Brasil exigirá explicações da França sobre operação na Amazônia

O ministro-interino das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, declarou nesta quarta-feira que o governo aguarda um pedido de desculpas da França pelo fato de não ter comunicado a autoridades brasileiras o real objetivo da tripulação de um avião militar, que posou em Manaus no último dia 9 e foi expulso do País depois de quatro dias de permanência. Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, o embaixador insinuou que o chanceler francês, Dominique de Villepin, mentiu ao ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, no último dia 12, quando apresentou os objetivos ?humanitários? dessa missão. ?O que aconteceu entre os dias 9 e 12 de julho não correspondeu à descrição de Villepin ao chanceler Amorim. Só esse fato foi suficiente para que o chanceler ordenasse a imediata saída do avião do território brasileiro?, afirmou o ministro-interino aos deputados. ?Se o que (os franceses) pretendiam fazer foi abortado, não temos indicações concretas. Por isso, pedimos esclarecimentos e escusas (ao governo da França)?, acrescentou, ao responder sobre o suposto intento de resgate da senadora colombiana Ingrid Betancourt na fronteira entre o Brasil e a Colômbia. Mesmo com as possíveis desculpas da França, o assunto está longe de ser resolvido no parlamento brasileiro. A presidente da Comissão de Relações Exteriores, deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP), afirmou que serão convocados a dar explicações o ministro da Defesa, José Viegas Filho, e o embaixador francês do Brasil, Allan Rouquié. Na casa, enquanto o deputado Fernando Gabeira (PT-RJ) argumentava que essa discussão era secundária e que o importante seria a libertação de Betancourt, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) defendia a expulsão de diplomatas franceses envolvidos no episódio do País. Segundo Pinheiro Guimarães, a primeira informação oficial sobre a presença no País do avião francês, um Hercules 130, se deu quando Amorim recebeu o telefonema de Villepin, no dia 12. O chanceler brasileiro estava, naquele momento, em Lisboa. Dois dias antes, quando a aeronave já estava em Manaus, ambos haviam se encontrado pessoalmente em Londres, durante a reunião de cúpula da Governança Progressista. Villepin, de acordo com o ministro-interino, avisou Amorim que a tripulação da aeronave daria apoio médico e psicológico a um parente de Betancourt, sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em fevereiro do ano passado. Villepin mencionara ainda a Amorim que esse parente de Betancourt esperava um contato da ex-senadora ? uma carta ou fita cassete ? por meio de um religioso e que essa operação poderia resultar na sua libertação. Segundo Pinheiro Guimarães, Amorim questionou o chanceler francês se haveria contatos dessa missão com integrantes das Farcs e se havia armamento dentro do avião. As respostas dadas por Villepin foram negativas. Questionado pelo deputado Coronel Alves (PL-AP) se o governo francês teria mentido para o Brasil sobre essa operação de resgate, Pinheiro Guimarães preferiu desconversar. ?Não vou comentar. Mas posso falar depois com vossa excelência pessoalmente.? Aos deputados, Pinheiro Guimarães ressaltou que ?não houve violação à soberania nacional? durante o episódio. Conforme explicou, o avião recebeu as devidas autorizações para sobrevôo e pouso em território brasileiro das autoridades competentes. Mas reiterou que ?não foi normal? o fato de a missão ter se desenrolado de forma contrária à que Villepin havia anunciado formalmente a Amorim. O ministro-interino ainda explicou que o governo brasileiro estaria disposto a negociar a libertação de Betancourt, desde que o atual governo colombiano solicitasse essa intermediação. Entretanto, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, apenas agradeceu o governo brasileiro pela sua atitude nesse episódio, segundo Pinheiro Guimarães.

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