Brasil desiste de cargo em favor de Cuba na ONU

Posto era em órgão de direitos humanos e Itamaraty diz que decisão foi do próprio candidato

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

03 de março de 2008 | 00h00

O Brasil abriu mão da candidatura de um especialista em direitos humanos para um alto cargo na Organização das Nações Unidas (ONU) para evitar ter de disputar votos com os demais países da América Latina. A decisão acaba garantindo a eleição de um cubano apoiado pelo governo de Havana para um posto de influencia em direitos humanos, além de um chileno e um mexicano.Como parte da reforma das Nações Unidas, a entidade criou um órgão consultivo composto de 18 peritos, com a função de dar recomendações sobre direitos humanos à ONU. O Brasil havia indicado o ex-deputado Marcos Rolim para a primeira eleição, que ocorrerá para a criação desse órgão. A América Latina, porém, conta com vagas limitadas nesse organismo e a candidatura brasileira significaria que os indicados pela região teriam de ir a uma votação geral, já que haveria mais candidatos latino-americanos que postos para eles. Além de Brasil e Cuba concorriam ao cargo Chile e México. Com a decisão do governo de retirar o nome do especialista brasileiro, abriu-se a possibilidade de uma escolha automática de Miguel Alfonso Martinez, de Cuba, além dos indicados por Chile e México. Representantes do Itamaraty confirmaram a retirada do brasileiro da corrida pelo posto de prestígio na ONU. Mas garantiram que a decisão foi pessoal de Marcos Rolim de não entrar em uma disputa regional por votos. ENCONTROHoje o ministro-chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, terá um encontro em Genebra com o chanceler cubano, Felipe Perez Roque - o primeiro encontro entre ministros desde que Havana oficializou Raul Castro como novo presidente cubano. Na pauta está a cooperação entre os dois países para a promoção de direitos humanos. Nos últimos meses, o Brasil vem adotando uma postura de garantir que Cuba não seja discriminada como país problemático. No cenário internacional, a ordem no Itamaraty é de que o isolamento não contribuirá para o diálogo com Havana.Do lado de Cuba, o país tenta dar alguns passos para demonstrar que está disposto a dialogar com a ONU, ainda que de uma forma limitada. Na semana passada, o chanceler cubano Felipe Perez Roque afirmou que Havana aceitaria a missão de alguns relatores das Nações Unidas para que visitem a ilha a fim de avaliar alguns aspectos de direitos humanos. Ele ainda assinou protocolos de direitos humanos que o governo do ex-presidente Fidel Castro recusava havia 40 anos. Na prática, porém, as autoridades cubanas deixam claro que nada mudará na ilha, pelo menos em relação a esse tema. Perez Roque indicou que não aceitaria a pressão feita pela União Européia para que Cuba libere presos políticos.

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