Gabriela Bilo/Estadão
O presidente Jair Bolsonaro, durante entrevista em frente ao Palácio da Alvorada Gabriela Bilo/Estadão

Bolsonaro ofende jornalista ao citar depoimento em CPI

ANJ reage às insinuações sobre repórter da 'Folha': 'O presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia'

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 10h55

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro fez insinuações sobre o trabalho da jornalista Patrícia Campos Mello, repórter do jornal Folha de S.Paulo, na manhã desta terça-feira, 18. "Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", disse Bolsonaro aos risos na saída do Palácio da Alvorada. 

Ele fez a declaração ao comentar o depoimento de um ex-funcionário da Yacows, uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, na CPI das Fake News no Congresso. Na semana passada, Hans River ofendeu a jornalista ao dizer que ela havia se insinuado para ele em troca de uma reportagem sobre o uso de disparos de mensagens na campanha eleitoral. Suas declarações na comissão foram contestadas em mensagens de texto e em áudios divulgados pela Folha. Apesar disso, Bolsonaro endossou a versão.

"Olha, a jornalista da Folha de S.Paulo, tem mais um vídeo dela aí. Não vou falar aqui porque tem senhoras aqui do lado. Ela falando 'eu sou (...) do PT', certo? O depoimento do Hans River foi no final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele", afirmou o presidente. Segundo a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, o processo citado por Bolsonar está sob sigilo.

Em nota nesta terça, a Folha de S.Paulo afirma que "o presidente da República agride a repórter Patrícia Campos Mello e todo o jornalismo profissional com a sua atitude". "Vilipendia também a dignidade, a honra e o decoro que a lei exige do exercício da Presidência", diz o texto. 

Também em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestou "contra as lamentáveis declarações  do presidente Jair Bolsonaro ao ecoar ofensas contra a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S. Paulo".  "As insinuações do presidente buscam desqualificar o livre e exercício do jornalismo e confundir a opinião pública. Como infelizmente tem acontecido reiteradas vezes, o presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia", afirma a entidade.

Em dezembro de 2018, relatos de River embasaram reportagem sobre uma disparo de mensagens em benefício de candidatos. Após as declarações de River na semana passada, a Folha de S.Paulo e diversas entidades de imprensa já haviam divulgado notas de repúdio. O jornal publicou documentos para mostrar "a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais na campanha de 2018". "Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)", diz o texto do jornal, com menção ao fato de que um dos filhos do presidente também atacou a repórter.

Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Observatório de Liberdade de Imprensa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) afirmaram que “os ataques aos jornalistas empreendidos pelo presidente são incompatíveis com os princípios da democracia, cuja saúde depende da livre circulação de informações e da fiscalização das autoridades pelos cidadãos”.

Políticos. Os ataques de Bolsonaro a jornalista repercutiram também no meio político. O ex-preisidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a fala do presidente faz parte "do comportamento cotidiano dele de ofender e achincalhar as pessoas". O petista, no entanto, não condenou o significado de ataque à imprensa contida nas delcarações de Bolsoanaro. "Lamentavelmente, me parece que a democracia não chegou às pessoas, que a educação e o respeito não chegaram à cabeça de Bolsonaro. Penso que está na hora de aprender. Educação faz bem para todo mundo", afirmou Lula logo após deixar evento com partidários em um hotel em Brasília.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também fez críticas ao ataque. “Sobre esse tema, eu quero reafirmar todo respeito à liberdade de imprensa, o respeito aos jornalistas, aqueles que fazem a notícia. Considero muito desrespeitosa a atitude do presidente, mais uma vez, aos jornalistas e, em especial, uma jornalista mulher. Desrespeitosa, inadequada e condenável a atitude do presidente”, criticou Doria.

Já o empresário e apresentador Luciano Huck, potencial candidato em 2022, se maifestou pela sua conta oficial no Twitter, dizendo que "as fronteiras da decência foram ultrassadas" e classificando o episódio como "triste e revoltante ao mesmo tempo".

"Tenho evitado comentar declarações públicas de quem quer que seja. Seja porque torço pelo Brasil, seja porque não quero alimentar fofocas e intrigas. Mas as fronteiras da decência foram ultrapassadas hoje. Triste e revoltante ao mesmo tempo. Respeito é a base de qualquer sociedade e pilar da democracia. Atiçar a violência contra a mulher e atacar o jornalismo independente são desserviços monstruosos. Meu apoio à mulher e jornalista, Patrícia Campos Mello", escreveu./COLABORARAM CAMILA TURTELLI, GUSTAVO PORTO, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, ANDRÉ ÍTALO ROCHA E FERNANDA GUIMARÃES.

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Eduardo Bolsonaro 'dá banana' para deputadas que defendem jornalista atacada pelo pai

Deputado subiu ao plenário para criticar nota de repúdio contra ataques de Bolsonaro à jornalista Patrícia Campos Mello lida pela líder do PSOL, Fernanda Melchiona (RS)

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 21h28

BRASÍLIA - O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criticou nesta terça-feira, 18, parlamentares mulheres que fizeram uma nota de repúdio ao presidente Jair Bolsonaro pela ofensa à jornalista Patrícia Campos Mello, repórter do jornal Folha de S.Paulo. Irritado, Eduardo subiu à tribuna da Câmara logo após a líder do PSOL, Fernanda Melchionna (RS), chamar o presidente de “machista”

"Esse tipo de discurso também revolta. A deputada diz que fala em nome das mulheres. Calma aí. Será que não tem mulher aqui comigo não? Uma banana, em nome das mulheres. Uma banana! Quero saber onde elas estavam quando o Lula falou em mulheres de grelo duro”, questionou Eduardo na tribuna na Câmara, acompanhado de deputados do PSL, homens e mulheres.

A frase foi uma referência a uma conversa grampeada entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Paulo Vannucchi, em 2016. Na ocasião, Lula disse a Vannucchi que estava chamando as petistas Fátima Bezerra e Maria do Rosário para acompanhar de perto Douglas Kirchner, um dos procuradores que o investigavam. No diálogo, ele se referiu às feministas do partido de forma grosseira. "Cadê as mulheres do grelo duro do nosso partido?", perguntou. 

Ao ler a nota de repúdio a Bolsonaro, Fernanda Melchionna – acompanhada de outras deputadas da oposição -- disse que falava em nome das mulheres brasileiras “desrespeitadas por um presidente machista que ataca a liberdade de imprensa”.

Logo depois, a bancada do PSOL na Câmara protocolou representação na Comissão de Ética da Presidência da República, pedindo que Bolsonaro fique sujeito às sanções previstas no Código de Conduta da Alta Administração Federal. “O presidente da República não pode se valer do seu cargo para iniciar uma cruzada contra a imprensa brasileira, proferindo ofensas de teor misógino e machista”, diz o texto. Na prática, porém, a Comissão de Ética é um órgão auxiliar do presidente. 

Sob o argumento de que estava “revoltado”, Eduardo prosseguiu com os “questionamentos” às colegas, especialmente as do PT. Enquanto o filho “zero três” de Bolsonaro falava, um tumulto tomava conta do plenário, com vaias de um lado e gritos de apoio, de outro.

“Onde vocês estavam? Estavam perdendo dinheiro enquanto isso. Estavam roubando”, disse ele ao se dirigir à presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR). “Isso daqui não passa de discurso político, isso aqui é a imposição do politicamente correto para tentar calar a boca do presidente Jair Bolsonaro. Eu quero saber qual outro presidente machista deixou sua mulher discursar na posse. A mulher do Lula só serviu para levar a culpa da roubalheira”, provocou. “Nós somos os revoltados que até ontem não tínhamos espaço aqui. Agora, vocês vão ter de nos engolir. Aqui ninguém se dobra ao politicamente correto, não”.

A oposição gritava cada vez mais alto "Fascista! Fascista!".Eduardo, por sua vez, rebatia: "Raspa o suvaco, hein? Senão dá um mau cheiro do caramba".

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