Brasil faz acordo sobre satélite com Colômbia

Em troca de prazo maior para ocupação de órbita, País quer apoio político em organizações internacionais

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

24 Outubro 2007 | 00h00

O governo brasileiro concordou em dar um prazo até 2010 para que os países andinos usem sua órbita para o lançamento de um satélite. Em troca, quer o apoio político dos vizinhos em temas de seu interesse nas organizações internacionais, a participação dos Correios na reforma dos serviços postais da Colômbia e até uma eventual adoção da tecnologia brasileira na TV digital que será desenvolvida nesse país.Ontem, em Genebra, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, reuniu-se com a ministra das Telecomunicações da Colômbia, Maria do Rosário Guerra, para tentar chegar a um entendimento sobre a disputa pelos céus da América do Sul e evitar um mal-estar com os vizinhos. Ao fim do encontro, baixou o tom das declarações da véspera, preferindo ser mais diplomático: "Não queremos complicações maiores com nossos vizinhos. Deixamos claro que não vamos nos opor à prorrogação nem desalojar ninguém."Na véspera, o ministro fora enfático sobre a necessidade desse espaço para um novo satélite brasileiro. "Precisamos dessa posição orbital", afirmou Costa na segunda-feira, explicando que o Brasil destinaria R$ 700 milhões ao novo projeto.Na verdade, conforme revelou o Estado ontem, há uma guerra entre os países sul-americanos pelas órbitas e o Brasil acredita que a Venezuela de Hugo Chávez esteja envolvida no financiamento da construção de um satélite dos países andinos, o que a delegação venezuelana em Genebra nega.Apenas a União Internacional de Telecomunicações (UIT) pode definir que países vão ocupar os espaços orbitais. Mas o Brasil alegava que a concessão para os andinos havia terminado em setembro, sem que os governos da região tivessem usado a órbita disponível.O Brasil começou a se preparar para ocupar a posição ociosa, mas os andinos pediram permissão para ampliar o prazo. Como a Venezuela fez o mesmo pedido, aumentaram as suspeitas de que o governo de Chávez esteja por trás do financiamento desse programa. Agora, caberá à UIT decidir se dá mais tempo para os países andinos.Costa acredita que a entidade internacional não vai negar a ampliação do prazo, principalmente diante do sinal verde dado pelo Brasil. Mas avisou que, se o limite de 2010 não for cumprido, o País voltará a pedir para usar essa órbita. "Precisamos de satélites", disse. Hoje, o Brasil conta com nove posições orbitais, mas considera que não pode se privar, se tiver o direito de ocupar outras.BARGANHAEm troca do acordo sobre o satélite, o governo brasileiro quer retribuições políticas dos andinos. A primeira é o apoio em organismos internacionais. No ano passado, o Brasil perdeu as eleições para comandar a UIT e nem mesmo os países da região votaram pelo candidato brasileiro, Roberto Blois.Além disso, o Brasil espera vetar a proposta americana de já definir as freqüências no satélite para o uso da TV digital. Para isso, precisa de votos na UIT.Outro fator na negociação é a participação dos Correios na contratação que a Colômbia fará para reformular seu serviço postal. O ministro Costa ainda insinuou que espera que Bogotá adote o mesmo sistema de TV digital a ser implementado no Brasil. "Vamos mostrar que nossa tecnologia é robusta", afirmou ele. A adoção de um sistema igual permitiria a exportação de televisores do mesmo padrão para o mercado andino a partir do Brasil.

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