Bolsonaro usa ‘povo’ como escudo na briga com Supremo

Presidente prepara reação contra decisões da Corte consideradas desfavoráveis ao governo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 15h08

Caro leitor,

A cerimônia de posse do ministro das Comunicações, Fábio Faria, nesta quarta-feira, 17, serviu para o presidente Jair Bolsonaro usar novamente o escudo do “povo”, na tentativa de blindar o governo. No dia do julgamento da validade do inquérito das fake news e 24 horas depois de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizar a quebra de sigilo bancário de dez deputados e um senador bolsonaristas, o presidente fez um discurso com endereço certo.

“Não são as instituições que dizem o que o povo deve fazer. É o povo que diz o que as instituições devem fazer”, afirmou ele, sob aplausos, em solenidade no Palácio do Planalto. Sentado a poucos metros de Bolsonaro, o presidente do STF, Dias Toffoli, foi o único ali que não aplaudiu de início, mas acabou se rendendo.

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, naquele momento, Alexandre de Moraes votava pela legalidade do inquérito das fake news, aberto em março de 2019 para investigar a disseminação de ofensas, calúnias e notícias falsas contra magistrados da Corte. “Liberdade de expressão não se confunde com ameaça, com coação, com atentado. Liberdade de expressão não é liberdade de agressão, (...) não é liberdade de destruição da democracia, das instituições e da honra alheia”, argumentou Moraes.

Bolsonaro diz haver “perseguição de ideias”, fala em “abusos” e lança ameaças, sempre usando o carimbo das Forças Armadas, que ainda desfrutam de boa imagem na sociedade. O Estadão apurou que a reação preparada por Bolsonaro será um recurso da Advocacia Geral da União (AGU) contra decisões do Supremo consideradas desfavoráveis ao governo.

“Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Eles estão abusando. (...) Então, está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”, insistiu o presidente, também nesta quarta, ao se reunir com apoiadores  no Palácio da Alvorada. O comentário foi feito antes da posse de Fábio Faria.

Diante de uma plateia formada por autoridades com máscaras, o novo ministro das Comunicações chegou a pregar um “armistício patriótico”, sob o argumento de que é preciso deixar a “arena eleitoral” para 2022 e focar no combate à pandemia do coronavírus. “É hora de pacificar o País”, disse Faria, sob olhares atentos de Toffoli e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também presente à cerimônia.

Os discursos, porém, contrastam com as ações de Bolsonaro e da ala ideológica do governo. Agora, o próprio presidente define como “problema” o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que chamou ministros do Supremo de “vagabundos”.  Nesta quarta, por 9 votos a 1, a Corte decidiu manter Weintraub na mira do inquérito das fake news, o que faz sua permanência na equipe ter os dias contados. 

Os generais querem a saída de Weintraub para “pacificar” o ambiente, mas os filhos de Bolsonaro e o escritor Olavo de Carvalho ainda buscam uma saída honrosa para o amigo militante.

No meio da balbúrdia, termo usado pelo próprio Weintraub em passado não muito distante, Renan Sena,  ex-funcionário terceirizado do Ministério dos Direitos Humanos, defendeu aos berros o titular da Educação. Em ato nas imediações do MEC, nesta terça, o militante bolsonarista disse que o general Braga Netto, chefe da Casa Civil, precisa “calar a boca” e  Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde, deveria “puxar uma carroça”.

“Nos deixem salvar essa Nação do comunismo, dessa ditadura comunista do Judiciário”, esbravejou o homem que foi detido após ser identificado como autor dos disparos de fogos de artifício na direção do Supremo, no sábado, 13. Naquela noite, o bolsonarista se referiu aos magistrados como “bandidos” e aos parlamentares como  “vagabundos” do Congresso. Em maio, Renan  também xingou enfermeiras e empurrou uma delas durante ato em homenagem a profissionais de saúde mortos pelo coronavírus. Detalhe: a expressão “ditadura comunista” citada pelo ex-funcionário do governo é usada com frequência pelo presidente.

Com as investigações cada vez mais fechando o cerco sobre o Planalto, o que mais surpreendeu Bolsonaro, nos últimos dias, foi a ação do procurador-geral da República, Augusto Aras, nome que recentemente figurou até mesmo na sua lista de cotados para ocupar uma cadeira no Supremo. Foi a pedido da PGR que Moraes autorizou a quebra do sigilo bancário de aliados do chefe do Executivo. A medida abrange um período amplo, podendo chegar às fake news da campanha de 2018.  Atualmente, há oito ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cassar a chapa Jair Bolsonaro-Hamilton Mourão e 35 pedidos de impeachment contra o presidente, na Câmara. Diante de tanta crise, o Centrão atuará como poder moderador?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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