Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Bolsonaro rebate Lula e diz, que, pelo menos, País não é governado por 'um bando de cachaceiros'

Presidente afirmou ainda que considerou um erro a decisão da Justiça autorizar a entrevista do petista

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 12h44

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse neste sábado, 27, que seus ministros devem seguir sua linha de pensamento ou ficar “em silêncio”, se discordarem das orientações. O comentário expõe mais um capítulo da disputa dentro do governo, após a polêmica envolvendo uma propaganda do Banco do Brasil, que foi retirada do ar por ordem do presidente.

“Quem indica e nomeia presidente do Banco do Brasil? Sou eu? Não preciso falar mais nada, então”, afirmou Bolsonaro. “A linha mudou. A massa quer o quê? Respeito à família. Ninguém quer perseguir minoria nenhuma. E nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira.”

Bolsonaro fez a afirmação um dia depois de a Secretaria de Governo, comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ter desautorizado uma ordem da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) para que todo o material de propaganda da administração, incluindo o das estatais, passasse por análise prévia da pasta. Em nota divulgada na noite de sexta-feira, a Secretaria de Governo -- à qual a Secom está subordinada -- diz que a medida fere a Lei das Estatais, “pois não cabe à administração direta intervir no conteúdo da publicidade estritamente mercadológica das empresas estatais”.

Houve, na prática, um recuo, mas Bolsonaro não gostou. Após o presidente ter mandado cancelar a propaganda do Banco do Brasil, a Secom havia enviado um e-mail a estatais com instruções para controlar os comerciais e “maximizar o alinhamento de toda ação de publicidade”. Teve, porém, de voltar atrás na determinação.

Com apenas 30 segundos, a propaganda do Banco do Brasil era protagonizada por mulheres e homens negros e tatuados, além de uma transexual. Dirigida ao público jovem, a campanha publicitária mostrava atores que representavam a diversidade racial e sexual. “Não é a minha linha. Vocês sabem que não é minha linha”, insistiu Bolsonaro neste sábado.

O caso custou o cargo do diretor de Comunicação e Marketing do banco, Delano Valentim. Questionado sobre como pretendia controlar a publicidade de estatais, o presidente respondeu que os ministros devem seguir seu pensamento ou não se pronunciar. “Olha, por exemplo, meus ministros... Eu tinha uma linha, armamento. Eu não sou armamentista? Então, ministro meu ou é armamentista ou fica em silêncio. É a regra do jogo”, afirmou ele. A frase foi interpretada até por aliados como um puxão de orelha em Santos Cruz. 

Mais tarde, após participar neste sábado de um almoço de comemoração do aniversário do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Walton Alencar Rodrigues, Bolsonaro foi questionado pelo Estado se estava mandando um recado para Santos Cruz com suas declarações. “Santos Cruz é meu irmão. O que é isso?”, respondeu o presidente.

“Não tem nada a ver. Tem um novo chefe da Secom, estamos ajustando ainda”, acrescentou ele, em uma referência ao publicitário Fábio Wajngarten, que comanda a Secom há duas semanas e até agora não se entendeu com Santos Cruz.

De acordo com Bolsonaro, todos os seus ministros têm autonomia de ação. “Não queremos impedir nada, mas quem quiser fazer diferente do que a maioria quer, que não faça com verba pública. Só isso”, disse o presidente.

Lula e Rodrigo Maia

Pela manhã, Bolsonaro rebateu declaração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem o Brasil é governado atualmente por um “bando de malucos”. “Bem, pelo menos não é um bando de cachaceiros, né?”, afirmou.

Condenado e preso na Operação Lava Jato, Lula fez a crítica em entrevista aos jornais El País e Folha de S. Paulo, autorizada pela Justiça e realizada na sede da Polícia Federal, em Curitiba, onde o petista cumpre a pena. Bolsonaro afirmou considerar um erro da Justiça a autorização para a entrevista.

“Olha, eu acho que o Lula, primeiro, não deveria falar. Falou besteira. Maluco? Quem era o time dele?”, perguntou o presidente. Ele mesmo respondeu: “Grande parte está preso ou está sendo processado. Tinha um plano de poder onde, nos finalmentes, nos roubaria a nossa liberdade, ok?. Eu acho um equívoco, um erro da Justiça ter dado direito a dar uma entrevista. Presidiário tem que cumprir sua pena.”

No almoço na casa do ministro do TCU, Bolsonaro se encontrou com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e tentou desfazer o mal estar com o deputado, um dia depois de o site Buzzfeed divulgar uma entrevista atribuindo ao parlamentar uma série de críticas aos filhos de Bolsonaro. “Estou namorando Rodrigo Maia. (Tive) uma conversa maravilhosa com ele”, afirmou o presidente. “Sem problema. Estamos aí 100%”.

De acordo com o site, Maia disse que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) vive um “momento de deslumbramento” e é quem, na prática, comanda as Relações Exteriores do País. O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), por sua vez, poderia ser “doido à vontade”, porque teria aval do pai para suas ações e a estratégia definida por ele nas redes sociais.

“Eu tenho certeza que isso é um fake (falso). Eu gosto do Rodrigo Maia, ele tem respeito comigo e eu tenho por ele. Mandei mensagem via Onyx (Lorenzoni, ministro da Casa Civil) para ele ontem à noite dizendo que o que nós dois juntos podemos fazer não tem preço. E 208 milhões de pessoas precisam de mim e dele, e grande parte de vocês. Rodrigo Maia é pessoa importantíssima para o futuro de 208 milhões de pessoas. Espero brevemente poder conversar com ele”, afirmou o presidente.

Reforma da Previdência

Sobre a reforma da Previdência, em tramitação na Câmara, Bolsonaro afirmou que a proposta “não pode ser desidratada”. No seu diagnóstico, se o texto aprovado pelo Congresso representar uma economia abaixo de R$ 800 bilhões, será o mesmo que “retardar a queda do avião".

“Ela (a proposta) não pode ser desidratada, tem um limite. Abaixo disso apenas, como disse Paulo Guedes (ministro da Economia), vai retardar a queda do avião. O Brasil não pode quebrar. Nós temos que alçar um voo seguro para que todos possam se beneficiar da nossa economia”, argumentou.

O comentário foi feito por Bolsonaro quando ele mencionou as críticas do presidente da comissão especial que analisa a proposta de emenda à Constituição (PEC) da reforma, o deputado Marcelo Ramos (PR-AM). Para o deputado, o presidente prejudica a reforma ao falar dela. Na quinta-feira, Bolsonaro disse a jornalistas, durante café da manhã no Palácio do Planalto, que uma economia de R$ 800 bilhões seria um ponto de inflexão positivo na economia. Um valor abaixo, na sua avaliação, poderia levar a uma crise como a da Argentina. A proposta original da equipe econômica, porém, previa mais de R$ 1 trilhão de economia ao governo.

Bolsonaro esteve neste sábado pela manhã na periferia de Brasília, visitando a menina Yasmin Alves, que participou da comemoração de Páscoa no Palácio do Planalto, na semana passada. O presidente contou que perguntou ao grupo de crianças que esteve no Planalto quem ali era palmeirense. “E ela falou que não. Nada mais além disso”, afirmou.

Na ocasião, o Estado publicou, com base no vídeo postado nas redes sociais do presidente, que a menina havia se recusado a cumprimentá-lo. A informação foi corrigida imediatamente após o governo esclarecer que a negativa da menina era, na verdade, uma resposta ao questionamento do presidente sobre futebol.

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