GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Bolsonaro faz nova ofensiva no Nordeste e Eduardo busca candidatura de direita

Presidente vai nesta quinta para a região; ministro discute plano de ação com líderes locais

Vinícius Valfré e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2020 | 12h12

BRASÍLIA – Diante de um novo foco de crise provocado pelo baixo volume de liberações do Bolsa Família no Nordeste, o presidente Jair Bolsonaro prepara uma ofensiva para não ver deteriorado seu capital político na região dominada pelo lulismo. Uma viagem de Bolsonaro a Mossoró (RN) está prevista para esta quinta-feira, 12, e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, discutirá um plano de ação com líderes locais ao longo desta semana.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também vai se dedicar à região ao longo do ano. Antes focado em viagens internacionais na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo planeja fazer com que nordestinos construam candidaturas de direita, alinhadas com o pai.

“Um efeito reflexo (das visitas) seriam boas candidaturas para 2022, mas o efeito principal é que eu realmente acredito que, com um trabalho de formiguinha, a gente consiga fazer as pessoas se descobrirem e serem conservadoras. A maioria dos brasileiros é, só não sabe”, disse ele ao Estado.

O deputado General Girão (PSL-RN) deverá acompanhar Eduardo em agendas. “Não tenho dúvida de que o Nordeste, hoje, é um celeiro promissor para o Brasil poder alavancar e voltar a ocupar lugar de destaque no cenário internacional”, afirmou Girão.

Não é a primeira vez que o governo tenta dedicar atenção especial ao Nordeste. Mas algumas investidas foram frustradas, como a do comitê montado no ano passado na Casa Civil para destravar obras no semiárido. Outras, como o Agronordeste, programa de desenvolvimento econômico e social do meio rural, não convenceram. A região rendeu a Jair Bolsonaro seu pior desempenho no segundo turno das eleições de 2018 e a suspeita de existir uma "trava política" no Bolsa Família ajudou a piorar a relação.

Conforme o Estadão/Broadcast revelou, o Nordeste só recebeu 3% dos novos benefícios concedidos no mês de janeiro de 2020. Por outro lado, Sudeste e Sul foram priorizadas nas novas concessões e reuniram 75% dos benefícios liberados no primeiro mês deste ano. A revelação provocou reação de parlamentares e governadores da região.

Para além da pauta de costumes e ideológica, o que governistas apontam como ações principais são o projeto de dessalinização da água, a ser adotado com tecnologia israelense, e o próprio Agronordeste. Mesmo os deputados nordestinos bem relacionados com o Executivo veem falta de medidas concretas para desenvolver a região, que concentra 46% da população pobre do País.  

Coordenador da bancada federal do Nordeste, o deputado Júlio Cesar (PSD-PI) avalia que uma das ações “mais simpáticas” foi a escolha de Rogério Marinho para o Ministério do Desenvolvimento Regional. “No governo é praticamente irrelevante a presença do Nordeste, que tem 27,5% da população. A presença era muito anêmica”, afirmou.

Articulação

Marinho convidou lideranças para reuniões nesta semana, em Brasília. O objetivo é discutir “interação” e “articulação” entre governo e sociedade civil para “potencializar o desenvolvimento” dos Estados da região. Potiguar, Marinho foi nomeado pelo presidente para o cargo em aceno aos nordestinos.

A chegada do ministro empolgou a bancada. Em reunião com líderes capitaneada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o deputado Raul Henry (MDB-PE) apresentou um diagnóstico com propostas para os nove Estados da região. O estudo foi inspirado em ações desenvolvidas pela Europa para desenvolver regiões apartadas, como a Alemanha Oriental.

Henry se diz insatisfeito com as providências conhecidas até aqui. “Não tem nada proposto. O mercado vai para onde tem renda, capital humano, infraestrutura e cadeia de fornecedores. Se o mercado resolvesse, não teríamos menor renda per capita há 100 anos. Tem que haver investimento em infraestrutura e em formação de gente”, disse ele.

Há pouco tempo no cargo - Marinho substituiu Gustavo Canuto no Desenvolvimento Regional em fevereiro -, o novo ministro terá reuniões de trabalho com agências governamentais que lidam especificamente com assuntos de interesse do Nordeste. Os compromissos farão parte da “Semana + Nordeste”, que acontece até o dia 14.

Outra frente de atuação do governo é por meio do Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste (PRDNE), que tramita no Congresso, com iniciativas que devem ser desenvolvidas na área da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). “É um plano com muita coisa genérica, e sem orçamento”, avaliou Henry.

Bolsonaro precisa de ações de alcanem as classes C e D, diz professor

Para o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco Adriano Oliveira, um possível encolhimento de Lula no Nordeste por conta da prisão não é automático. Para se sobressair entre o eleitorado nordestino, Bolsonaro precisa de ações e de um crescimento econômico que alcance as classes C e D. 

“Claro que com a possibilidade de melhor desempenho da economia pode haver maior número de adeptos pró-Bolsonaro. Isso é um fato, mas vejo que crescimento econômico previsto até 2022 pode ficar na casa de até 3% e ser um crescimento econômico que não chega até os pobres”, analisou. 

Para o analista, a escolha de Marinho para o Desenvolvimento Regional é um aceno ao diálogo, mas isoladamente não basta. “Precisa de mais, isto é, de ter uma boa política social que chegue aos pobres e consequentemente ele consiga vir a angariar maior popularidade”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.