Alan Santos/PR
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Em Manaus, Bolsonaro provoca aglomeração e elogia Pazuello

Presidente cumprimenta apoiadores, posa para fotos e faz uma espécie de ato de desagravo ao ex-ministro da Saúde; general, cuja gestão é questionada, ganhou novo cargo no Exército

Mateus Vargas e Emily Benke, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 14h36
Atualizado 23 de abril de 2021 | 20h16

BRASÍLIA – Um dia depois de o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), alertar para a possibilidade de uma terceira onda de contaminação pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro e comitiva estiveram nesta sexta-feira, 23, na capital do Estado, Manaus, para participar de eventos que causaram aglomeração.

Sem máscara, Bolsonaro cumprimentou apoiadores, posou para fotos e fez uma espécie de ato de desagravo ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello – cuja atuação no caos instalado em Manaus no início do ano por falta de oxigênio motivou a abertura de inquérito e da CPI da Covid no Senado.

Em Manaus, Bolsonaro recebeu o título de cidadão amazonense, aprovado na Assembleia Legislativa (AL-AM), participou de encontro com lideranças evangélicas e inaugurou um pavilhão no Centro de Convenções do Amazonas. O presidente estava acompanhado de assessores e ministros, entre eles o da Saúde, Marcelo Queiroga, que já se manifestou favorável a medidas de distanciamento social para reduzir o contágio do novo coronavírus.  

Segundo apurou o Estadão, o governador do Amazonas discutiu com Queiroga um plano para enfrentar a terceira onda da covid no Estado. Há temor de nova falta de oxigênio, além de medicamentos de intubação. O Amazonas enfrentou o auge da crise sanitária em janeiro, quando o sistema de saúde do Estado entrou em colapso e pacientes internados morreram asfixiados pela falta de oxigênio medicinal. 

Às vésperas de o insumo acabar, uma equipe liderada pelo então ministro Eduardo Pazuello esteve na cidade levando 130 mil comprimidos de hidroxicloroquina, droga sem eficácia comprovada para a covid-19. 

A possível omissão do governo federal para evitar a crise no Amazonas colocou a gestão Bolsonaro em crise e sob investigações. A CPI da Covid no Senado irá apurar se a equipe de Pazuello demorou para agir. O presidente minimizou, à época, a crise em Manaus e chegou a creditá-la à falta de uso do tratamento precoce, o “kit covid”, com base em medicamentos contraindicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Ao discursar, Bolsonaro disse que o colapso era “inesperado” e comemorou o fato de não haver um “lockdown nacional” contra a pandemia. “Imagine essa pandemia com (o candidato derrotado no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, Fernando) Haddad presidente da República. Estaríamos num lockdown nacional. Graças a Deus isso não aconteceu.” 


O presidente ainda afirmou que sua equipe “colaborou e muito” para reduzir danos do colapso em Manaus e elogiou o ex-ministro Pazuello. “Conseguimos com a equipe que nós temos em Brasília colaborar e muito para que os danos dessa pandemia fossem diminuídos, em especial pelo ministro da Saúde que tive até pouco tempo, o senhor Eduardo Pazuello”, disse Bolsonaro na cerimônia de inauguração do Pavilhão de Feiras e Exposições do Centro de Convenções do Amazonas. Em seguida, disse que Queiroga dá “prosseguimento” ao trabalho do general. A visita do presidente ocorreu num evento que reuniu pelo menos 300 pessoas num ambiente fechado.

Pazuello é alvo de inquérito que investiga sua atuação na crise de saúde de Manaus. Na semana passada, o Ministério Público Federal apresentou ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro e secretários do Ministério da Saúde. 

No evento, Pazuello foi chamado à frente no palco por Gilson Machado. O general não falou ao microfone mas ouviu palmas e gritos de apoio da plateia, entre eles “Pazuello governador”. Durante os aplausos, Bolsonaro levantou e o abraçou. “Fui testemunha da luta desse homem (Pazuello) pela erradicação da doença no nosso País”, comentou Machado. “Quero dizer, Pazuello, que nós somos muito gratos ao seu empenho.” Machado também tocou sanfona durante o discurso. 

Aliado ao governo, Wilson Lima também discursou na cerimônia, mas sob vaias, e reforçou o endosso a Pazuello. “Quero fazer um reconhecimento ao governo federal que nos ajudou e foi fundamental nesse processo de enfrentamento da covid-19. Quero fazer um agradecimento muito especial ao general Eduardo Pazuello, que viveu no Estado do Amazonas os momentos mais difíceis pelo qual o nosso povo passou”, disse. 

O desagravo a Pazuello acontece em meio à repercussão da entrevista que o ex-secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, concedeu à revista Veja, na qual ele credita a falta de vacinas no País à “incompetência e ineficiência” do então ministro da Saúde. Pazuello deixou o ministério no final de março. Nesta sexta, o ex-ministro foi nomeado para a Secretaria-Geral do Exército. Ele espera, contudo, assumir um cargo no Palácio do Planalto.

Belém

Em Belém, também em viagem nesta sexta, Bolsonaro voltou a exalar a gestão de Pazuello. Segundo o presidente, o general Pazuello “fez o dever de casa lá atrás e não comprou no ano passado porque precisava passar pela Anvisa. Seria uma irresponsabilidade do governo despender recursos para algo que ninguém sabia o que era ainda, porque não estava no mercado”, defendeu Bolsonaro.

As declarações ocorreram durante cerimônia de entrega de cestas de alimentos às comunidades tradicionais do Pará, através do Programa Brasil Fraterno, coordenado pelo Ministério da Cidadania. Ele foi recebido por uma grande quantidade de apoiadores. 

Ainda sobre a pandemia, Bolsonaro fez diversas críticas aos governantes que defenderam o isolamento social, como forma de frear o avanço do novo coronavírus. “Eu não compactuo com a política do “fica em casa”, eu não sou de acordo com os toques de recolher, não apoio o lockdown, nem a destruição dos empregos”, criticou Bolsonaro no Pará, um dos primeiros Estados do País, onde o governo estadual adotou medidas restritivas e hoje é referência nacional no enfrentamento da Covid-19, por ter atravessado a segunda onda do vírus de forma menos letal, sem ter amargar o colapso no seu sistema de saúde. /COLABOROU ROSIENE CARVALHO e ROBERTA PARAENSE, ESPECIAL PARA O ESTADÃO.

 

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