Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Dos 13 candidatos de Bolsonaro, só dois foram eleitos prefeitos

Levantamento mostra que FHC, Lula e Dilma tiveram êxito nas eleições municipais quando foram presidentes, diferentemente do que pode ocorrer agora

Jussara Soares e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 23h18
Atualizado 16 de novembro de 2020 | 06h27

BRASÍLIA – O resultado das eleições municipais sinaliza que o presidente Jair Bolsonaro já não possui a mesma capacidade de transferência de votos das eleições de 2018, quando ajudou a eleger governadores, senadores e dezenas de deputados federais e estaduais. 

Dos 13 candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro, dois foram eleitos e outros dois estão no segundo turno. Apesar de se reeleger vereador no Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), seu filho, perdeu o posto de candidato mais votado para um político do arqui-inimigo PSOL Tarcísio Motta.

Nas redes sociais, Bolsonaro e Carlos tentaram minimizar os episódios. O presidente disse que só fez “três horas de campanha”, o que não é verdade. Já seu filho colocou na conta do pai a derrota do PT no Nordeste. O partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputou oito das nove capitais e perdeu em sete. Sua única chance é no Recife, onde disputa o segundo turno com Marília Arraes.

O Nordeste tem o segundo maior número de eleitores do país, perdendo apenas para o Sudeste. Tradicionalmente era um reduto do PT. Nas eleições de 2018, foi a região em que Bolsonaro teve o seu pior desempenho. Agora, o grupo do presidente aposta que o resultado desta eleição indica o avanço de Bolsonaro em 2022 na região. 

Mesmo com as urnas ainda abertas, o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro foi às redes sociais registrar o fracasso de Bolsonaro e observar resultados favoráveis para a esquerda. “Os candidatos apoiados pela Presidência fracassaram e o PSOL tornou-se o partido de esquerda mais relevante”, observou o ex-juiz.

Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), feito a pedido Estadão, mostra que os partidos dos presidentes da República desde Fernando Henrique Cardoso conseguiram eleger números expressivos de prefeito dois anos depois de conquistarem o primeiro mandato. O PSDB passou de 317, em 1992, para 934 em 1996. Já o PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, passou de 174, em 2000, para 400 prefeituras, em 2004. Com Dilma Rousseff, o PT passou de 557 em 2008 para 638 em 2012. 

Bolsonaro foi eleito pelo PSL, mas deixou o partido um ano depois. O presidente tentou criar o Aliança pelo Brasil, mas a legenda não saiu do papel. Parte dos candidatos bolsonaristas, entretanto, permaneceram no PSL e outros foram para siglas nanicas. 

Saldo

Ao justificar o mau desempenho de seus apadrinhados, Bolsonaro citou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), que ajudou a eleger João Doria, atual governador, prefeito da capital em 2014. “Dois anos depois Alckmin obteve apenas 4,7% dos votos na disputa presidencial”, disse. 

Na publicação, o presidente disse que “a esquerda sofreu uma histórica derrota nessas eleições, numa clara sinalização de que a onda conservadora chegou em 2018 para ficar.” Bolsonaro demonstrou otimismo sobre 2022. “Para 2022 a certeza de que, nas urnas, consolidaremos nossa democracia com um sistema eleitoral aperfeiçoado”, encerrou. 

Recentemente, o chefe do Executivo disse que se empenhará para o Congresso aprove o voto impresso como medida para evitar fraude. O presidente insinua frequentemente, sem provas, que houve irregularidades na eleição de 2018. Ontem bolsonaristas inundaram as redes sociais com narrativas de fraude por causa do atraso da apuração dos votos.

“O que houve com os conservadores? Erramos, nos pulverizamos ou sofremos uma fraude monumental?”, questionou a deputa federal Carla Zambelli (PSL-SP) pelo Twitter, mesmo sem apresentar qualquer evidência de que houve qualquer irregularidade na disputa.

Bolsonaro apagou lista de candidatos apoiados

No sábado, véspera da votação, Bolsonaro publicou nas redes sociais uma lista com o número de seus candidatos, entre Russomanno. Neste domingo, 15, a publicação foi apagada das redes sociais quando a boca de urna começou a indicar o fracasso de seus indicados.

Ao Estadão, um ministro citou que o próprio presidente estava consciente de que a derrota de aliados seria atribuída a ele. Na semana passada, em uma live, Bolsonaro admitiu a dificuldade de transferência de votos. “Eu não tenho como eleger. Lógico, eu interfiro ali, cinco por cento, talvez, na quantidade de votos que você vai ter, seis por cento. Quatro, talvez. Eu tô colaborando com alguns”, disse o presidente.

Para o diretor da escola de Ciência Política da Uni-Rio, José Paulo Martins Junior, a votação indica que o bolsonarismo que se conheceu em 2018 perdeu forças nas urnas. “É uma disputa muito mais dispersa, é mais difícil de articular. Em muitos municípios, havia mais de um candidato bolsonarista”, observou.

O cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observa que a eleição privilegiou prefeitos que administram bem durante a pandemia do coronavírus, citando como exemplo Alexandre Kalil (DEM), que deve ser reeleito em Belo Horizonte. Bolsonaro, em suas transmissões ao vivo, pediu para que os eleitores não votassem em prefeitos que tivessem adotado medidas de distanciamento social, inclusive com fechamento de comércio, para conter o avanço da doença.

O especialista observa também que o eleitor conservador apostou em partidos de centro-direita, como o Democratas. E pontua que a eleição indica que a esquerda começa a conseguir se organizar com bons resultados em São Paulo, Porto Alegre, Recife e Belém. “No campo do eleitor conservador houve uma migração de votos da extrema direita para uma centro-direita. É uma eleição que também está sendo favorável a esquerda, o que mostra que Bolsonaro é o grande perdedor dessas eleições”, disse Avritzer.

A expectativa no entorno do presidente é sobre o quanto ele estará disposto a se envolver no segundo turno diante dos resultados. A interlocutores, Bolsonaro já disse que poderia ser mais ativo na campanha na segunda etapa das eleições para evitar um avanço da esquerda em cidade estratégicas. Até o final da noite deste domingo, Bolsonaro, no entanto, não havia se manifestado.

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