Bolsonaro usa ‘ética do potássio’ para não condenar Putin

Presidente diz que governo manterá neutralidade em conflito da Ucrânia; Para d'Avila, laços ideológicos impedem condenação a Putin

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2022 | 10h00

Caro leitor, 

Era manhã de sábado, dia 26, quando o presidente Emmanuel Macron visitou o 58.º salão da agricultura francesa. Em meio ao corredor da feira, foi cercado pelos produtores, todos preocupados com as consequências da guerra na Ucrânia. O presidente francês começou a falar de improviso. Contou que seu governo prepara um "plano de resiliência" para fazer face aos desdobramentos do conflito. Um dia antes da conversa com os homens do campo, Macron advertira que a invasão russa da Ucrânia seria um ponto de virada histórico para a Europa.

O político disse aos agricultores: "Se eu tivesse de lhes dar uma convicção esta manhã, é de que esta guerra vai durar". E fez questão de listar as más notícias: a guerra "não ficará sem consequências no aumento dos custos de energia, não ficará sem consequências na alimentação do gado, no seu custo, talvez, até na capacidade de abastecimento". Macron sabe que o conflito e as sanções à Rússia trarão prejuízos à França. Não escondeu nada de ninguém. Mas, como condenar a agressão russa é um imperativo de consciência, foi o que fez. E ninguém se opôs ao presidente. 

Ucrânia e Rússia são produtoras de trigo e milho. Russos, bielorrussos e canadenses controlam 80% da produção de cloreto de potássio do mundo. Ele é fundamental para fertilizantes. E como a maioria do potássio (80%) que o agronegócio brasileiro usa depende de importações como as que vêm do país que agrediu a Ucrânia, Jair Bolsonaro resolveu pôr ali a justificativa para a neutralidade no conflito. Um presidente não poderia agir intempestivamente, sacrificando os interesses nacionais. Leia-se: fertilizantes. É a ética do potássio.

Bolsonaro afirmou que o Brasil não seguirá as sanções americanas e europeias se elas afetarem "nossos interesses". Entretanto, um presidente deve antever as fragilidades de seu país e buscar saná-las. Depender de um único fornecedor para um produto vital é uma delas. Se em vez de gastar tempo com o nióbio e o grafeno, tivesse Bolsonaro se esforçado para aumentar a produção do siltito glauconítico – o fertilizante potássico, encontrado em São Gotardo, em Minas, e cujas reservas são exploradas pela empresa Verde Agritech –, o Brasil estaria em uma posição melhor.

Talvez, Bolsonaro tivesse de encontrar uma outra desculpa para não condenar Putin, o homem que foi chamado de "gênio" pelo guru do capitão: Donald Trump. No domingo à noite, o ex-presidente americano resolveu mudar o sentido de suas palavras, ao discursar no evento ultraconservador CPAC, em Miami. "O problema não é Putin ser esperto – e ele certamente é esperto. O verdadeiro problema é que os nossos líderes são burros e permitiram que ele encenasse essa farsa, em um atentado à humanidade." Trump também é esperto. Pobre Bolsonaro que não pode culpar "nossos líderes". 

Ao contrário da Europa, que aos poucos escala as sanções contra Rússia, Bolsonaro usa o potássio, um argumento econômico, para tratar de um problema sobretudo ético e de princípios. Trata-se de defender a liberdade e a soberania das Nações, em vez de fomentar a desestabilização de países. Questionado sobre a violação da integridade territorial da Ucrânia, o presidente preferiu lembrar do plebiscito sobre a independência de Donetsk e LuhanskE concluiu: “Acredito em uma solução rápida (para o conflito)”.

O que Bolsonaro insiste em não reconhecer é a diferença entre agressor e vítima, como se tudo fosse apenas uma questão de "narrativa", conforme o retrato feito por Lourival Sant’Anna, em sua coluna, no Estadão. Lourival mostra que, ao invadir a Ucrânia, Putin tem como objetivo impedir "o surgimento de uma democracia liberal próspera com a mesma matriz histórica, cultural e geográfica da Rússia". O exemplo que pode derrubar Putin não deve frutificar. 

Bolsonaro prefere lembrar – e o fez duas vezes – que o povo da Ucrânia elegeu um comediante, Volodmir Zelenski. Culpa o povo daquele país, que luta desesperadamente contra o tacão russo, pelo destino que enfrenta. A sensibilidade do presidente revela o quanto a democracia lhe é incômoda, assim como no caso de Putin e de Trump. O voto popular e livre é a maior ameaça que populistas enfrentam. Quando não conseguem controlá-lo, é preciso desacreditá-lo.  

Trump demorou uma semana para condenar Putin – e só o fez diante de reações em seu próprio partido, como a dos governadores de Ohio e de New Hampshire, que proibiram até a comercialização de vodka russa nos Estados. Bolsonaro diz: "Nós somos pela neutralidade. Não posso trazer problemas para o Brasil". Nada mais falso do que a neutralidade diante de uma agressão. Ela é tudo o que o criminoso deseja, a licença para continuar a estuprar e a matar sem ser incomodado por quem quer que seja. Bolsonaro afirma que a intenção de Putin não é massacrar os ucranianos. Os mísseis que caem sobre o país contam outra história. 

O que faz Bolsonaro ter tamanha dificuldade em condenar Putin? Para o presidenciável do partido Novo, Luiz Felipe d'Avila, populistas "usam a política externa como braço da política ideológica e partidária". O que importa é a opinião ultraconservadora. Um de seus centros irradiadores é o CPAC, a internacional do trumpismo. É a união desses extremistas que faz Aleksandr Dugin – teórico do eurasianismo, o espaço onde a Rússia exerceria sua hegemonia – homenagear Olavo de Carvalho. Ela permite a Eduardo Bolsonaro encontrar Steve Bannon. E põem na agenda do presidente encontros com o italiano Matteo Salvini e com o húngaro Viktor Orbán

Esses homens operam no mundo por meio de técnicas parecidas. Antes do conflito na Ucrânia, os militares de Vladimir Putin criaram uma teoria que virou uma grande preocupação dos exércitos do Ocidente. Se alguém tiver interesse em saber do que se trata, basta ler o artigo Controle Reflexivo russo: teoria militar e aplicações, do coronel do Exército João Ricardo da Cunha Croce Lopes. Croce esteve em Moscou e estudou o desenvolvimento da doutrina de segurança da informação aplicada no governo e usada como instrumento do poder militar russo. 

O coronel mostra que o controle reflexivo "ocorre quando o órgão governante transmite um sistema controlado de motivos e fundamentos que servirão de desculpa para chegar a uma solução desejável, mas as reais intenções são mantidas em sigilo absoluto". Assim, ele é usado pelos russos para "descrever a prática de pré-determinar a decisão de um adversário a seu favor, alterando fatores-chave na percepção do mundo do adversário". No contexto das guerras de informação, a prática "representa um facilitador assimétrico chave para obter vantagens críticas, neutralizando os pontos fortes do adversário, fazendo com que ele escolha cursos de ação prejudiciais para si". 

E como isso é feito? Croce responde: "Com a exploração de estereótipos morais de comportamento, fatores psicológicos, informações pessoais sobre o comandante, como seus hábitos". Para os russos, o CR possibilita aumentar as chances de vitória. Croce conclui que "tais táticas requerem informações sobre o inimigo com alto grau de detalhamento e qualidade". "A manipulação da opinião pública no Ocidente através de redes sociais, fábricas de trolls e redes de bots, ao mesmo tempo em que impulsiona narrativas anti-EUA, anti-OTAN e anti-elite, fazem parte dessa política." 

Na manhã do dia 24, a pretexto de inaugurar uma obra em São José do Rio Preto, Bolsonaro desfilou em uma motociata, sorriu, tirou fotos e discursou com uma camisa vermelha do América, time de futebol local. Fazia poucas horas que os tanques russos haviam entrado na Ucrânia. O presidente certamente não conhece o artigo de Croce. É uma pena. O texto do coronel poderia ensinar muitas coisas ao sorridente capitão. A primeira delas seria o significado da frase de Horácio: "Quid rides? Mutato nomine, de te fabula narratur". A ética do potássio só floresce onde o solo já foi adubado.

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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