Brasil e França às portas de uma crise diplomática

Brasil e França estão às portas de uma crise diplomática, embora tenham tido, até a recente ?missão humanitária? francesa na Amazônia, uma fase de excelentes relações. O mal-estar causado pela chamada ?operação 14 de julho? ? cujo objetivo era resgatar a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, seqüestrada há um ano e meio pela guerrilha colombiana das Farc ? ainda perdura. Nesta quarta-feira, uma fonte francesa revelou ao Estado a crescente preocupação das autoridades diplomáticas do país, que não sabem o que fazer para contornar a crise ante da exigência de desculpas do governo brasileiro por não ter sido devidamente informado dos objetivos da expedição. A mesma fonte admite que o caso pode ter desdobramentos políticos mais sérios, não descartando a possibilidade de cabeças de expressão no governo francês rolarem. Isso explica o fato de o embaixador da França no Brasil, Alain Rouquié, ter sido convocado pela segunda vez em menos de uma semana pelo Ministério das Relações Exteriores brasileiro, interessado em obter explicações ?mais consistentes? do ocorrido, insatisfeito com o teor das primeiras explicações do chanceler francês, Dominique de Villepin. Este disse à TV francesa que, em razão do sigilo que a missão exigia, Brasil e Colômbia foram devidamente informados ?tão logo as condições permitiram?. Também o segundo nome do Quai d?Orsay (a chancelaria francesa), Renaud Musselier, procurou explicar na TV a importância das relações privilegiadas que a França mantém com o Brasil e as muito boas com a Colômbia. Depois que várias fontes, incluindo as próprias Farc, já haviam desmentido contato direto com o governo francês para negociar a libertação de Ingrid, ele explicou que ?só houve negociação sobre o fundo? e evocou o caráter ?mais ou menos secreto e muito discreto que envolvia uma missão em países muito difíceis?, referência a Brasil e Colômbia. Para agravar a situação, o semanário "Le Point" revela que todas as pessoas embarcadas no Hercules francês com destino a Manaus, exceto o chefe do gabinete da chancelaria, Pierre Henri Guignard, eram da Direção Geral da Segurança Externa ? os serviços secretos e de contra-espionagem da França. Outra revelação do semanário que circula nesta quinta-feira: a missão foi montada conjuntamente pelos Ministérios do Exterior e da Defesa e supervisionada diretamente por Pierre Vimont e Philipe Morland, respectivamente chefes de gabinete daqueles ministérios. Os dois ministros, Villepin e Michele Alliot-Marie, encontravam-se em visita oficial a Moscou no dia 8 de julho, data da partida do avião para Manaus. O presidente Jacques Chirac foi informado e autorizou a ?missão médico-humanitária?, sem conhecer, entretanto, a origem precisa dos homens escolhidos para embarcar no Hercules da Força Aérea francesa.Na véspera, 7 de julho, os ministros do Exterior da França e do Brasil, Villepin e Celso Amorim, haviam se encontrado em Paris. Almoçaram juntos e deram entrevista durante a reunião da Grande Comissão Franco-Brasileira. Em nenhum momento o assunto foi abordado pelo chanceler francês ? fato que irritou o Itamaraty. Também o conhecido semanário "Le Canard Enchaîné", não perdeu a ocasião para dizer que ?a operação Betancourt deflagrou uma violenta guerrilha em Paris?. Após a gafe diplomática, uma batalha por prestígio envolvendo ministros que não se apreciam, entre eles o do Interior, Nicolas Sarkozy, que disse ter sido ?informado tardiamente? da missão, e Villepin. O chefe da diplomacia francesa procurou desmentir vigorosamente Sarkozy, dizendo que ele havia sido notificado de ?a a z? antes de sua partida para a Colômbia ? onde assinaria acordo de cooperação na luta contra a droga num clima já deteriorado pelo episódio. Villepin, segundo o "Canard Enchainé" apurou no governo francês, estaria acusando Sarkozy de ter promovido o vazamento do fracasso da missão para a imprensa francesa com o objetivo de atingi-lo. Essa guerra política quase fez a imprensa francesa esquecer que foi a revista brasileira "Carta Capital" que primeiro anunciou o malogro da "operação humanitária".

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