Brasil busca reequipar militares para enfrentar desafios

Diante de novos desafios, como aproteção dos recém-descobertos megacampos de petróleo, e tambémde antigas questões não resolvidas, como a vigilância dafronteira amazônica, o Brasil tem buscado acordosinternacionais para reaparelhar suas Forças Armadas. O país, porém, não quer apenas comprar equipamentosmodernos, mas deter a tecnologia para construí-los. Entre osprincipais sonhos de consumo estão aeronaves e um submarino apropulsão nuclear, que levaram ministros do governo dopresidente Luiz Inácio Lula da Silva à França e à Rússia nasúltimas semanas. "Deixamos claro tanto para os franceses quanto para osrussos que não estamos interessados em comprar produtos eserviços prontos da prateleira. Dissemos que estamosinteressados em parcerias que contemplem a produção conjunta",disse em entrevista à Reuters o ministro de Planejamento deLongo Prazo, Roberto Mangabeira Unger, que visitou esses paísesao lado do ministro da Defesa, Nelson Jobim. O professor Roberto Aguiar, da Universidade de Brasília(UnB), concorda com a posição do governo. "Não interessa só agente saber pilotar, a gente saber navegar. O que interessa é agente saber fazer, produzir e ter uma tecnologia brasileirapara isso", disse Aguiar à Reuters. Além do envio de ministros, Lula também tratou pessoalmentedo reaparelhamento das Forças Armadas quando se reuniu com opresidente francês, Nicolas Sarkozy, na Guiana Francesa, no mêspassado, para assinar um acordo de cooperação na área militar. Um dos objetivos do governo Lula para ajudar a fazer frentea esses desafios é a produção do submarino com propulsãonuclear em parceria com a França. Em entrevista recentemente divulgada no site do Ministérioda Defesa, o general José Benedito de Barros Moreira, queassumiu em fevereiro o cargo de conselheiro militar da missãobrasileira na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra,apontou o projeto do submarino como uma das duas principaisprioridades das Forças Armadas brasileiras ao lado da conclusãodo Veículo Lançador de Satélites (VLS). "Acho importante os dois projetos propostos pelo generalMoreira, mas não prioritários", disse o cientista político daUniversidade Federal de Pernambuco (UFPE) Jorge Zaverucha. "O submarino a propulsão nuclear, por exemplo, para tereficácia na proteção das recém-descobertas petrolíferasprecisaria de apoio de um plano mais amplo de defesa. Elesozinho é insuficiente", acrescentou. Por outro lado, o pesquisador do Núcleo de EstudosEstratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)Eliézer Oliveira elogiou a intenção brasileira de seguiradiante com o projeto. "O submarino (nuclear) é um projeto de quase 30 anos. Eletem resultados importantes do ponto de vista tecnológico... elenão tem que competir em prioridade com ninguém, ele tem que serconcluído. Não se pode jogar dinheiro fora," opina. Mas um analista da empresa norte-americana de análises derisco Stratfor questionou o projeto por considerar que osprogramas brasileiros sofrem de "falta de objetivosestratégicos". FRONTEIRAS O professor Aguiar, da UnB, chama a atenção para um antigoproblema que o Brasil ainda precisa enfrentar. "Nossas fronteiras estão absolutamente sem proteção", disseele. "Contrabando de armas, contrabando de munições e de drogaspassam tranquilamente pelas fronteiras do Brasil", acrescentou. Já para o professor Domício Proença, coordenador do Grupode Estudos Estratégicos (GEE) da Coope/UFRJ, a estratégianacional de defesa do Brasil não pode se limitar à proteção dasfronteiras. "Não basta só vigiar fronteira", afirmou. "Tem que sercapaz de vigiar fronteira, tem que ser capaz de mover tropas,tem que ser capaz de mobilizar, tem que ser capaz de controlaro espaço aéreo, tem que ser capaz de mover suprimentos no casode emergência", exemplificou. Para isso, é necessária a atualização dos equipamentosusados pelas Forças Armadas que, de acordo com especialistasouvidos pela Reuters, estão obsoletos. Mas Aguiar acredita quesomente a compra de armamentos e equipamentos de transporte nãobasta. "Eu acho muito mais interessante um grande investimento emequipamentos de inteligência", disse. "Não basta ter canhão. (Oimportante) é como trabalhar com inteligência num mundo cujagrande característica é a velocidade." Ao mesmo tempo em que se movimenta para reaparelhar suasForças Armadas, o governo brasileiro busca tranquilizareventuais preocupações de países vizinhos. "Não há país de dimensão comparável ao nosso que tenha sidoinstintivamente pacífico", disse o ministro Mangabeira Unger."Mas isso tudo não nos exime da necessidade de ter um escudo dedefesa." (Reportagem adicional de Todd Benson)

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