''Boto a cara para apanhar'', diz defensor de cotas

Silvio Costa critica ?hipocrisia? e alega quer ser político ?não é profissão?

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Em meio à crise por conta da farra das passagens aéreas da Câmara, a maioria dos parlamentares preferiu submergir para se proteger das críticas da opinião pública. Na contramão dessa lógica, Silvio Costa (PMN-PE) acabou se expondo publicamente ao defender no plenário o direito dos parlamentares de levar seus parentes nos deslocamentos para Brasília.Além disso, acabou verbalizando o pensamento da maior parte dos colegas, ao reclamar da atitude do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que tentou adotar novas regras para uso das passagens, vedando a emissão de bilhetes para o exterior e o repasse das viagens para parentes e terceiros. "É uma piada. Sou casado há 30 anos. Se eu ficar um mês em Brasília, vou ficar 30 dias sem ver minha mulher? Quando eu cheguei nesta Casa, me disseram que podia usar (a cota de passagens aéreas) como quisesse", reclamou Costa.Esse tom de cobrança, aplaudida em plenário por muitos deputados, foi um dos motivos que levaram Temer a recuar e a decidir que as mudanças serão feitas por meio de um projeto. Com isso, os deputados terão de votar favoravelmente para que essas novas regras passem a valer. O recuo foi considerado uma vitória do corporativismo da Casa e um triunfo do chamado baixo clero, uma imensa massa de parlamentares com atuação discreta no Casa - entre 300 e 350 deputados - e sempre afastada da discussão das principais votações. Por conta do gesto, Costa, que cumpre o primeiro mandato como deputado federal, acabou sendo visto como uma espécie de líder sindical da "cota pró-família". Ele próprio, aliás, reconhece que utilizou a cota para duas viagens para o exterior (Londres e Buenos Aires) que beneficiaram seus filhos.Costa, porém, rechaça o posto de líder do baixo clero. "Não quero ser líder de ninguém. Quero é exercer minha cidadania. Faço minha vida pública com transparência, porque aprendi que a verdade sempre vence."Aos 52 anos, pernambucano de Rio Formoso e professor por formação, Costa chama a atenção pelo estilo extrovertido. Não esconde o que pensa e costuma ser duro na tribuna contra os adversários políticos.Foi assim durante os mandatos de vereador no Recife e de deputado estadual em Pernambuco. "Boto a cara para apanhar porque na vida a gente sempre precisa ter um lado. Mesmo que seja um lado difícil de explicar. A história não se lembra de quem não assume posição", justificou. "Recebi uns 350 e-mails depois que me pronunciei. Uns 300 me esculhambando. Mas é assim mesmo."?HIPOCRISIA?Agora, na discussão sobre as passagens aéreas, Costa quer que "se acabe com a hipocrisia". "Sou a favor das viagens de familiares para Brasília, porque considero que ser político não é profissão, é uma representação. Então, toda semana, quando saio do Recife, estou cumprindo uma missão oficial", alegou. E o deputado acaba até defendendo também a moralização das regras para uso de passagens aéreas. "Sou contra essa farra de passagens também. Em dois anos de mandato, minha esposa só viajou uma vez para Brasília, até porque tem os afazeres dela no Recife. Meus filhos viajaram duas vezes para o exterior. Mas nunca foi dito que isso não podia ser feito. É preciso acabar um pouco com essa hipocrisia." Costa responsabiliza Congresso, Ministério Público e imprensa "por terem se omitido durante todos esses anos" e por não denunciarem antes como as passagens estavam sendo aproveitadas pelos deputados. "Sou radicalmente contra essa farra, mas eu não quero me inocentar. Eu tive culpa também porque fui omisso. Não sou como outros parlamentares que nessas horas aparecem criticando. Tenho horror a paladinos da ética", ressaltou. "Mas de quem é o erro? Tem pelo menos 21 anos de omissão do Ministério Público sobre esse assunto. Brasília fez 49 anos agora e pela Câmara já devem ter passado pelo menos uns 6 mil deputados nesse período e ninguém nunca falou nada."

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