Bolsonaro vê 'guerra de informação' e articula contraofensiva

Novo titular da Secom promove reunião com assessores de ministérios para alinhar discurso e impedir 'barata voa' sobre covid-19

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 15h38

Caro leitor,

Diante do “maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil”, como definiu a Fiocruz, auxiliares do presidente Jair Bolsonaro ensaiam mudanças na estratégia de comunicação para reverter o desgaste na imagem do governo. Na última sexta-feira, por exemplo, o almirante Flávio Rocha, novo chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social  (Secom), se reuniu com assessores de imprensa de todos os ministérios, no Palácio do Planalto, para avisar que, a partir de agora, passará a ter “encontros temáticos” com a equipe.

Para Bolsonaro, a  “guerra de informação” é a mais importante no momento em que pesquisas apontam queda na sua avaliação, mesmo em levantamentos feitos com seus seguidores nas redes sociais. O plano é unificar a retórica do governo e impedir o “barata voa” para se contrapor à oposição. O  problema é que, embora até aliados do Centrão digam que não adianta mudar o  ministro da Saúde se não houver uma “guinada” na desastrosa condução da pandemia de covid-19, o presidente avalia que o caos é fruto de uma “conspiração” para derrubá-lo.

“Qual país do mundo está tratando bem a questão da covid? Aponte um. Agora aqui virou uma guerra contra o presidente”, afirmou Bolsonaro nesta quinta-feira, 18, em conversa com apoiadores, na portaria do Palácio da Alvorada. “Um dos raros países do mundo onde querem derrubar o presidente é aqui”, emendou. Mais uma vez sem máscara de proteção, ele disse que seus críticos, rotulados como “esses caras”, não apresentam soluções. “O que você faria no meu lugar?”, perguntou. (Dizem) ‘Vai comprar vacina’. Mas onde tem vacina para vender?”.

Nos bastidores, militares do governo aconselharam Bolsonaro e ministros que vivem se metendo em polêmicas, como o titular do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a baixar o tom e investir na construção de uma “agenda positiva”, se é que isso é possível nessa altura do campeonato. Com a ajuda de especialistas no enfrentamento de crises, esses interlocutores observaram que, após a entrada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cena política de 2022, Bolsonaro e sua equipe precisavam “alinhar” o discurso. Nada de falar em público contra vacina nem contra máscara e medidas de isolamento social para enfrentar a pandemia.

Na prática, toda a estratégia do Palácio do Planalto é voltada para alavancar o projeto de reeleição de Bolsonaro, abalado pelo coronavírus e por sucessivos percalços na economia. É nesse contexto que se encaixa a reunião do novo chefe da Secom com os assessores de imprensa dos ministérios, na sexta-feira.

O almirante Rocha é visto por seus pares como um militar de estilo “conciliador”, ao contrário do empresário Fábio Wajngarten, que deixou a Secom após se indispor com o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Atualmente, Rocha acumula a Secom com a Secretaria de Assuntos Estratégicos e tem organizado encontros reservados e videoconferências para o presidente, até mesmo internacionais.

Logo após aceitar comandar a Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga – quarto ministro escalado para o cargo desde 2019 – também foi alertado por auxiliares de Bolsonaro sobre a necessidade de evitar declarações que pudessem provocar controvérsias. Só esqueceram  de combinar com os russos da Sputnik, uma vez que tal advertência é seguida de forma diametralmente oposta pelo próprio Bolsonaro.

Nesse jogo de avança e recua, o vice-presidente Hamilton Mourão assumiu de novo o papel de “tecla SAP”, na tentativa de “traduzir” o que diz o chefe do Executivo. Ao comentar nesta quinta-feira pesquisa Datafolha indicando que 54% dos brasileiros consideram “ruim ou péssima” a atuação de Bolsonaro no combate à pandemia, Mourão definiu o atual quadro como “normal”.

“Isso pode ser revertido na  medida que a gente avançar na vacinação, na medida que tiver auxílio emergencial”, argumentou o general. Em um passado não muito distante, porém, Bolsonaro não encarava a imunização como prioritária. Afirmou várias vezes que não tomaria a vacina contra covid-19. Com tanto desgaste, mudou um pouco o discurso, coisa de milímetros. Mas não há um plano de envergadura para combater a tragédia como o que existe para a reeleição. Enquanto isso, o Brasil perde quase 3 mil vidas por dia.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.