Capítulo 26

Com Bolsonaro em ação, ninguém se entende na Praça dos Três Poderes, mas todo mundo quer ter razão

Nova crise política entre o presidente e o Congresso é daquelas histórias que a gente sabe como começa, mas nunca como termina

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 15h30

Caro leitor,

A nova crise política puxada pelo presidente Jair Bolsonaro é daquelas histórias que a gente sabe como começa, mas nunca como termina. Desde que Bolsonaro compartilhou pelo WhatsApp um vídeo convocando manifestações em defesa de seu governo e contra o Congresso, no dia 15 de março, os ânimos se acirraram ainda mais. Uma espécie de “armistício” está agora em negociação pelo Palácio do Planalto, que teme derrotas em votações e a contaminação da economia, mas o problema é a falta de confiança na Praça dos Três Poderes.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ao Estado que vai trabalhar pelo cumprimento do acordo firmado com o governo sobre a divisão dos recursos do Orçamento impositivo neste ano. “Nós só temos uma palavra. Nossa palavra é respeitar o acordo, mesmo sendo atacados de forma absurda”, afirmou Maia, que cumpre agenda em Madri, numa referência ao fatídico vídeo.

Bolsonaro e seus auxiliares mais diretos, como o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, têm telefonado para líderes do Congresso, principalmente do Centrão, para minimizar o que chamam de “mal entendido” e dizer que só o amor constrói.  Depois do entrevero com Maia, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não será mais interlocutor nas tratativas e o Planalto quer que deputados e senadores destinem verba do Orçamento para obras patrocinadas pelo governo, já que os ministérios estão com a corda no pescoço

Antes do carnaval, o acordo fechado pelo governo com o Congresso já previa que os parlamentares derrubariam o veto de Bolsonaro a um trecho do projeto de lei do Orçamento. Com isso, eles teriam o poder de escolher para onde enviariam o dinheiro das emendas. Trata-se, na prática, de um bolo de R$ 31 bilhões, disputado a tapa principalmente em um ano de eleições municipais como este, em que os congressistas precisam mostrar serviço para seus redutos.

Como se sabe, depois de tudo acertado, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, deu a senha do que estava por vir. Em reunião com colegas, Heleno disse que Bolsonaro não poderia se submeter à “chantagem” do Congresso “o tempo todo” e orientou o presidente a convocar o povo para “ir às ruas”. Não tardou para que Bolsonaro compartilhasse o vídeo chamando as manifestações do dia 15, no qual aparece como mártir e salvador da Pátria, como revelou a editora do BR Político Vera Magalhães.

A crítica aos “políticos de sempre” contida na peça fortaleceu o movimento de direita contra Maia e o Supremo Tribunal Federal nas redes bolsonaristas, dando vazão a quem prega uma escalada autoritária no País.

Embora Bolsonaro tenha dito, nas redes sociais, que apenas trocou mensagens “de cunho pessoal”, classificando as reações como  “tentativas rasteiras de tumultuar a República” , o fato é que qualquer gesto de um presidente vale mais do que mil palavras.

Além disso, não é de hoje que ele e seus filhos atacam o Congresso. Em maio do ano passado, por exemplo, Bolsonaro distribuiu em diversos grupos de WhatsApp um texto de “autor desconhecido” – como o vídeo de agora –, às vésperas de uma manifestação de rua, dizendo que o Brasil é um país “ingovernável” sem “conchavos” políticos.

Nesta quarta-feira de cinzas, 26, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho “zero três” do presidente, publicou no Twitter a seguinte mensagem: “Se houvesse bomba H no Congresso, o povo choraria?”

No comando do Supremo, o ministro Dias Toffoli preferiu agir como bombeiro e jogar água na fervura da crise. “O Brasil não pode conviver com um clima de disputa permanente”, escreveu Toffolli. Na outra ponta, porém, o decano da Corte, Celso de Mello, escancarou a gravidade da situação. “O presidente da República, qualquer que ele seja, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República”, disse ele, em nota.

Apesar da ameaça de partidos da oposição, como o PT, de defender o impeachment do presidente, é pouco provável que a iniciativa prospere, ao menos por enquanto. Motivo: Bolsonaro ainda tem apoio e o Congresso é impopular.

Tudo, no entanto, pode mudar no minuto seguinte, dependendo das circunstâncias. É por isso que, mesmo com respostas duras preparadas pelo Congresso para a próxima semana, muitos atores dos três Poderes entraram em cena, nos bastidores, para impedir que o incêndio atinja proporções incontornáveis. Em tempos de motins de policiais militares e de bate-boca do presidente com governadores, o Brasil parece mesmo viver no fio da navalha.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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