Gabriela Biló/ESTADÃO
Gabriela Biló/ESTADÃO

Bolsonaro participa de desfile de blindados no dia em que Câmara deve rejeitar voto impresso

Diante das suspeitas provocadas pelo inédito desfile bélico nos arredores do Congresso, presidente usou as redes sociais para convidar os chefes de Poderes a assistir às manobras militares; para Lira, evento é 'trágica coincidência'

Vera Rosa, Lauriberto Pompeu, Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 09h26
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 00h27

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro acompanhou da rampa do Palácio do Planalto, na manhã desta terça-feira, 10, o desfile de blindados, em Brasília. O trajeto contou com cerca de 150 veículos militares, que passaram em frente do Planalto, sob a justificativa de entregar um convite a Bolsonaro e a diversas autoridades da República para que participassem do dia de Demonstração Operativa, em 16 de agosto. 

Bolsonaro recebeu o convite das mãos de um militar, ao lado da cúpula das Forças Armadas e de ministros. Depois de passar pela Praça dos Três Poderes, os tanques e blindados seguiram pela Esplanada dos Ministérios e pararam diante do prédio da Marinha, onde ficarão expostos.

O desfile bélico ocorreu no mesmo dia em que o plenário da Câmara deve rejeitar a Proposta de Emenda à Constituição do voto impresso. Na definição do presidente da Casa, Arthur Lira (Progressistas-AL), o percurso dos blindados foi uma "trágica coincidência". Parlamentares de diversos partidos definiram o desfile como “afronta” e  “tentativa de constranger o Congresso”.

Ficaram ao lado de Bolsonaro, durante o ato, os comandantes do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, da Marinha, Almir Garnier Santos, e da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Júnior; o chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno; o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Laerte de Souza Santos; e o ministro da Defesa, Walter Braga Netto.

Outros ministros acompanharam o desfile, como o da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI); o da Educação, Milton Ribeiro; e o da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, entre outros. Todos apareceram sem máscara de proteção contra o coronavírus. Um manifestante chegou a entrar na frente do comboio e tentou impedir que os blindados avançassem, mas foi rapidamente retirado pelos agentes que participavam do ato.

O comboio de veículos militares blindados faz parte da Operação Formosa, um treinamento militar que, pela primeira vez, tem a participação do Exército e da Força Aérea. 

Para chegar à cidade de Formosa (GO), porém, não é necessário passar pelos arredores do Congresso. Além disso, a operação – promovida pela Marinha desde 1988 – tradicionalmente não incluía, como nesta edição, o Exército e a Aeronáutica. Não foi sem motivo que cresceu entre parlamentares a leitura de que houve ali uma tentativa de intimidar o Congresso,  especialmente diante da perspectiva de derrota do voto impresso na Câmara.

A Marinha informou, por meio de nota, que o desfile foi planejado antes do cronograma prevendo a análise da PEC do voto impresso no plenário da Câmara e “não possui relação com a mesma, ou qualquer outro ato em curso nos Poderes da República”.

Diante das suspeitas provocadas pelo inédito desfile bélico em frente do Palácio do Planalto, Bolsonaro usou ontem as redes sociais com o objetivo de convidar presidentes de Poderes para assistir às manobras militares. Na mensagem Bolsonaro, se apresenta como “Chefe Supremo das Forças Armadas”. 

“Sr. Presidente do ... STF, Câmara Federal, Senado, TCU, TSE, STJ, TST, Deputados, Senadores... : Como ocorre desde 1988, a nossa Marinha realiza exercícios em Formosa/GO. Como a tropa vem do Rio, Brasília é passagem obrigatória. Muito me honraria sua presença amanhã na Presidência (08h30), onde receberei os cumprimentos da Força e lhes desejarei boa sorte na missão", escreveu Bolsonaro.

Desde 8 de julho, não foram poucas as vezes em que Bolsonaro disse que não haveria eleições sem voto impresso no País. A ameaça também foi feita naquele mesmo dia pelo ministro da Defesa, Walter Braga Netto, a um importante interlocutor político, que tratou de repassar o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), como revelou o Estadão.

Protestos

Divulgado pela Marinha como uma deferência a Bolsonaro, o desfile bélico provocou críticas de parlamentares, que se sentiram intimidados. 

Além de Lira destacar que o desfile significava uma “trágica coincidência”, ele reconheceu o ineditismo da iniciativa. “Não é usual”, afirmou o presidente da Câmara sobre o exercício militar, em entrevista ao site O Antagonista. “E, não sendo usual, em um País polarizado do jeito que o Brasil está, isso dá cabimento para que se especule (tratar) de algum tipo de pressão. Entramos em contato com o Palácio do Planalto, falei com o presidente (Bolsonaro) e ele garantiu não haver esse intuito”.

Nas últimas semanas, Bolsonaro fez duros ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não foi só: xingou o presidente do TSE, Luis Roberto Barroso, de “filho da p...” por sua posição contrária ao voto impresso; acusou fraudes nas urnas eletrônicas sem apresentar quaisquer provas; afirmou que o ministro Alexandre de Moraes era a “mentira” no STF e disse haver um “complô” para eleger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, hoje líder nas pesquisas de intenção de voto, em 2022. Com tantos insultos, o presidente do Supremo, Luiz Fux, cancelou a reunião entre os Poderes, que estava prevista para os próximos dias.

“Tanques na rua, exatamente no dia da votação da PEC do voto impresso, passou do simbolismo à intimidação real, clara, indevida, inconstitucional. Se acontecer, só cabe à Câmara dos Deputados rejeitar a PEC, em resposta clara e objetiva de que vivemos numa democracia e que assim permaneceremos”, criticou a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Na avaliação da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), integrante da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Bolsonaro quer fazer do treinamento militar um espetáculo político. “Há homens fracos e frouxos que usam da força para mostrar poder. Bolsonaro é desses. Mais uma vez usa as instituições militares para impulsionar seu projeto anarquista de poder”, criticou Perpétua. “É um necessário exercício da Marinha, mas que Bolsonaro transforma num espetáculo político, quando o traz pra Esplanada, com clara intenção de aumentar especulações.”

O objetivo da Operação Formosa é treinar militares da Força de Fuzileiros da Esquadra, sediada no Rio. Mesmo entre eles, porém, a manobra é vista como uma forma de intimidação por demonstrar a capacidade de fogo, um “instrumento de dissuasão” na linguagem da caserna.

Em nota, a Marinha informou que Bolsonaro e “diversas autoridades dos Poderes da República” são convidadas anualmente para assistir ao Dia de Demonstração Operativa, que, neste ano, ocorrerá no próximo dia 16. A entrega do convite a Bolsonaro será feita nesta terça-feira e foi planejada “para contemplar um comboio composto por algumas das principais viaturas”. Ainda de acordo com a Marinha, o ato foi marcado antes da agenda para a votação da proposta do voto impresso.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse que recorreu à Justiça para impedir “gasto de  recursos públicos em uma exibição vazia de poderio militar”. “As Forças Armadas, instituições de Estado, não precisam disso. Os brasileiros, sofrendo com as consequências da pandemia, também não. O Brasil não é um brinquedo na mão de lunáticos”, afirmou Vieira.

O treinamento reunirá militares das três forças. O adestramento ocorrerá no Campo de Instrução de Formosa, em Goiás. Os fuzileiros fazem simulações de guerra, com aviões, paraquedistas, helicópteros, blindados, anfíbios, bateria antiaérea, detonação de explosivos, descontaminação por agentes químicos, nucleares, biológicos e bacteriológicos. 

A área de cerrado pertence ao Exército e é cedida à Marinha por ser a única do País em que é possível realizar esses exercícios com uso de munição real.

 

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