Capítulo 10

Bolsonaro vai apelar para o toma lá dá cá?

Na Câmara e no Senado, é fácil esbarrar em parlamentares que se queixam da falta de interlocução com o Planalto

Marcelo do Moraes, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 13h52

Caro leitor,

A reforma da Previdência, principal proposta do governo de Jair Bolsonaro, chegou finalmente ao Congresso e tudo indica que enfrentará uma batalha dura para ser aprovada. A razão para isso é muito clara: o governo, simplesmente, não tem ainda votos para aprovar a proposta.

Pior: o governo, hoje, sequer dispõe de uma base de apoio capaz de lhe apoiar nessa discussão. Na Câmara e no Senado, é fácil esbarrar em parlamentares que se queixam da falta de interlocução com o Planalto.

Há reclamações também que a proposta é dura demais com setores que representam a base política desses políticos e existe a desconfiança que os militares e algumas outras categorias poderão ser poupadas na proposta. Mas a principal insatisfação é velha conhecida: até agora, pouca gente foi contemplada com cargos no governo.

E, claro, os parlamentares respondem do jeito que sabem: sapecando uma derrota no governo, como aconteceu com a sova que os deputados aplicaram no Planalto ao derrubar o decreto que alterava as regras de classificação de dados e documentos secretos e ultrassecretos.

Foram mais de 300 votos contrários, o que acendeu o sinal de alerta entre os governistas. Mais do que isso, criou a expectativa de que, para governar, Bolsonaro pode precisar apelar para o manjado toma lá dá cá, que tanto execrou durante a campanha. Nessa reportagem, você pode ver como foi a primeira derrota sofrida por Bolsonaro no Congresso.

Bolsonaro já parece ter compreendido que apenas no gogó não conseguirá atrair os votos que precisa no Congresso. E caminha para  mudar o discurso de demonizar a política, ao pedir desculpas por ter passado os últimos anos batendo pesado nas propostas de reforma da Previdência, como você pode ler aqui.

A editora do BR18 Vera Magalhães também mostrou na sua coluna que essa mudança de postura é bem-vinda e pode ajudar o presidente.

Ninguém se esquece do desastre político que o presidencialismo de coalizão causou ao País nos últimos governos. Baseado na troca de votos por cargos e recursos, a prática criou um sistema viciado dentro do Congresso que o presidente faz muito bem em dispensar. Mas existe um espaço legítimo para liberação de emendas parlamentares, que contemplam os eleitores que colocaram deputados e senadores no Parlamento para defenderem seus interesses.

O que não pode existir é a relação promíscua da troca de cada  voto pela nomeação do aliado ou do recurso liberado. Como a linha fina que separa as duas situações é sempre muito fácil de se transpor, o governo deu aquela escorregada clássica ao anunciar a criação de um “banco de talentos” para receber as indicações de parlamentares para os cargos do governo. Tudo indica que o tal banco não passa de um atalho para implantar o fisiologismo dentro do governo.

Neste editorial, você pode ler uma análise detalhada sobre isso. E aqui fica sabendo que até o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), interpretou o “banco de talentos” como uma maneira de se fazer indicações para o governo.

Na verdade, o governo nem precisaria apelar tão diretamente para esse recurso se tivesse organizado minimamente sua base de apoio, indicando líderes que tenham interlocução de fato com os parlamentares para prevenir problemas e começar a negociar politicamente a aprovação da reforma da Previdência. Eu conversei com vários líderes da Câmara, que criticam essa falta de articulação do governo

Se quiser ter sucesso na aprovação das propostas de seu interesse, o governo precisará, obrigatoriamente, colocar seus pés no chão e parar de confiar na força de uma espécie de populismo oriundo das redes sociais, tão bem descrito neste editorial.

Esse tipo de discurso foi eficaz na campanha. Só que governar é completamente diferente de pedir votos. Há uma necessidade de o Planalto compreender que a crise econômica que devastou o Brasil nos últimos anos ainda está longe de ter seus efeitos superados, como você pode entender aqui.

Por isso, fica clara a importância de o governo se organizar politicamente e entender que a caminhada para a recuperação econômica é longa. Mas precisa saber buscar  a maneira certa de se “fazer política”. Porque aderir ao toma lá da cá da fisiologia será um atalho extremamente perigoso para as pretensões do Planalto.

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