André Borges/Estadão
André Borges/Estadão

Bolsonaro participa de manifestação e diz que não irá 'mais admitir interferência'

Presidente foi até rampa do Palácio do Planalto para falar com apoiadores, que gritavam 'Moro traidor'

Amanda Pupo, Julia Lindner e André Borges, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 13h01
Atualizado 03 de maio de 2020 | 21h38

BRASÍLIA – Incitado por um ato que reuniu manifestantes neste domingo, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro fez uso das redes sociais para renovar o esgarçamento das relações do Executivo com o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). O presidente declarou que as Forças Armadas estão ao lado do seu governo e que pede a Deus que “não tenhamos problemas nesta semana” porque ele “chegou no limite” e “daqui para frente não tem mais conversa” e a Constituição “será cumprida a qualquer preço”.

“Vocês sabem que o povo está conosco, as Forças Armadas ao lado da lei, da ordem, da democracia, liberdade, também estão ao nosso lado. Vamos tocar o barco, peço a Deus que não tenhamos problema nessa semana, porque chegamos no limite, não tem mais conversa, daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço. Amanhã nomeados novo diretor da PF, e o Brasil segue seu rumo”, afirmou o presidente.

Na live, o presidente afirmou ainda que não irá mais admitir interferência em seu governo. “O que nós queremos é o melhor para o nosso País, a independência verdadeira dos três Poderes, não apenas uma letra da Constituição. Chega de interferência, não vamos mais admitir interferência, acabou a paciência.”

Quando a transmissão foi feita, uma multidão se aglomerava em frente ao Palácio do Planalto. Em um ato de caráter antidemocrático e contrário ao que recomendam os órgãos de Saúde, bolsonaristas pediam a saída do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) da presidência da Câmara e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.

As palavras de Bolsonaro têm endereço certo. As declarações ocorrem dias depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, proibir a nomeação do delegado Alexandre Ramagem para a Polícia Federal, e o ex-ministro Sérgio Moro prestar depoimento num inquérito que tramita no Supremo e no qual Bolsonaro é investigado por supostamente tentar interferir no comando da PF para ter acesso ilegal a inquéritos sigilosos que miram seus filhos e apoiadores. A acusação foi feita por Moro ao se demitir do governo.

Oficiais-generais influentes ouvidos pela reportagem avaliaram que o presidente tentou fazer uso político do capital das Forças Armadas, o que provocou novo incômodo no setor.

Na rampa do Palácio do Planalto, sem microfone para fazer discurso, Bolsonaro ficou cerca de uma hora, acenando à população. No dia em que o Brasil ultrapassou o número de mais de 100 mil pessoas contaminadas pela covid-19 e mais de 7 mil pessoas mortas, os manifestantes tomaram conta da região central de Brasília, formando filas quilométricas por um lado inteiro da Esplanada dos Ministérios. 

O que, em princípio, tinha sido anunciado com uma grande carreata de apoio a Bolsonaro, transformou-se em uma significativa manifestação de rua, com milhares de pessoas aglomeradas em frente ao Congresso e ao Palácio do Planalto, pedindo a queda do Legislativo e do Judiciário. 

A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal não informou quantos manifestantes participaram do ato, que teve início às 10h e foi encerrado por volta das 14h. A multidão tomou boa parte do gramado central do Congresso e a frente do Palácio do Planalto.

Durante a manifestação, apoiadores do presidente agrediram com chutes, murros e empurrões a equipe de profissionais do Estadão que cobria o evento

Bolsonaro desceu a rampa por volta de 13h e foi cumprimentar os presentes na beira do alambrado que cerca o local. Mais uma vez em desrespeito às medidas de prevenção contra a covid-19, o presidente voltou a se aproximar dos populares e incentivou a aglomeração onde a maioria nem sequer utilizava máscaras de proteção.

Diferentemente do que se viu duas semanas atrás, quando Bolsonaro participou de um ato onde manifestantes pediam a intervenção militar no País, ato alvo de investigação determinada pelo Supremo – neste domingo falou-se menos em golpe militar. Os bolsonaristas procuraram centrar fogo direto em Rodrigo Maia e no STF. 

Muitas criticavam também o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, com xingamento de “Judas”, termo usado por Jair Messias Bolsonaro para se referir ao ex-aliado.

O acirramento dos ânimos na política ocorre em pleno surto de coronavírus no País, que enfrenta uma escalada no número de contaminados e perspectiva de aumento da curva de infecção nas próximas semanas, segundo autoridades da saúde. O Brasil, que hoje chega a 101 mil casos confirmados da doença, tinha 9,2 mil casos há exatamente um mês. Em 30 dias, portanto, esse número cresceu 11 vezes. As mortes pela covid-19, que chegavam a 365 vítimas em 03 de abril, se multiplicaram por 20 em apenas 30 dias, e hoje são mais de 7 mil pessoas. 

Para a aposentada Graça Teixeira, de 72 anos, que foi para a esplanada com uma bandeira do Brasil e entrou no meio da manifestação, não há o que temer. “Não tenho medo da doença”, disse ela. “Quem tem medo de morrer, não nasce.”

PF. Ontem, Bolsonaro anunciou que o novo diretor-geral da PF será indicado hoje. O mais cotado para a vaga deixada por Maurício Valeixo é Rolando Alexandre de Souza, secretário de Planejamento e Gestão da Abin e número 2 de Alexandre Ramagem.

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