Brasil-Estados Unidos: uma aliança essencial e necessária

A visita da presidente Dilma Rousseff a Washington poderá inaugurar uma nova etapa nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Parceiros históricos, as duas maiores economias e principais polos de poder nas Américas buscam sair do hiato que marcou o diálogo dos últimos anos com vistas a reduzir as divergências, eliminar as desconfianças e impulsionar uma aproximação estratégica.

Hussein Kalout, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 19h37

Essa relação histórica não necessita de alinhamentos automáticos, tampouco de subordinação de interesses de parte a parte, mas sim da compreensão mútua dos valores fundamentais que podem vir a se transformar nos pilares de uma parceria edificada em questões de interesse comum: segurança internacional, governança global, estabilidade democrática e a promoção de um padrão de comércio internacional mais fluido e equilibrado.

Contudo, a fina sintonia no espectro político entre Washington e Brasília ainda está longe de ser equiparada ao patamar do diálogo EUA-Índia ou até mesmo EUA-Colômbia, por exemplo.

Da perspectiva de Washington, o discurso da política externa brasileira, por vezes, é dissonante em relação aos EUA. Ao mesmo tempo em que o Brasil busca o apoio norte-americano à aspiração do País de possuir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, na narrativa brasileira paira, ainda, uma espécie de viés antiamericanista, a qual se reflete na tendência a identificar nas iniciativas dos EUA gestos oblíquos que visam restringir o papel de atores ascendentes no sistema internacional. 

Já do ponto de vista de Brasília, persiste a impressão de que os norte-americanos seguem incapazes de assimilar a estatura e a evolução política do Brasil nos ditames internacionais. Na concepção da diplomacia brasileira, o Estado norte-americano não dispensa ao Brasil um tratamento compatível com sua real importância na ordem mundial. Devido à inexistência de uma política própria para o Brasil, os EUA, ao fim, acompanham sob um olhar de desconfiança algumas iniciativas brasileiras centradas em ampliar a presença e a influência do país nos contextos regional e mundial. 

Todavia, a ausência de convergência entre Washington e Brasília se circunscreve à forma como cada lado interpreta a magnitude dessa relação. Falta uma interpretação coerente do que se chama uma parceria alçada ao patamar de "diálogo estratégico".

A ausência de posicionamentos claros e contundentes da política externa brasileira em temas sensíveis e de profundo interesse de Washington tem levado os últimos governos americanos a se questionarem se o Brasil seria, de fato, um país que mereça ser considerado parceiro estratégico. 

Para os EUA, a definição da termo "relação estratégica" é edificado sob um prisma vinculado a três vértices: defesa, segurança e comércio. Na gramática "washingtoniana", somente a conjugação desses ângulos tende a abrir caminho para o adensamento de um diálogo político definido como "parceria estratégica".

Se nos debruçarmos com objetividade chegaremos à conclusão de que: 1) a cooperação entre o Brasil e os EUA na área de defesa é limitada; 2) o diálogo em matéria de segurança é quase inexistente; 3) O intercambio comercial é subaproveitado.

No que diz respeito ao comércio, o Brasil precisa redimensionar o seu paradigma de como decodificar o que os norte-americanos entendem por uma "fluida parceria comercial". Na qualidade de país que busca se projetar como ator relevante no processo decisório internacional, com o objetivo de construir uma nova "geometria" comercial no mundo, a indagação precípua a se fazer é: o que o Brasil representa na escala de importância dos EUA como plataforma viável para a consecução de oportunidades econômico-financeiro-comerciais?

Em números, as exportações brasileiras para os EUA representam, em média, apenas 1,2% das importações norte-americanas no mundo. Já as importações brasileiras representam 2,5% do total das exportações dos EUA. Em 2014, os Estados Unidos tiveram um superávit de quase US$ 12 bilhões com o Brasil. Os investimentos brasileiros representam 1% dos investimentos estrangeiros diretos nos EUA. Não obstante, dos US$ 5.5 trilhões de investimentos diretos norte-americanos no exterior, o Brasil é receptor de apenas cerca 2% do total desses investimentos. 

A tríade defesa-comércio-segurança seguirá no topo da ordem de prioridades da política externa norte-americana. O Brasil precisa mudar esses números e construir uma tangível agenda estratégica e programática, focada na moldagem de um novo padrão de relacionamento bilateral. O Brasil precisa mudar os parâmetros de seu paradigma no engajamento com Washington. Aproximação na área educacional, ciência e tecnologia e ambiental são importantes para qualificar o nosso desenvolvimento. Porém, o potencial de ambos os países é para mais do que isso.

Pontos de dissonância tendem mesmo a aumentar à medida que as relações se aprofundam. Assim, a visita da presidente Dilma deve se enquadrar em um plano de reconfiguração dessas relações, de modo a explorar a possibilidade de encontrar novos alinhamentos em temas centrais da agenda internacional em que existam mais pontos complementares do que díspares. 

Tudo indica que o governo norte-americano tenciona "rediagramar" a importância do Brasil em sua agenda internacional. Washington encontra-se disposta a projetar um espaço maior para o Brasil em sua agenda externa e é imperativo que o Brasil saiba o que quer e como encaminhar suas aspirações junto aos EUA - assim como Índia e outros países do porte brasileiro. 

A política externa americana somente confere prioridade a países considerados aliados, ou a países tipificados como imprescindíveis para a consecução de seus projetos internacionais ou, por fim, a países classificados como adversários no tabuleiro estratégico mundial. O Brasil encontra-se numa topologia de Estados fora dessa curva. Por essa razão, o País tem recebido por parte da diplomacia americana uma atenção secundária. 

Joaquim Nabuco, responsável pela primeira representação diplomática de alto nível no exterior, à frente da embaixada em Washington, ponderou: aliança dessa natureza é essencial para a projeção do Brasil no cenário internacional. É responsabilidade do Estado brasileiro dela saber tirar proveito para melhor defesa dos interesses nacionais.

*HUSSEIN KALOUT é cientista político e pesquisador da Universidade Harvard. Integra o Advisory Board da Harvard International Review e atua como Conselheiro Sênior do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

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