investimentos em armas nucleares, Pinheiro Guimarães completou que "não é impossível não, tanto que a Coréia do Norte denunciou".O embaixador acredita que haverá uma modificação no tratado "porque a Índia já é uma potência nuclear". Assim, argumentou, não poderia participar do tratado como se não fosse.Pinheiro Guimarães lembrou que a Constituição brasileira diz que o País não terá armas nucleares. Argumentou que evitar a proliferação de armas nucleares e promover o desarmamento, objetivos do tratado, atendem assim "a um anseio da população". De acordo com ele, porém, essa não é uma posição de todos os países. Ele observou que países que já tinham armas nucleares continuam "altamente armados", investindo em armas sofisticadas. Citou aviões sem piloto no Iraque com o vôo dirigido a partir de equipamentos no Estado americano do Texas. "Com o que houve na Coréia do Norte (teste de explosivo nuclear), alguns países anunciaram intenção até de rever suas constituições para ter armas nucleares", disse.Pinheiro Guimarães registrou que o Brasil tem tecnologia "muito avançada, até maior que a de outros países" em enriquecimento de urânio e é "o 5.º ou 6.º país com maiores reservas do mundo" nesse mineral. "É preciso ter cuidado nesses campos que podem vir a atingir o interesse brasileiro", afirmou.TerrorismoPinheiro Guimarães afirmou também que na região da fronteira do Brasil com Argentina e Paraguai não há "nenhum incidente, nenhuma denúncia, nenhuma prisão, nada" que se relacione a terrorismo. Lembrou que o Brasil tem grandes comunidades árabe e judaica que convivem aqui "muito pacificamente". Ressaltou que "isso é muito importante e é muito importante evitar que sejamos envolvidos nessas questões do Oriente Médio".Para ele, "a origem do terrorismo está no Oriente Próximo". Ele argumentou que "ali há desrespeito aos direitos humanos, algo terrível, de pessoas que apelam para suas únicas possibilidades, que se tivessem aviões de combate, usariam aviões de combate". Sem citar explicitamente o Estado de Israel, o secretário-geral disse que "derrubado o Muro de Berlim, alguns países não satisfeitos com isso resolveram construir muros".Pinheiro Guimarães comentou ainda que vários países usam os investimentos militares para impulsionar pesquisa, desenvolvimento e industrialização de produtos também de uso civil.Estados UnidosPinheiro Guimarães considera que "os Estados Unidos têm importância óbvia para o Brasil". Para ele, os Estados Unidos são, "de longe, o principal parceiro comercial do Brasil, o principal investidor, o principal fornecedor de tecnologia - e maior recebedor de royalties por essa tecnologia - e a maior influência cultural no Brasil".Ele descreveu a política do governo Lula para os Estados Unidos como "independente, mas não confrontacionista", centrada nos interesses brasileiros, mas "cooperando com tudo o que for necessário com os Estados Unidos".Ao público do evento, formado principalmente por militares, o diplomata disse que "só países que se fazem respeitar são respeitados e o presidente Lula faz questão de que o Brasil seja respeitado".Pinheiro Guimarães lembrou que o presidente brasileiro "falou como era importante evitar o uso da força no Iraque", antes da invasão americana àquele país. Lembrou também que o Brasil tem posições diferentes das dos americanos em relação à Venezuela, aos acordos econômicos e outros temas mas que "não há nenhum contencioso". "Respeitamos a posição dos Estados Unidos e eles respeitam a nossa", disse.Ele afirmou que "quando o presidente Bush esteve aqui fez os maiores elogios ao governo do Brasil". Também disse que a secretária de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab, que tem cargo equivalente a de ministra de Estado, "pediu para vir ao Brasil participar da reunião do G-20 (grupo de países que atuam juntos na Organização Mundial de Comércio quanto a área agrícola)."

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