Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Em Goiás, Bolsonaro vai ao encontro de apoiadores e Mandetta e Caiado defendem distanciamento

Presidente, ministro da Saúde e o governador visitaram obra de um hospital de campanha na cidade goiana de Águas Lindas

Jussara Soares, Enviada Especial a Águas Lindas (GO)

11 de abril de 2020 | 12h11

O presidente Jair Bolsonaro viajou, na manhã deste sábado, 11, à cidade goiana de Águas Lindas, que fica a 56 quilômetros de Brasília, para visitar a construção de um hospital de campanha para atender pacientes com covid-19.  Mais uma vez, ele desrespeitou recomendações sanitárias ao ir ao encontro de apoiadores, que se aglomeraram. Sem máscara e vestindo um colete da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Bolsonaro cumprimentou populares e recebeu um beijo na mão.

Presentes na visita à unidade emergencial, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), não acompanharam o presidente na aproximação com os apoiadores, ao contratário dos ministros Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura. Ramos e Freitas, no entanto, permaneceram de máscara. Ao ser indagado por que não acompanhou Bolsonaro, Mandetta disse que segue as orientações de distanciamento social. “Eu procuro seguir uma lógica de não aglomeração”. Já Caiado afirmou que o presidente é que deveria se explicar: "Essa posição não foi a minha". 

 Mandetta afirmou ainda que a orientação de distanciamento social vale para todos os brasileiros. Para ele, as pessoas que descumprem o isolamento serão as mesmas que se lamentarão pelo coronavírus. Como tem feito tem feito desde o dia 22 de março, o ministro vestia o colete azul do Sistema Único de Saúde (SUS). 

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Eu posso recomendar (a não aglomeração), não posso viver a vida das pessoas. As pessoas que fazem uma atitude dessa hoje daqui a pouco serão as mesmas que estão lamentando”
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Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde

Questionado sobre o fato de Bolsonaro ter ido ao encontro das pessoas e se a recomendação vale para ele também, o ministro da Saúde se limitou a responder: “Vale para todos os brasileiros”. 

Caiado também foi questionado se Bolsonaro não estava dando um mau exemplo à população e reforçou que defende o isolamento social.

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“Ele é o presidente, eu sou o governador. A minha posição foi a que vocês acompanharam. Essa é a posição que manteremos até o dia 19. Já estamos elaborando um planejamento sobre que áreas e regiões poderemos abrir”
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Ronaldo Caiado, governador de Goiás

Foi após Bolsonaro incentivar, em pronunciamento no mês passado, que as pessoas voltassem "à normalidade" que Caiado anunciou o rompimento com o presidente. "As decisões do presidente na área da Saúde e sobre coronavírus não alcançam Goiás", disse o governador, que é médico, na ocasião. Isolado politicamente durante a crise do coronavírus, o presidente busca uma reaproximação com Caiado.

Bolsonaro chegou ao local de helicóptero por volta das 11h20. O compromisso não constava da agenda oficial, e não foi permitida a entrada da imprensa. Todos da comitiva chegaram de máscaras. Do lado de fora da área do hospital, um grupo de 50 pessoas se aglomerou para ver o presidente. Sem máscaras, elas chamavam Caiado de traidor. Bolsonaro cumprimentou eleitores e tirou fotos.  No início, ele estava usando máscara, mas ao final tirou a proteção e ficou com ela na mão esquerda.  Parou para autografar a camisa da seleção brasileira e ganhou da apoiadora um beijo na mão (veja o vídeo abaixo).

 

 O hospital de campanha, instalado em uma área de 10 mil metros quadrados, terá 200 leitos de semi UTI (Unidade de Terapia Intensiva para atender pacientes de Goiás e do Distrito Federal. A construção começou  há uma semana e a previsão é que esteja concluída em 15 dias.

O governo federal arcará com o custo de R$ 10 milhões para a construção e manutenção do hospital por quatro meses. Já os custos com equipe médica e materiais serão de responsabilidade do governo de Goiás.

Desde o início do avanço do coronavírus no País, Bolsonaro tem minimizado a pandemia e já se referiu à doença como "gripezinha". O presidente também tem circulado por áreas comerciais de Brasília, descumprindo orientações de autoridades sanitárias para que população mantenha distanciamento social. Nesses passeios, ele tem posado para fotos e cumprimentado apoiadores.

Bolsonaro defende que a população retome suas rotinas para evitar um colapso da economia e que o isolamento seja restrito a idosos e pessoas com doenças. O presidente completou 65 anos no dia 21 de março.

O distanciamento social é um dos principais pontos de divergência entre Bolsonaro e Mandetta. Outro é a prescrição da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19, defendida pelo presidente mesmo sem pesquisas conclusivas sobre a eficácia e os efeitos colaterais do medicamento.

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