Brasil investe para fabricar hemoderivados

Cientistas brasileiros podem dominar, até 2003, a técnica de engenharia genética que permite a fabricação de hemoderivados para tratamento de hemofílicos. Quatro laboratórios de universidades públicas e da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto integram a rede de pesquisa lançada oficialmente hoje, em Brasília, para desenvolver a nova tecnologia no País."Se não fizermos isso, vamos ficar dependendo eternamente da compra de pacotes fechados de outros países", disse o diretor da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Jorge Ávila. Ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, a Finep vai destinar R$ 3,4 milhões ao projeto, que é coordenado pelo diretor-presidente da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Dimas Tadeu Covas.A importação dos fatores coagulantes usados no tratamento de hemofílicos custou ao Ministério da Saúde R$ 95 milhões nos últimos 12 meses. O produto que chega ao País, no entanto, é fabricado a partir de plasma humano, método mais barato do que a técnica recombinante, de engenharia genética. Isso ocorre, segundo o coordenador, porque ainda é reduzida a oferta de fatores de coagulação recombinantes.Os cientistas envolvidos na pesquisa destacam que a produção via engenharia genética apresenta vantagens operacionais e de segurança. Afinal, dispensa a necessidade de coleta de milhões de doações de plasma para a extração das proteínas coagulantes. Por isso também não exige exames para a detecção de vírus HIV ou de sífilis.Os fatores plasmáticos 8 e 9, usados por hemofílicos, são produzidos pelo organismo humano e se encontram no plasma sanguíneo. A tarefa dos pesquisadores consiste em isolar e mapear o gene responsável pela produção das substâncias. Feito isso, a equipe vai inserir esse gene em células de outros seres vivos, como vacas e insetos, para obter in vitro a produção das proteínas coagulantes.Apesar de lançada hoje, a pesquisa está em andamento desde janeiro. "Os resultados preliminares são positivos e estão dentro do prazo", afirmou Dimas. Depois de dominar a técnica, será preciso desenvolver a capacidade de produção em larga escala, o que poderá levar mais alguns anos. Além da fundação, fazem parte da rede laboratórios da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade de Brasília (UnB).Cada laboratório assumirá uma parte do trabalho. Na universidade gaúcha, por exemplo, os cientistas tentarão produzir os fatores plasmáticos de coagulação usando células de vaca, enquanto na USP serão empregadas células de insetos. "A rede de pesquisa nos permite resolver problemas num tempo menor", disse Dimas.Esforço semelhante permitiu, na última década, que o País conseguisse produzir insulina humana via engenharia genética, em pesquisa que contou com a participação de pesquisadores da UnB. "Além do ganho tecnológico, vamos ter uma importante formação de pessoal", disse o chefe do Departamento de Biologia Celular da UnB, Jaime Santana. De acordo com a assessoria de Imprensa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), existem cerca de 7.500 hemofílicos no Brasil.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.