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Bolsonaro nu e cru?

Presidente parece achar que pode prescindir de Guedes e Moro. Será?

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 03h00

Já não é de hoje que Sérgio Moro está submetido à salga na cozinha bolsonarista. Lento, gradual, sistemático, o processo vai transformado o ministro, antes um peixe vistoso no oceano, numa manta esbranquiçada e ressequida no balcão.

A novidade é que Paulo Guedes parece estar sendo levado para o mesmo engenho. A imprescindível coluna da minha colega Adriana Fernandes mostra com dados como, aos poucos, a ala mais ideológica do governo, com assento no Palácio do Planalto, vai inoculando no presidente a perigosa conversa de que Guedes demora a “entregar" a recuperação da economia, como o teto de gastos poderia ser substituído por um teto solar e que, talvez, o posto Ipiranga não seja assim a solução para todos os males.

A narrativa de que Moro e Guedes eram o perfume capaz de tornar Bolsonaro suportável aos olfatos sensíveis do mercado e da classe média endinheirada e chocada com o PT foi vendida pelo próprio entorno do presidente na campanha e na transição.

A cada absurdo proferido ou cometido pelo presidente, por seus filhos, seus assessores olavistas e os ministros puxa-saco da ala terraplanista, aqueles que compraram esse bacalhau salgado repetem como um mantra, para não se sentir mal: “Mas tem o Guedes, ele vai nos salvar. E temos o Moro, ele vai limpar o País”.

O problema é que o poder costuma levar a distorções de percepção da realidade, e o poder exercido como na corte bolsonarista, em que o poderoso só ouve os acólitos que lhe dizem “amém, Mito” tende a exacerbar essas ilusões. 

Estamos no momento em que, acreditando ser um ungido por Deus, escolhido para o milagre da ressurreição após um atentado, eleito para livrar o Brasil do comunismo, Bolsonaro parece crer piamente que não precisa de Guedes e Moro para isso nem para chegar a 2022.

E este pode ser um caminho para a sua perdição. Sem o photoshop da ortodoxia econômica e fiscal e do moralismo lavajatista, Bolsonaro é o que sempre foi: um parlamentar do baixo clero que dedicou a carreira a causas corporativas e a enfiar a família na política, alheio ao combate à corrupção e praticante da petecagem miúda, nacionalista-estatizante e nem aí para a responsabilidade fiscal.

Sua chance maior de reeleição em 2022 é um cenário em que a economia se recupere de forma sustentável, que o fiscal esteja sob controle e o País crescendo algo como 2,5% a 3% no último ano. 

Quem achou que a economia se recuperaria com um estalo comprou (ou vendeu) terreno na Lua. Nisso Guedes tem, sim, grande responsabilidade, por declarações como a de que seria possível zerar o déficit no primeiro ano, ainda na campanha, ou pelo método, já no ministério, de lançar projetos não concluídos como balões de ensaio para ver se param no ar. O que se espera dele e da competente equipe que montou é a linha de produção de propostas que prometeu, estruturadas e negociadas de forma eficaz com o Congresso.

Ainda assim: Guedes estar no governo até a descida da rampa pode não ser condição sine qua non para seu sucesso, mas achar que substituir o posto Ipiranga por Weintraubs tocadores de gaita e autores de piada do tio do pavê no Twitter é viver perigosamente.

O projeto reeleitoral também depende de o presidente reencarnar o santo guerreiro contra o dragão da maldade do lulopetismo. Para isso, ele não pode ter candidatos ao centro competitivos. Sobretudo não pode ter Moro como adversário, e sabe disso.

Nove meses é tempo suficiente para uma gestação, mas muito pouco para Bolsonaro achar que é autossuficiente e pode se apresentar na versão nua e crua para a sociedade, sem seus dois ministros-photoshop. Que ele compre essa cantilena dos puxa-sacos é mais uma mostra do extremo despreparo que tem para a função que ocupa.

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