Brasil inicia ação para uso correto do antibiótico

O País parece enfim acordar para umdos mais importantes problemas de saúde pública mundial: asbactérias super-resistentes. Para tentar frear o desenvolvimentodesses microrganismos, que provocam infecções de difíciltratamento, duas ações estão sendo desencadeadas no Brasil.Ambas com o objetivo de reduzir o uso incorreto de antibióticos,uma das principais causas do desenvolvimento dassuperbactérias. A primeira ação foi deflagrada este mês. A AgênciaNacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) montou uma comissão deespecialistas para discutir o assunto. A segunda é o lançamentooficial, na próxima semana, da Aliança para Uso Prudente deAntibióticos (Apua), uma organização internacional criada háalguns anos , que atualmente conta com membros em mais de 90países. O objetivo da associação é promover pesquisas ecampanhas educativas na área de antibióticos. "Só o fato de ter demorado tanto para fundarmos umaassociação como essa no País já demonstra o quanto temos deixadode lado o assunto", afirma o professor de infectologia daUniversidade Federal de São Paulo e presidente da Apua-Brasil,Hélio Sader. Na avaliação do professor, o Brasil sofre com a falta deconhecimento sobre antibióticos e o risco de seu uso excessivo.Embora a venda do medicamento deva ser feita apenas com receitamédica, é muito fácil alguém ir a uma drogaria e comprar oproduto livremente. Outro erro bastante comum é usar remédiosque sobraram de um tratamento anterior, interromper a medicaçãoou tomar doses inadequadas. "As subdoses, em vez de matar asbactérias, permitem que elas criem mecanismos de resistência",explica a médica Flávia Rossi, do Laboratório de Microbiologiado Hospital das Clínicas de São Paulo. As falhas não são cometidas apenas pela população.Muitos médicos não hesitam em receitar antibióticos a seuspacientes mesmo quando há dúvidas se a infecção é provocada porbactérias ou por outro agente.DrogaOs erros não páram por aí. Antibióticos sãodivididos em classes. Para cada grupo de bactéria, há uma drogaindicada. Não é raro, porém, o emprego ser feito de formainadequada. "Muitos acreditam que prescrevendo a seus pacientesum remédio de última geração estão acertando, mas é um grandeengano", adverte Flávia. Técnicos do governo, no entanto, admitem que ainda estãoengatinhando no tema. "Há uma série de coisas que temos deinvestigar antes de tomarmos qualquer medida", afirma acoordenadora do Programa Nacional de Controle de InfecçãoHospitalar, Glória Maria Andrade, que integra a comissão criadapela Anvisa. "Mas não podemos mais esperar. O abuso deantibióticos acarreta problemas, não só para o paciente, maspara toda população." Por enquanto, ela descarta a adoção demedidas mais drásticas, como a venda do remédio com retenção dereceitas médicas. "Temos outras coisas para definir." As dúvidas são muitas. Não há, por exemplo, estatísticasconfiáveis demonstrando quantos antibióticos o brasileiro toma.Não há também dados sobre quais são as bactérias mais comuns, deacordo com as regiões do País. Pior: poucos são os laboratóriosde microbiologia aptos a fazer esse exame com rapidez eexatidão. "Nosso trabalho será muito grande. Mas uma coisa écerta, vamos eleger alguns laboratórios de referência, para ondeexames serão encaminhados." Sader afirma ser imprescindível a melhoria do sistema devigilância e controle dos surtos provocados por bactériasresistentes. "Com mapas de controle, é mais fácil detectarquando um surto aparece e, dessa forma, agir com maiorrapidez."

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