Alan Santos/PR
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'Bota tua toga e fica sem encher o saco', diz Bolsonaro em ataques ao STF e ode à ditadura

Na solenidade de despedida de ministros, Bolsonaro ainda defendeu deputado acusado de promover agressões a ministros da Corte

Eduardo Gayer e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2022 | 13h19
Atualizado 31 de março de 2022 | 22h48

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a cerimônia de anúncio da saída de dez dos 22 ministros que disputarão as eleições deste ano para atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), sem citar diretamente a Corte, e elogiar a ditadura militar.

De acordo com Bolsonaro, o Brasil não vai para frente porque alguns atrapalham. “O que é que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não tem ideias, cale a boca! Bota a tua toga e fica aí sem encher o saco dos outros! Como atrapalham o Brasil”, disse. “Democracia e liberdade são batalha diária.”

O presidente afirmou que não se pode “aceitar o que vem acontecendo passivamente”. “Temos inimigos, sim. São poucos, de todos nós no Brasil, e habitam essa região dos Três Poderes”, disse. O presidente ainda afirmou que tem a obrigação de exigir transparência no voto. “Agora proibiram duvidar de urna eletrônica”, afirmou. Ele prometeu agir, embora sem explicar como. “Não pode ter conselheiros ao teu lado dizendo o tempo todo: ‘Calma, calma’, ‘espera o momento oportuno’. Calma é o cacete, pô.”

O ataque ao STF ficou ainda mais claro quando Bolsonaro defendeu o deputado Daniel Silveira (União-RJ) que estava na plateia e depois do evento foi colocar uma tornozeleira eletrônica por ordem da Corte. “É muito fácil falar ‘Daniel Silveira, cuida da tua vida’. Não vou falar isso”, disse. 

Na mesma cerimônia, Bolsonaro enalteceu o regime militar e disse que “nada” ocorreu em 31 de março de 1964, dia do golpe que derrubou o então presidente João Goulart e deu início ao regime de exceção. O golpe completou 58 anos ontem. “Trinta e um de março. O que aconteceu nesse dia? Nada. Nenhum presidente da República perdeu o mandato nesse dia”, disse Bolsonaro. “Congresso, com quase 100% dos presentes, elegeu Castello Branco presidente à luz da Constituição.” 

De fato, Goulart não perdeu o mandato no dia 31 de março de 1964, primeiro dia do golpe, mas na sequência, na madrugada de 2 de abril daquele ano, quando, mesmo estando em território nacional, o Congresso declarou vago o cargo da Presidência da República, contrariando a Constituição em vigor, promulgada em 1946.

Bolsonaro elogiou obras do período militar e ainda fez comparações entre a ditadura e o seu governo. “O que seria da Amazônia sem Castello Branco, que criou a Zona Franca de Manaus?” disse. “A composição dos ministérios (na ditadura) era parecida com os meus”, afirmou. A Zona Franca de Manaus foi criada pela lei 3.173, no governo Juscelino Kubitschek, em 1957, e sua instalação foi efetivada dez anos depois, com o decreto-lei 288, no governo do general Castello Branco.

O chefe do Executivo ainda reforçou, na contramão da ciência, sua resistência à vacinação e fez nova apologia de ivermectina e cloroquina, remédios comprovadamente ineficazes contra a covid-19. 

Bolsonaro disse que quer ter direito de andar no meio da população e sem máscara. “Tem gente que quer que eu morra e fica me enchendo o saco para tomar vacina, me deixa morrer”, afirmou, desprezando a função coletiva da imunização. 

A solenidade de troca de ministros também teve tom eleitoral, e serviu para os futuros candidatos criticarem a gestão do petista Luiz Inácio Lula da Silva, principal adversário do presidente. Coube ao ministro da Cidadania, João Roma, iniciar os ataques. Pré-candidato ao governo baiano pelo PL, ele classificou o novo programa social como “emancipador”, o Auxílio Brasil, e disse que o PT “falhou” com o Fome Zero. “Quando PT chegou ao poder o projeto social não era o Bolsa Família, era o Fome Zero. Eles falharam e nós estamos cravando o caminho fundamental para que a gente supere”, disse. 

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