TIago Queiroz/Estadão
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Centrão reavalia custo eleitoral do radicalismo de Bolsonaro, diz Fernando Abrucio

Na avaliação do cientista político, a radicalização do presidente tende a favorecer eleitoralmente figuras próximas dele -- e o Centrão teria pouco a ganhar com isso em 2022

Entrevista com

Fernando Abrucio, coordenador do Centro de Estudos de Administração Pública da FGV

Gabriel Manzano Filho, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 19h01

O passo adiante dado neste 7 de Setembro pelo presidente Jair Bolsonaro, ao mencionar reunião do Conselho da República para avaliar decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e avisar que não cumprirá nenhuma decisão dele, “é só uma jogada a mais”, resume o professor Fernando Abrucio, doutor em Ciência Política pela USP e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas-SP. “Ele joga em dois campos, o eleitoral e o do golpismo, e isso já faz tempo”, adverte Abrucio.

Mas desta vez a estratégia pode esbarrar pra valer nos projetos do Centrão e lhe trazer problemas. “O ponto central é que 75% do eleitorado se mostra a favor da democracia. E está ficando claro, para políticos do Centrão, que apoiar esse Bolsonaro radicalizado, em 2022, pode não ajudá-lo, porque o eleitorado que está com o presidente vai votar em candidatos também radicais. Vamos ver muitos “Zé Trovão” pelo Brasil afora. Ou seja, “vai ser complicado atrair votos desse eleitorado para políticos tradicionais do Centrão.


Nos dois discursos que fez, em Brasília e São Paulo, o presidente Jair Bolsonaro aumentou a pressão sobre o Judiciário, anunciando uma reunião do Conselho da República para tomar alguma medida contra o ministro Alexandre de Moraes, por suas decisões contrárias ao seu governo. Como analisa esse novo passo presidencial?

Bolsonaro joga em dois campos, o eleitoral e o do golpismo. E já faz tempo. Tenta combinar os dois. O que fez neste 7 de Setembro foi costurar tudo num só.

Até onde ele pretende chegar com isso?

Creio que seu cálculo é que, nas eleições de 2022 pode conseguir 25% dos votos. Aí vai ao segundo turno contra Lula apresentando-se como única salvação do País. Acho que desta vez vai ser mais difícil do que em 2018. E se não vencer dentro das regras, ganha na marra, no extracampo. Essa estratégia mostra como ele é autoritário. Ele quer é o poder, quer ser “o grande messias” do País. Mas que, em vez de governar, faz campanha permanente.

 

Ele não acha, ou não quer, ou ninguém o convence de que isso pode não terminar bem?

Acho que a coisa começa pela piora da economia. Vários partidos vão se definir a favor de levar adiante o impeachment. Vão se dar conta de que toda a estratégia administrativa do Bolsonaro foi pro vinagre. Os debates sobre o Imposto de Renda, sobre os Precatórios. Vão achar que nem os R$ 30 bilhões do orçamento secreto pagam sua fidelidade. Mas há um outro dado novo a considerar.

Qual é?

O ponto central é que 75% do eleitorado brasileiro é a favor da democracia. Essa radicalização do presidente vai fazer crescer o número de eleitores que não votará nele. Quem vai ficar com ele, então? Os mais radicais. E o que isso significa para os políticos do Centrão, que em 2022 também serão candidatos a se reeleger? Eles perceberão que, mesmo apoiando o presidente, os votos em sua maioria vão para os políticos radicais que o acompanham de perto agora. Vamos ver muitos “Zé Trovão” pelo Brasil afora.

Qual o seu balanço geral do dia 7? Tivemos bloqueio nas estradas, não houve violências nem nas movimentações nem nas manifestações pelo País...

Acho que o presidente esperava um pouco mais -- do ponto de vista dele. Ele quer transmitir algo assim: “Posso perder a eleição, mas impeachment, com essa multidão toda do meu lado, não dá”. Mas cabe lembrar aqui uma frase conhecida do (ex-governador) Cesar Maia: Bolsonaro “é o rei do factoide”. Segue as normas do trumpismo, a estratégia do ex-presidente americano Donald Trump. Faz provocações e cria pautas para esconder que não sabe governar. Exibe, no final, uma mistura de ignorância e malandragem.

 

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