‘Bom cabrito não berra’, diz Campos sobre candidatura

Em conversa com aliados, governador diz que resiste à ofensiva do PT para minar seu plano de 2014; ponte é refeita com Ciro Gomes

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2013 | 00h30

Sem esboçar reação pública às articulações de ministros do governo Dilma para asfixiar sua candidatura presidencial, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), confidenciou a correligionários que não vai se intimidar com as tentativas do PT de tirá-lo do páreo. "O bom cabrito não berra", afirmou o governador a colegas de partido na quinta-feira, quando esteve em Brasília para reuniões com ministros.

Presidente do PSB, Campos não se dá por vencido, deixa claro que a ideia de candidatura está mantida e segue angariando apoios nos bastidores. "Tentaram me dobrar e não me dobraram. Eu estou de pé e o PSB ficou mais forte", comentou.

Chamado ao Palácio do Planalto para uma audiência com os ministros Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça), o governador passou duas horas de quinta-feira debatendo com os auxiliares da presidente Dilma Rousseff as ações de segurança para a Copa das Confederações. Ele não se encontrou com Dilma, que estava no Planalto, e de lá partiu para uma reunião a portas fechadas com parlamentares no gabinete do líder do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (DF).

"Estão há 12 meses lutando contra mim e continuo vivo. Eu ganhei todos os rounds", afirmou o governador, segundo relatos desses parlamentares. "Há muita emoção pela frente nessa montanha-russa", tem dito Campos. Governadores do PSB são cortejados pelo PT para o palanque de Dilma numa estratégia para neutralizar a candidatura de Campos. Aos correligionários, o presidente do PSB disse que tem seis meses para definir seu futuro político e não vê motivo para abrir o jogo agora. Revelou ainda que mantém "contato" com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio de emissários, e disse não ter interesse em brigar com ninguém. "Por que vou fechar as portas?", argumenta.

‘Melar a água’. Há duas semanas, Campos jantou com o ex-ministro Ciro Gomes (PSB), que é irmão do governador do Ceará, Cid Gomes, e não esconde o incômodo com sua candidatura. Barrado pelo pernambucano em 2010, quando quis concorrer ao Planalto e o PSB aderiu à campanha de Dilma, Ciro ficou satisfeito com a tentativa de aproximação do desafeto, mas pôs as cartas na mesa. Disse ter preocupação com a possibilidade de o PSB não ir para o segundo turno na disputa de 2014 e "melar a água que vai beber" no futuro.

Mesmo com as diferenças, os dois concordaram que a aliança do PT com o PMDB é indigesta. Vislumbraram o risco de Eduardo Cunha (RJ), líder do PMDB na Câmara, "engolir" o partido e jogá-lo contra Dilma e previram um cenário futuro de mais dificuldades, com inflação alta e crescimento pífio.

Para Campos, o governo age de forma "pendular" na economia, cada hora de um jeito, e quem vencer a eleição assumirá o País, em 2015, com um quadro pior do que o observado na crise internacional de 1999. Não sem motivo, seu slogan diz: "É preciso fazer mais e bem feito".

MP do Portos. O fato de Dilma não ter vetado a autonomia do Porto de Suape, na Medida Provisória dos Portos, foi visto pelo governador como um gesto importante para reduzir a tensão do ambiente político e manter o diálogo com a presidente.

Apesar do suspense, interlocutores de Campos em vários partidos da base e até no PSDB não têm dúvida de que ele é "candidatíssimo".

Nos encontros políticos recentes, o presidente do PSB disse não acreditar que o assédio de dirigentes do PT e dos ministros Aloizio Mercadante (Educação) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais) aos outros cinco governadores de seu partido surta o efeito desejado, embora dois deles (Cid Gomes e Camilo Capiberibe, do Amapá) já tenham declarado apoio a Dilma.

Ao ser lembrado por correligionários, na quinta-feira, de que seus movimentos são acompanhados com lupa pelo Planalto, Campos abriu um sorriso. "Eles se preocupam mais comigo, que sou aliado, do que com o Aécio", afirmou, numa referência ao senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB, provável candidato em 2014.

Campos tem dito que a estratégia do PT consiste em garantir a recondução de Dilma logo no primeiro turno para tentar ganhar os governos de São Paulo e Minas, reproduzindo o argumento de "fadiga de material" do PSDB, que hoje administra os dois Estados. Para tanto, seria necessário manter a parceria com o PMDB, sacrificando candidaturas petistas, como a do senador Lindbergh Farias, no Rio. Lá, o governador Sérgio Cabral (PMDB) condiciona a adesão ao palanque de Dilma ao apoio do PT a Luiz Fernando Pezão, atual vice.

"Eu disse para o Lindbergh: o jacaré está aqui esperando com a boca aberta", contou Campos a amigos, ao recordar o convite para que o senador seja candidato no Rio pelo PSB. A ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins (PT) foi chamada pelo governador para ingressar no PSB. Luizianne tem planos de concorrer ao Senado, mas enfrenta desgate na seara petista e está em pé de guerra com Cid Gomes.

Com o divórcio iminente, alguns dirigentes do PSB já avaliam a conveniência de entregar os dois ministérios (Integração Nacional e Portos) que comandam no governo Dilma em meados de setembro.

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