Brasil aceita proposta da ONU para manter liderança no Haiti

A pedido da ONU, general gaúcho fica mais um ano no comando das tropas internacionais

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

24 de setembro de 2007 | 15h01

O Brasil aceitou uma proposta das Nações Unidas para manter em 2008 a liderança militar da missão de paz no Haiti (Minustah), sob seu poder desde que foi criada, em maio de 2004. A ONU quer que o atual comandante das tropas internacionais, o general gaúcho Carlos Alberto dos Santos Cruz, que pacificou a região mais violenta do país caribenho, fique no cargo também no próximo ano. O acordo é único nas atuais missões de paz e pode gerar problemas diplomáticos.A consulta chegou ao Itamaraty por meio da embaixada brasileira em Porto Príncipe e surgiu de uma iniciativa do ex-representante das Nações Unidas no Haiti e hoje número dois do Departamento de Operações de Paz (DPKO), Edmond Mulet, que trabalhou com o general gaúcho até agosto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, concordaram, e Santos Cruz terá seu mandato renovado até 10 de janeiro de 2009.O acordo é único nas atuais 19 missões de paz que a ONU possui pelo mundo: em nenhuma outra operação de paz um país ficou dois anos seguidos no comando militar: a cada ano, um novo comandante da Força (Force-Commander) é escolhido, de um país diferente. Com a renovação do contrato de Santos Cruz, o Brasil completa quatro anos ininterruptos à frente da Minustah e, em todos os anos, um novo general diferente foi escolhido.A proposta da ONU abrange também o Uruguai, que mantém o segundo maior contingente na missão e que mantém atualmente o subcomandante da Força, com o general Raul Gloodovcki, e que também ficará no cargo em 2008.O principal motivo do general brasileiro permanecer no cargo é a iniciativa frente à violência no Haiti. De janeiro a abril, 11 operações militares lideradas pelo Brasil prenderam mais de 400 pessoas, expulsaram os principais líderes de gangues e pacificaram Cité Soleil, reduto histórico do crime no Haiti. A comunidade internacional vinha pressionando o Brasil para uma ação mais forte do ponto de vista militar desde maio de 2006, após as eleições presidenciais, quando uma nova onda de violência e seqüestros irrompeu no país mais pobre das Américas. Acordo pode gerar desconforto diplomáticoA decisão pode gerar uma briga entre os países latino-americanos que contribuem com tropas no Haiti: Chile e Argentina já demonstraram interesse em comandar a missão e estariam dispostos a lutar por isso. A intenção da ONU era manter sob sigilo o acerto, buscando evitar transtornos diplomáticos agora, quando o mandato da Minustah entra em discussão no Conselho de Segurança para mudar de contexto, passando da imposição da paz (peace-enforcment) para a construção e institucionalização do país (peace-building).A liderança da missão no Haiti trouxe ao Brasil prestígio internacional. Desde 2004, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou o envio de militares, o País tem se empenhado na busca desenfreada por uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que dá direito a veto nas principais discussões sobre a política internacional. Agora, com o relativo êxito dos trabalhos, a manutenção da liderança consolidaria o reconhecimento global do ponto de vista diplomático e militar, além de uma posição privilegiada de influência sobre os países da América Latina frente aos avanços do venezuelano Hugo Chávez.Atualmente, o general gaúcho comanda 7.100 militares de 19 países, dos quais o maior contingente é brasileiro, cerca de 1.200 homens. Até hoje, todos os chefes militares foram brasileiros.

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