Brasil não tem estratégia nacional de defesa, diz Mangabeira

Ministro afirma estar formulando, junto com Nelson Jobim, uma reestruturação das Forças Armadas

Fabíola Salvador

03 de outubro de 2007 | 11h27

Em sua primeira aparição pública após as mudanças na forma da secretaria que irá cuidar do planejamento de longo prazo, o professor Roberto Mangabeira Unger afirmou ter constatado que "não há estratégia de desenvolvimento nacional sem estratégia nacional de defesa". "Nós não temos no Brasil uma estratégia nacional de defesa, não temos uma prática de discussão civil e nacional dos nossos problemas militares", afirmou.   Mangabeira disse que está trabalhando com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e com as Forças Armadas na formulação de uma estratégia para a ação das Forças Armadas numa série de hipóteses concretas de paz e de guerra. Além disso, eles estudam a reorganização das Forças Armadas, com "vanguarda tecnológica e operacional", baseada em capacitações nacionais.   O ministro participou de um café da manhã, na Câmara dos Deputados, organizado pela Frente Ambientalista. A saída encontrada pela Presidência da República para manter a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, extinta semana passada com a derrubada da Medida Provisória 377 pelo Senado, será a edição de um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva criando o Ministério Extraordinário de Assuntos Estratégicos. O decreto, porém, ainda não foi publicado no Diário Oficial.   Na conversa com os deputados, Mangabeira Unger não quis comentar se a extinção da secretaria atrapalhou seu trabalho. "Minha função é ajudar a formatar e discutir uma proposta que atenda ao desejo mais forte do País: elaborar um modelo de desenvolvimento baseado na ampliação do crescimento econômico e da inclusão social", disse.   Subserviência   Para Mangabeira, o principal problema do País não é nem político nem econômico. "O Brasil é um grande caldeirão que fervilha. A característica mais saliente do País é sua vitalidade. Mas o nosso problema nacional mais importante não é nem político e nem econômico. É nossa disposição para obedecer, para aceitar o formulado, o que nos impõe ou recomendam de fora. Audácia e imaginação. Disposição para revelar-se. É o que eu quero ver instalado no Brasil", disse.   Economia   O futuro ministro extraordinário afirmou que a economia brasileira está sob ameaça de ficar imprensada entre as economias de trabalho barato, como a China e Índia, e aquelas de alta produtividade. Ele disse que o interesse do País é "escapar da prensa" pelo lado alto, ou seja, da valorização do trabalho e da escalada de produtividade. "Não queremos escapar pelo lado baixo, de aviltamento do trabalho."   Ele contou que chegou a algumas constatações durante o período de cerca de 90 dias em que esteve à frente da secretaria. A primeira, disse ele aos parlamentares, é que não adianta formular projetos conceituais abrangentes, ou seja, escrever documentos. "Seria uma peça de museu, sem nenhuma conseqüência inovadora", concluiu. Uma outra conclusão é que é preciso pensar um projeto de estado e não apenas de governo.   "É preciso um projeto que tenha vida mais longa que a vida do atual governo", disse. Entre esses projetos, ele citou a criação de uma rede de escolas médias federais que possam oferecer ensino "analítico e capacitador".   Amazônia   Mangabeira afirmou que a questão da Amazônia é um dos pontos de avaliação de seu ministério. De acordo com ele, há duas imagens da Amazônia. A primeira é a da região como um grande parque para deleite da humanidade, sem atividade econômica. Por outro lado, há, segundo ele, a idéia de que a Amazônia vai virar o Mato Grosso, da soja e da pecuária. "Essas duas idéias devem ser rejeitadas; não podemos aceitá-las", afirmou Unger.   Unger defendeu que o ponto de partida para essa discussão é a elaboração de um projeto de gestão territorial ou zoneamento econômico e ecológico, além do desenvolvimento de projetos produtivos para cada uma das microrregiões da Amazônia.   Unger defendeu o aproveitamento de novas fontes de energia, entre elas a biomassa; o avanço da biotecnologia; e a prestação de serviços para as populações que estão dispersas na região. "Para conseguirmos ter na Amazônia um paradigma de produção que reconcilie experimentalismo produtivo com preservação ambiental, nós precisamos também reconciliar a dispersão da população" afirmou.

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