Bolsonaro vê inquérito das fake news como pesadelo

Embora presidente tenha sido aconselhado a usar os mandados de busca e apreensão desta quarta como prova de que não interfere na PF, os movimentos vão em outra direção

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 15h39

Caro leitor,

O inquérito das fake news virou um pesadelo para Jair Bolsonaro. Além de identificar empresários amigos do presidente como potenciais financiadores do  “conteúdo de ódio” contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instituições, a investigação mira parlamentares e ativistas bolsonaristas.

Embora Bolsonaro tenha sido aconselhado a usar os mandados de busca e apreensão desta quarta-feira, 27, como prova de que não interfere na Polícia Federal, já que seus aliados também são atingidos, os movimentos vão em outra direção. Motivo: ao perceber a intenção do presidente de fazer substituições na PF, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, conseguiu blindar o time da corporação que atua no inquérito das fake news.

Abertas em março de 2019, por determinação do presidente do STF, Dias Toffoli, para apurar ameaças, ofensas e notícias falsas contra integrantes da Corte, as diligências são conduzidas por Moraes, que é o relator do caso. 

“As provas colhidas e os laudos periciais apresentados nestes autos apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares como "gabinete do ódio", dedicada a disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”, escreveu o magistrado, na decisão desta quarta.  Detalhe: o "gabinete do ódio" é o bunker  comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho zero dois do presidente, que adota estilo beligerante nas redes sociais. Para Carlos, ministros do STF querem "incentivar rachaduras diante de inquérito inconstitucional, político e ideológico"

O Estadão apurou que alguns dos mandados de busca e apreensão, como o que teve como alvo o dono da Havan, Luciano Hang, já estavam programados há dois meses, mas foram adiados por causa de “vazamentos”. Não foi só: as recentes manifestações pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo, além de intervenção militar, deram mais combustível para o inquérito das fake news, embora estejam sendo apuradas em outro processo.

Na prática, os dois casos se entrelaçam. Uma das linhas da investigação é a de que o mesmo grupo bolsonarista está por trás dos disparos de notícias falsas nas redes sociais desde a campanha presidencial de 2018.

Como mostrou o Estadão, o custo desse bombardeio virtual pode chegar a R$ 5 milhões por mês. Despesas com programas de computador usados para fazer postagens automáticas nas redes, os chamados “robôs”, e produção de material destinado a insultar opositores de Bolsonaro nas mídias digitais são também bancadas por empresários amigos, de acordo com as apurações. Moraes determinou a quebra do sigilo bancário e fiscal de alguns deles.

No vídeo com o conteúdo da reunião ministerial de 22 de abril, no Palácio do Planalto, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, aparece dizendo que integrantes do Supremo deveriam ser presos. “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, esbravejou ele. Weintraub chegou a comparar Brasília a um “cancro de corrupção, de privilégio”, reclamou de só levar “bordoada” e, ainda por cima, de ser alvejado por “intrigas palacianas” e processos na Comissão de Ética da Presidência.

Alexandre de Moraes deu cinco dias para Weintraub prestar depoimento à Polícia Federal sobre essas afirmações. Moraes viu, ali, indícios de práticas de delitos como difamação, injúria e crime contra a segurança nacional por parte do titular da Educação. Na Câmara, líderes de sete partidos pediram à Procuradoria-Geral da República abertura de investigação contra Weintraub e no Senado aprovaram a sua convocação. Na outra ponta, o Ministério Público Federal cobrou de Weintraub  esclarecimentos por dizer, na mesma reunião de 22 de abril, que odeia expressões como “povos indígenas” e “povo cigano”. “É povo brasileiro, só tem um povo”, resumiu o ministro naquele encontro.

Sob cerco político, com a pandemia do coronavírus no auge e  acusado pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de interferir na Polícia Federal, Bolsonaro se equilibra entre duas alas de governo. O núcleo militar quer o enquadramento do “gabinete do ódio” e a saída de Weintraub, classificado como um “ministro militante”, como ele próprio se definiu. A ala ideológica, por sua vez, prega o enfrentamento com o Supremo, o Congresso e a imprensa.

No meio dessa “balbúrdia”, termo usado em outras ocasiões por Weintraub, o Centrão é visto como fiel da balança na Câmara para salvar Bolsonaro de eventual processo de impeachment. “O Brasil precisa realmente despolitizar essa crise, acalmar os ânimos”, disse nesta terça-feira, no plenário, 26, o líder do Progressistas, Arthur Lira (AL), ao elogiar discurso do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Lira e Maia têm se estranhado, nos últimos tempos. Motivo: o alagoano rachou o Centrão e conduziu o bloco, que sempre esteve com Maia, para apoiar  Bolsonaro. A prática do “toma lá, dá cá” - que prevê a sustentação do governo em troca de cargos - também foi criticada por Weintraub na reunião ministerial.

“Os partidos do centro ou do Centrão, como queiram, que nós fazemos parte, sempre deram a qualquer governo, com muito equilíbrio, o sustentáculo (para) as aprovações necessárias, tanto para as matérias econômicas como para matérias sociais”, afirmou Lira, na tarde desta terça. “Alianças são necessárias quando feitas de boa fé”.

Pouco antes, Maia havia feito um pronunciamento no qual pregou a “pacificação dos espíritos” e disse ser “imprescindível” cuidar da relação harmoniosa e independente entre os Poderes - um discurso repetido nesta quarta-feira, 27. Mesmo assim, deu vários recados a Bolsonaro. “A quarentena, o isolamento social, não são os culpados por derrubar a economia. Quem derruba a economia é o vírus”, insistiu o presidente da Câmara.

Para Bolsonaro, porém, governadores e prefeitos que decretaram medidas de distanciamento, sob a alegação de evitar o contágio do coronavírus, vivem a “síndrome do sapo fervido”. Após ter se referido aos adversários políticos João Doria (São Paulo) como “bosta” e Wilson Witzel (Rio) –  outro alvo da Polícia Federal  –  como “estrume”  –  Bolsonaro não mais citou o nome deles ao mencionar o tal sapo fervido.

“Você bota um sapo num caldeirão, o sapo vai inchando e perdendo suas forças. Quando pensa em sair, já está muito tarde e ele acaba cozido. A questão econômica é a mesma coisa”, disse o presidente, na noite desta terça-feira, na portaria do Palácio da Alvorada. Depois, fez um apelo: “Nós devemos abrir (o comércio), governadores e prefeitos, caso contrário entraremos nessa síndrome do sapo fervido”.

Bolsonaro avisou, no entanto, que está “de mãos amarradas” para promover mudanças por ser impedido pela Suprema Corte. Até agora, ele só conseguiu trocar a cúpula da Polícia Federal.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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