Marcos Corrêa/PR
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Bolsonaro: ‘Também não tenho apego ao cargo, mas Moro não sai’

Presidente sai em defesa do ministro da Justiça, que foi à CCJ explicar os diálogos vazados pelo site The Intercept Brasil

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2019 | 18h11

GUARATINGUETÁ – Horas depois de o ministro da Justiça, Sérgio Moro, ter dito que não tem apego ao cargo e, se cometeu irregularidade, deixaria o Ministério, o presidente Jair Bolsonaro saiu em defesa enfática do ex-juiz da Lava Jato. “Eu também não tenho apego ao meu cargo. O ministro é livre para tomar as decisões que bem entender. O Sérgio Moro é patrimônio nacional e, se depender de mim, não sai”, disse.

Em entrevista coletiva, após solenidade militar de formatura de sargentos da Aeronáutica, em Guaratinguetá, interior de São Paulo, ele disse que, “até agora”, não viu nada de mais nas conversas atribuídas a Moro, vazadas para o The Intercept Brasil. Questionado se poderia demitir Moro como fez com o presidente do BNDES, Joaquim Levy, ele disse que não demitiu Levy, mas foi ele quem pediu para sair. “Não posso casar pensando em separar um dia. Não vi nada de anormal até agora (nas conversas de Moro). Querem tentar me atingir atacando quem está do meu lado. O Sergio Moro é patrimônio, podem procurar outro alvo porque esse já era. Ele fica.”

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Sem mencionar nomes, Bolsonaro usou de ironia e tentou desqualificar a equipe do The Intercept Brasil. “Aquele casal, um deles esteve detido na Inglaterra por espionagem. Um tem suspeita de vender o mandato, não sei. A outra, menina, namorada, está fora do Brasil. Querem só desestabilizar aqui.” 

Lista tríplice

O presidente comentou a lista tríplice definida pelos procuradores para a Procuradoria Geral da República (PGR), mas disse que ainda não tomou uma decisão e demonstrou não ter pressa na definição. “Vou estudar e seguir a Constituição”, disse.

Bolsonaro também comentou a derrota no Senado, que aprovou na terça-feira o parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que pede a suspensão dos decretos que facilitaram o porte de armas. “Tenho certeza que não extrapolei a lei. Perdemos no Senado, mas vamos ganhar na Câmara. Eu quero armar o cidadão de bem. É um legítimo direito dele. Não é compromisso de campanha meu, é o povo que quer isso. Hoje o malandro entra, faz barbaridade na casa do cidadão de bem e fica por isso mesmo. Tem gente que é antiarmamentista, eu lamento.” 

Reforma da Previdência

Sobre a reforma da Previdência, Bolsonaro admitiu que dificilmente vai passar o texto como ele chegou do Executivo. “O Legislativo tem autonomia para fazer mudanças. Como é proposta de emenda da constituição é o Congresso que vai promulgar e não eu. O Congresso tem autonomia para mudar.”

Ao comentar a decisão do relator de deixar Estados e Municípios fora da reforma, ele disse que não tem comando sobre o parlamento. “E nem sempre (o comando) é dos presidente das casas, mas sim dos líderes partidários, eles que decidem. Eles sabem a hora certa de colocar no plenário. Tem governador que quer que aprove a reforma da previdência, mas sua bancada vai votar contra. A tendência que estou vendo é deixar de fora Estados e Municípios Eu vou resolver a questão do União e o governador depois faz a dele. A maioria dos Estados está quebrada, seria bom que eles embarcassem conosco nesse barco, mas eles não querem ter desgastes.”

O presidente confirmou ter editado uma medida provisória deixando a demarcação de terras indígenas sob a gestão do Ministério da Agricultura, medida que desagrada ambientalistas. Ele disse que, em seu governo, não haverá demarcação de reservas para os índios. “A questão da reserva indígena quem resolve sou eu. Não vou assinar nenhuma nova reserva indígena no Brasil. Há uma pressão externa, de ONGS de fora do Brasil, e pode ver que só tem reserva indígena praticamente em área rica. O índio é igual a eu a você, ele quer televisão, internet, futebol, um médico, um dentista. Os que ficaram para trás queriam tratar índio como se fosse um ser humano pré-histórico. O índio vai ser nosso parceiro no desenvolvimento do Brasil.”

Na mesma linha, ele se disse preocupado com a questão da Amazônia. “Não querem a preservação, querem roubar a nossa Amazônia. E o pessoal dá corda para eles. O que eu quero é garantir a Amazônia para nós”.

Durante o discurso na solenidade militar de formatura dos sargentos, na Escola Especializada da Aeronáutica, o presidente Jair Bolsonaro fez referência à ameaças à liberdade e à democracia e disse e pediu ajuda aos “irmãos de farda” para preservar o Brasil. “O Brasil tem algo muito importante para se preservar. É a nossa liberdade e a nossa democracia tão ameaçados há pouco. (Eu) quis que isso mudasse e e eu conto com vocês para que juntos façamos realmente um Brasil para todos”, afirmou.

Bolsonaro chegou ao evento, em Guaratinguetá, na companhia dos ministros da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, da Cidadania, Osmar Terra, e do gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno. Os deputados federais Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Marco Feliciano PSC-SP) e Marco Bertaiolli (PSD-SP), além da primeira-dama Michelle Bolsonaro, acompanharam a visita.

O presidente passou em revista a tropa e assistiu, ao lado do general Augusto Heleno, a entrega dos diplomas. Depois, misturou-se aos formandos e seus familiares, padrinhos e madrinhas, foi tietado e posou para fotos. Foi a segunda visita de Bolsonaro à unidade militar em pouco mais de seis meses. No dia 30 de novembro, já presidente eleito, ele acompanhou a formatura de 530 sargentos.

 

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