Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Bolsonaro 'arranja' agenda no ministério da Saúde a mulher que diz ter cura para covid com alho cru

Apoiadora do presidente disse que está disposta a servir de cobaia para comprovar que possui a cura da doença

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2020 | 21h30

BRASÍLIA - Uma apoiadora do presidente Jair Bolsonaro que o aguardava em frente ao Palácio da Alvorada na noite desta segunda-feira, 8, recebeu a promessa de que será recebida pelo Ministério da Saúde após informar que conversa com Deus desde os seis anos de idade e sabe como curar o novo coronavírus. A mulher disse que está disposta a servir de cobaia para comprovar que possui a cura da doença que já matou 397.380 pessoas no mundo e tem mobilizado cientistas de todo planeta. 

“Eu trouxe a cura do coronavírus e eu coloco a minha vida à disposição. Tenho 38 anos, sou mãe de três filhos, eu não estou aqui para brincadeira. Deus fala comigo desde os seis anos. Deus quer mudar esse País. Deus quer te exaltar na presença de todos os povos e nações. Não preciso que acredite em mim. Preciso que ponha a prova. Podem injetar o vírus em mim. Eu assumo todas as responsabilidades. Eu trouxe comigo. E é tão natural, é tão perfeita, é tão mágico, é tão natural, é tão de Deus que o povo vai dizer que é impossível”, afirmou a mulher.

Após ouvir o relato, Bolsonaro afirmou: “Eu te arranjo amanhã para a senhora conversar lá, alguém para conversar com a senhora no Ministério da Saúde. Pode ser?”

A mulher informou ao presidente que a cura milagrosa pode vir do alho cru. “Sabia que quando a pessoa usa um dente de alho cru por dia aumenta a imunidade? Por quê? Porque é rico em enxofre. O enxofre mata o coronavírus”, garantiu.

O presidente então pediu que ela entre em contato com sua assessoria. “Deixa o telefone com alguém aqui, anota”, determinou Bolsonaro. 

O site do Ministério da Saúde classifica de fake news a informação que relacionava o alho à cura da doença. “Coronavírus pode ser curado com tigela de água de alho recém-fervida - É FAKE NEWS!”, informa a página oficial do ministério. 

Nem para gripe o alho é considerado um remédio. O site colaborativo Cochrane, voltado para investigação em medicina, aponta que não há comprovação de que o alho possa prevenir resfriados, embora tenha "discreta" ação anti-inflamatória e contra micro-organismos.

Quase todas as noites, o presidente para o carro em frente à residência oficial para conversar com poucos apoiadores que o aguardam. Em geral, ouve elogios ao governo, ataques à cobertura da imprensa e alguns pedidos específicos. Nesta segunda, um dos apoiadores queria conversar com o presidente sobre estande de tiros. Bolsonaro afirmou que, desta vez, estava ocupado.

O presidente tem se posicionado contra medidas recomendadas pelas autoridades mundiais de saúde para combater a covid-19, que ele já chamou de “gripezinha”. Sobre o número crescente de mortes, costuma dizer que é o destino de todos e que não é coveiro.

Desde a saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde, Bolsonaro tem comandando a pasta ele mesmo. As ordens são dadas ao ministro interino, o general Eduardo Pazuello, que as cumpre sem questionamentos. Partiu do presidente, por exemplo, a determinação para que o Ministério da Saúde liberasse a cloroquina como remédio para tratar casos leves da doença. Por não ter comprovação científica, a ação foi recusada por dois ministros da saúde médicos que preferiram pedir demissão a validar essa iniciativa. O atual ministro interino não se negou.

Na gestão de Pazuello, dados sobre o número de mortos passaram a ser omitidos e a divulgação atrasada. Ao comentar o assunto, Bolsonaro não deixou dúvidas sobre o propósito: “Não vai ter Jornal Nacional”. O JN, da TV Globo, é o telejornal de maior audiência do País. O Estadão revelou nesta segunda que partiu do presidente a ordem para que a pasta maquiasse os dados de forma a que não ultrapassem as mil mortes por dia. O ministério disse que a decisão de atrasar a divulgação, já revogada, foi técnica.

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