Marcos Pereira/ Estadão
Marcos Pereira/ Estadão

Na TV, Bolsonaro cobra limite a isolamento após Mandetta defender prática

'Você não pode impor esse isolamento de forma quase que eterna, como alguns Estados fizeram', disse Bolsonaro

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 20h12
Atualizado 03 de abril de 2020 | 15h14

O presidente Jair Bolsonaro cobrou nesta segunda-feira, 30, o afrouxamento das regras de isolamento social, impostas como forma de evitar que a covid-19 se alastre, pouco depois de o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reiterar a orientação técnica de confinamento, no Palácio do Planalto. O presidente pediu que haja um limite ao isolamento.

“Logicamente, a vida é mais importante do que a economia, mas se o desemprego vier como está vindo de forma violenta, dado ao não afrouxamento de algumas regras agora, vamos ter um problema seríssimo amanhã ou depois que serão a fome, miséria, irritação, depressão. Não sabemos aonde isso pode levar”, afirmou Bolsonaro. “Você não pode impor esse isolamento de forma quase que eterna, como alguns Estados fizeram. Tem que afrouxar paulatinamente para que o desemprego não aumente mais no Brasil."

Bolsonaro vem defendendo o relaxamento das medidas de isolamento adotada nos Estados e a retomada da atividade econômica, com reabertura do comércio e volta dos estudantes às escolas. No entanto, recomendações de especialistas, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, são de que o isolamento é necessário para evitar a expansão da pandemia.

Um dia depois de o presidente ter feito um passeio pelo comércio de Brasília mesmo em meio ao surto do novo coronavírus, Mandetta reiterou que sejam mantidas as recomendações dadas pelos Estados e defendeu o "máximo grau de isolamento social".

Na televisão, o presidente disse que as regras de isolamento não podem ser ampliadas.  Governadores estão postergando o prazo de validade de decretos que restringem a circulação de pessoas, com fechamento do comércio e suspensão de aulas e serviços públicos. 

Informais

Bolsonaro tratou os trabalhadores informais impossibilitados de trabalhar como “vítimas” das regras impostas por governadores.  “As primeiras vítimas dessa forma de isolamento, que tem limite para acabar, não pode durar muito tempo, foram os informais”, disse ele.

O presidente afirmou que o auxílio de R$ 600 aprovado pelo Congresso não supre as necessidades dos trabalhadores sem emprego formal que ficaram sem serviço pela paralisação. O benefício pode chegar a R$ 1,2 mil para trabalhadoras informais chefes de família.  Bolsonaro havia proposto, porém, uma valor menor (R$ 200), ampliado após pressão de congressistas.

Segundo cálculos dele, 25 milhões dos 38 milhões de informais vão  acessar o recurso por pelo menos três meses.  “R$ 600 ajuda, mas está aquém do que eles necessitam. O desespero começou a bater na porta deles. O que se tinha de economia já se foi, o que se tinha na geladeira deles já se foi”, afirmou o presidente. “O que o povo mais pede pra mim é voltar a trabalhar. Não pode impor quarentena maior do que está aí porque esse pessoal vai dificuldade para sobreviver. Eu fui lá visitar o povo estão reclamando, estão com problema de levar o prato de comida pra dentro de casa."

Bolsonaro disse que o governo deve gastar cerca de R$ 800 bilhões em ações relacionadas ao novo coronavírus que a economia pode ser recuperar em um ano. Como mostrou o Estado, a maior parte das medidas anunciadas pelo governo não foi enviada ao Congresso.

Bolsonaro voltou a dizer que lamenta o fato de haver mortes, mas minimizou a projeção de pessoas infectadas com risco de morte. Segundo ele, cerca de 60% da população brasileira será infectada. Também disse mais uma vez, sem apresentar provas, que "alguns governadores" inflam o número de vítima para "pedir mais direito" ao governo federal e "justificar o que estão fazendo".

Ele criticou o uso de "álcool em gel até para dar beijinho na esposa ou no marido". "O pânico é uma doença. Se o Brasil entrar em histeria os malefícios serão muito maiores", opinou. "Alguns morrerão? Lamentamos, mas morrerão. Não podemos viver nessa histeria, nesse clima de terror."

O presidente criticou a soltura de presos pelo risco de contaminação nas penitenciárias por determinação do Conselho Nacional de Justiça. Ele disse que os detentos estão "bem protegidos" porque recebem comida e as visitas foram suspensas  e que a medida é "errada": "A decisão veio do CNJ. Se dependesse de mim não soltaria ninguém".

A resolução do CNJ recomendou que juízes adotem medidas para transferir detentos a outros regimes —como o domiciliar— sobretudo no caso de gestantes, lactantes, idosos, presos que integrem grupos de risco para o novo coronavírus e presos provisórios encarcerados há mais de 90 dias. A mesma orientação foi dada a juízes que atuam no cumprimento de medidas socioeducativas com crianças e adolescentes.

Bolsonaro concedeu entrevista ao apresentador Sikera Jr, do programa policial-popular Alerta Geral veiculado pela RedeTV. O apresentador cultiva a simpatia do presidente e já apareceu em campanhas publicitárias do governo. A equipe do programa, com técnicos de TV travestidos com indumentária oriental e uma máscara de burro, se postou em frente às câmeras para agradecer pela entrevista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.