Brasil e França assinam acordo de aliança estratégica na área militar

Um dos pontos do protocolo assinado pelos ministros de Defesa prevê livre circulação de militares dos dois países

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2008 | 00h00

Os governos do Brasil e da França fecharam ontem, em Paris, o primeiro item da "aliança estratégica" para o setor de defesa. Um acordo que prevê a livre circulação de militares entre os países foi assinado pelos ministros da Defesa brasileiro e francês, Nelson Jobim e Hervé Morin. Minutos antes, Jobim fora recebido pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, no Palácio do Eliseu, entre audiências com o ex-vice-presidente americano Al Gore e o fundador da Microsoft, Bill Gates.Durante 30 minutos, eles encaminharam acordos que serão anunciados na Guiana Francesa, em 12 de fevereiro, durante o primeiro encontro entre os presidentes dos dois países. O acordo foi confirmado na saída do Ministério da Defesa da França. Morin disse que os entendimentos são fruto de conversas diretas entre Sarkozy e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Frisou que o objetivo maior é a parceria estratégica em cultura, economia, educação, treinamento e tecnologias militares."Após o encontro entre os dois presidentes, vamos aprofundar mais o acordo. Queremos que o Brasil seja o maior parceiro estratégico da França na América Latina, assim como queremos que a França seja o parceiro estratégico do Brasil na Europa", enfatizou o ministro francês. "Estamos convencidos de que o mundo do século 21 terá o Brasil como potência." Os detalhes do acerto não foram divulgados. "São questões técnicas que precisam ser ajustadas. Daremos mais detalhes a seguir", destacou Jobim.Entre as cláusulas do acordo, deve constar a proibição de que militares franceses sejam processados no Brasil e vice-versa. Outro ponto será o intercâmbio de pilotos para treinamento. O Ministério da Defesa brasileiro se mostra interessado, ainda, em aplicar diretrizes do programa Soldado do Futuro, desenvolvido pela França. O documento não prevê a construção de bases militares nos dois países, nem treinamento na região amazônica, como vinha sendo cogitado.BASENa manhã de hoje, a comitiva do Ministério da Defesa, incluindo Jobim e o comandante da Marinha, almirante de esquadra Julio Soares de Moura Neto, visitarão a base aeronaval de Dugny, em Le Bourget, nas imediações de Paris. De lá, partem em avião para Toulon, no sul da França, onde conhecerão uma base de submarinos.Lá, Jobim vai conhecer o submarino nuclear de ataque (SNA) de Classe Rubi, de propulsão e armamento nuclear. O equipamento, fabricado pela DCNS - estaleiro de capital do Estado (75%) e da Thales (25%) -, é similar ao que o governo brasileiro ambiciona construir no Brasil, a partir do acordo para a compra e transferência de tecnologia, em negociação.A idéia do ministério é produzir no Brasil o casco, o "recheio cibernético" e o armamento, já que as Forças Armadas têm o domínio do combustível nuclear. A eventual versão brasileira do Rubi, um dos mais compactos submarinos nucleares do mundo - com 73,60 metros e capacidade para 70 homens -, pode ter uma diferença fundamental: levaria armamento convencional, não nuclear.A Marinha francesa tem seis Rubis em operação desde os anos 80. Mas este não é o mais atual projeto em estudos no país. Por encomenda do governo, feita em 2002, a DCNS já desenvolve os submarinos da Classe Barracuda, em construção desde 19 de dezembro de 2007 e com lançamento previsto para o ano de 2016.O interesse do governo brasileiro pelos submarinos franceses pode ser medido por dois elementos: serão duas as visitas da comitiva a locais onde se encontram os Rubis e os Barracudas, a primeira hoje e a outra amanhã, ao estaleiro da DCNS em Cherbourg, na Baixa Normandia. O segundo e mais forte elemento vem dos sinais emitidos pelo próprio ministro da Defesa. Na segunda-feira, em entrevista concedida em Paris, Jobim afirmou: "Queremos construir o submarino nuclear brasileiro. E a parceria com a França está definida porque é o único país que tem disponibilidade de transferir tecnologia."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.