Bolsonaro monta roteiro para enfrentar CPI, e cordel virtual diz que ‘O Nordeste acordou!’

Presidente vai intensificar viagens e fazer contraponto a Lula em estratégia que mostra o governo como vítima de perseguição

Vera Rosa , O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 15h34

Caro leitor,

O presidente Jair Bolsonaro está montando um roteiro para “conversar com o povo” e se apresentar como vítima de perseguição política na CPI da Covid. A estratégia do Palácio do Planalto prevê intensificar as viagens pelo Nordeste, a partir de junho. Trata-se da região na qual Bolsonaro tem perdido cada vez mais apoio e onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu possível adversário na disputa de 2022, voltou a crescer.

Para ajudar Bolsonaro nessa empreitada, vídeos divulgados por seus apoiadores nas redes sociais têm o público nordestino como alvo da propaganda do governo e mostram a CPI como uma disputa entre o bem e o mal. Intitulado “O Nordeste acordou!”, um desses filmes exibe o presidente com chapéu de sertanejo, sob pressão do Supremo Tribunal Federal – que mandou o Senado instalar a CPI da Covid –, e também de prefeitos e governadores.

Em formato de cordel, recitado pelo trovador baiano Chapéu de Couro, o vídeo chama o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), de “calça apertada” – expressão sempre usada por Bolsonaro para se referir ao rival – e ostenta a figura do ministro Alexandre de Moraes, do STF, com semblante demoníaco.

“Nessa grave pandemia/ Que o nosso mundo enfrentou/ Milhões perderam as vidas/ Por onde ela passou/ E junto com essa praga/O Mal se manifestou”, dizem os versos iniciais do cordel virtual. Com 2,44 minutos, o vídeo repete o discurso bolsonarista, agora voltado para defender o governo na CPI da Covid, destaca o retorno do auxílio emergencial, critica “o povo do fica em casa”, mas no fim apresenta Bolsonaro como vencedor da “batalha” contra o mal.

“Dinheiro para socorrer/ Estados e municípios/ Sabemos que não faltou/ Quem critica Bolsonaro/ Não enfrenta multidão/ Nem um estádio lotado/ Onde há concentração/ E quando batem panela/ Fica sozinho na janela/ Na maior decepção/ Não é com calça apertada/ Que vai vir a solução/ Fazendo politicagem/ Com essa triste condição/ Mas é o povo unido/ Trabalhando e protegido/ Para salvar a nossa Nação”, cantarola Chapéu de Couro.

O repentista já foi elogiado por Bolsonaro em outras postagens produzidas pelo Canal Venilton Matos, que faz campanha pela reeleição do presidente. Seguidor de Olavo de Carvalho, expoente da ala ideológica, Matos também é autor da montagem do polêmico vídeo de 2019 no qual  Bolsonaro aparece como um leão atacado por hienas. O elenco das hienas era composto por STF, Organização das Nações Unidas (ONU), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),  partidos de esquerda, como PT e PCdoB, além da imprensa, entre outros “personagens”. À época, após muita polêmica, Bolsonaro pediu desculpas por ter compartilhado o vídeo e disse ter cometido “um erro”.

Agora, sem maioria na composição da CPI da Covid e ameaçado pelo Centrão do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas –AL) na novela do Orçamento de 2021, Bolsonaro vê a temperatura política subir e diz aguardar o povo “dar uma sinalização” para ele tomar providências.

“Não vou ficar trancado”, afirmou o presidente a apoiadores, na noite de segunda-feira, 12, avisando que retomará as viagens, apesar do agravamento da crise do novo coronavírus. O plano coincide com o início dos trabalhos da CPI da Covid, o anúncio de que Lula sairá em caravanas pelo País e a perda de popularidade de Bolsonaro diante do binômio pandemia em alta versus economia em queda.

Na disputa pelos rumos da CPI, a oposição pretende mostrar logo no início dos trabalhos que Bolsonaro não apenas foi omisso como atuou para favorecer a disseminação do vírus. “A ideia é comprovar que houve uma ação deliberada do presidente em favor da pandemia”, disse o senador Humberto Costa (PT-PE), que terá assento na CPI. “O governo acreditava que era uma gripezinha e apostou na imunidade de rebanho. Com isso, não comprou vacinas, desestimulou o uso de máscaras e criticou o isolamento social”.

Se por um lado a tática de Bolsonaro de arrastar governadores e prefeitos para o centro das investigações pode desviar o foco do Planalto, por outro uma blindagem política está a caminho. Mesmo porque o relator da CPI será Renan Calheiros (MDB-AL).

Hábil articulador político, o homem que comandou o Senado por quatro vezes é pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), que deve disputar vaga no Senado em 2022. Na outra ponta, Jader Barbalho (MDB-PA) – suplente na comissão – é pai de Helder Barbalho, governador do Pará que pretende concorrer a novo mandato. O senador Izalci Lucas (PSDB-DF), por sua vez, se prepara para enfrentar o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), daqui a um ano e meio.

Aliado de Bolsonaro, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), chegou a dizer que a CPI tinha potencial para virar “palanque político”, antecipando o confronto de 2022. Mas, após a decisão do ministro do STF Luís Roberto Barroso, que determinou a instalação da CPI, Pacheco cumpriu a ordem.

Na prática, enquanto Bolsonaro aposta na confusão da CPI, em nova rodada de distribuição de cargos – desta vez para contemplar o Senado – e até mesmo no gogó para sair da enrascada, seus adversários investem em melar o projeto da reeleição. Ao que tudo indica, a estratégia de adiar ao máximo a abertura da CPI virou um tiro no pé  porque o “barril de pólvora” pode explodir perto da campanha de 2022. E, se a pandemia deixar, com povo na rua.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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