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Brasil não vai à guerra e não apoia sanções, mas tem de repudiar veementemente a guerra

Da viagem de Bolsonaro à Moscou, o que fica, agora e para a história, é o presidente do Brasil declarando 'solidariedade' à Rússia, enquanto Putin se engalfinhava com EUA, Europa, Japão, Austrália...

Eliane Cantânhede, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 03h00

Ao invadir a Ucrânia por ar, terra e mar, Vladimir Putin chacoalha o mundo no fim da pandemia, ameaça a economia internacional, confronta a Europa, enfraquece Joe Biden e fortalece a volta de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos, ainda a maior potência. Isso tem consequências no Brasil? Obviamente que sim.

Cuidado com o calibre dos ataques a Biden. Quanto mais a diplomacia, a academia e a mídia esculacham Biden, mais crescem as chances de um novo mandato para Trump, o que é conveniente para Putin, que interferiu a favor de Trump contra Hillary Clinton nas eleições americanas, e para o presidente Jair Bolsonaro, que disputa a reeleição e espaço na extrema direita internacional.

Por isso, a posição do Brasil na guerra evoluiu mal: a cúpula do governo avaliava que Putin ganhava muito com as ameaças de invadir a Ucrânia, mas não chegaria ao ponto de cumprir essas ameaças. Daí a decisão de manter a viagem de Bolsonaro à Rússia e de não orientar os brasileiros a deixarem a Ucrânia. Nem plano para tirá-los de lá havia.

Dessa viagem, o que fica, agora e para a história, é o presidente do Brasil declarando “solidariedade” à Rússia em Moscou, enquanto Putin se engalfinhava com EUA, Europa, Japão, Austrália... Os mesmos, aliás, que, após os primeiros ataques, também lideraram as sanções ao governo, empresas e autoridades russas.

O Brasil não apoia sanções, nem mesmo contra Cuba, no passado, e o Irã, depois. Além disso, decisões da Assembleia-Geral da ONU não têm efeito jurídico vinculante e o Brasil só endossaria sanções caso o Conselho de Segurança apoiasse. Impossível: a Rússia é um dos cinco membros efetivos e tem poder de veto.

Assim, o Brasil não vai à guerra e não vai aderir às sanções. Só pode condenar veementemente a invasão da Ucrânia, como americanos, europeus, diplomatas e políticos brasileiros, ou fazer notas pedindo “suspensão imediata das hostilidades”, como o Itamaraty fez ontem.

Com a guerra, dólar, euro e os preços do petróleo, do gás, do pãozinho e do macarrão tendem a disparar – Ucrânia e Rússia produzem 30% do trigo do mundo. O impacto é na inflação, nos juros e, como sempre, no crescimento do Brasil, já tão baixo e instável.

Alguém precisa dizer ao PT que Putin pode até ter razão ao temer a Ucrânia na Otan, mas ele não é amigo e invasão de países é violação do direito internacional. E também explicar a Bolsonaro que gasolina, dólar, pãozinho e macarrão caros e inflação alta não combinam com reeleição. Guerra mata, destrói e tem de ser duramente condenada pela esquerda e pela direita num país historicamente pela paz.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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