'Brasil começa a se redimir de ter apoiado ditadores', diz iraniana

Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz e opositora ferrenha de Ahmadinejad, vê guinada na posição do País após Lula, mas espera que discurso por direitos humanos não seja apenas estratégia política

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo

08 de março de 2011 | 18h50

GENEBRA - " O Brasil está começando a se redimir do fato de ter apoiado tanto ditadores nos últimos anos ". A declaração é da prêmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi, que nesta segunda-feira foi recebida em um almoço pela diplomacia brasileira em Genebra, algo que ela mesmo diz que acreditava ser "impensável" durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Nesta terça, em entrevista ao Estado, a dissidente que foi declarada como uma das maiores opositoras do regime Mahmoud Ahmadinejad, pediu que o Brasil não use uma nova retórica de direitos humanos apenas "como mais uma estratégia política" e que, desta vez, seja coerente com o estado democrático que representa. Eis os principais trechos da entrevista:

 

A sra foi recebida pela diplomacia brasileira. A sra. Considera isso como uma mudança na posição do País em direitos humanos?

Vou contar uma coisa. Há poucos anos, quando o presidente Lula visitou o Irã, grupos de oposição pediram para se reunir com ele. Havia inclusive um sindicalista preso e que teve seu grupo de apoio procurando a delegação brasileira. Afinal, tanto Lula como a vítima da opressão eram sindicalistas. Mas Lula decepcionou todo o povo iraniano. Desembarcou em Teerã, apertou a mão de Ahmadinejad, comemorou vitória e deixou o povo nas mãos de um dos regimes mais brutais do mundo hoje. Portanto, acho que eu ser recebida pelo governo brasileiro é sim um grande passo e na direção certa.

 

A sra. está convencida de que o Brasil tem uma nova política de direitos humanos ?

O Brasil está começando a se redimir do fato de ter apoiado tanto ditadores nos últimos anos.

 

Por que é tão importante para a sra a posição do Brasil no caso do Irã?

O que o Brasil toma como atitude é imitado rapidamente por outros países da América do Sul, região onde Ahmadinejad ainda tem apoio. Para onde vai o Brasil vai a direção política de toda uma região. Portanto, se queremos convencer o Irã a dialogar e respeitar a oposição, temos que nos unir e o apoio da América do Sul será muito importante.

 

O Brasil dá sinais de que pode apoiar na ONU uma resolução condenando o Irã e pedindo uma investigação internacional. A sra. Acredita que a mudança no voto do Brasil pode ocorrer ?

Estou convencida de que sim. O que o Brasil não pode fazer é usar a questão de direitos humanos como uma estratégia política. O que não pode ocorrer é que, uma vez a questão nuclear com o Irã tenha sido solucionada, o Brasil volte a aceitar o regime de Ahmadinejad. Isso será inaceitável para o povo, que sofre com a repressão. Se for apenas uma questão de retórica, não estamos dispostos a ver com bons olhos o apoio brasileiro. A nova presidente (Dilma Rousseff) insiste que tem os direitos humanos no centro de sua política. Então queremos ver isso, seja qual for a solução dada à questão nuclear. O Brasil precisa nos apoiar enquanto houver massacres. E precisa ser coerente com os valores democráticos que representa.

 

Como a sra. avalia hoje a situação interna no Irã? Pode mesmo caminhar para uma guerra civil como na Líbia ?

É isso que a comunidade internacional precisa se perguntar. No Irã, líderes da oposição já estão nas prisões, sendo torturados e silenciados. Somos o país com maior número de jornalistas presos. Somos também o país com maior número de menores detidos. A situação da mulher é um calamidade.

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