Gabriela Biló/Estadão
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Eliane Cantanhêde
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Bolsonaro fala uma coisa, o Itamaraty faz outra. Neutralidade ou equilíbrio?

O presidente anunciou 'solidariedade' à Rússia e 'neutralidade', mas o Brasil votou contra o país na ONU

Eliane Cantanhêde*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2022 | 03h00

O mundo acompanha, estupefato, a dicotomia insana do Brasil diante da invasão russa na Ucrânia, que terá drásticas consequências por toda a parte. O presidente Jair Bolsonaro diz uma coisa, o Itamaraty faz outra. Ele anuncia “solidariedade” à Rússia e “neutralidade”, mas o Brasil votou contra a Rússia na ONU e o chanceler Carlos França corrigiu ontem na GloboNews: a posição do Brasil “é de equilíbrio, não de neutralidade”.

Uma vez negacionista, sempre negacionista, e o Brasil tem o azar, ou a imprudência, de ter um presidente que deu de ombros para a pandemia, as vacinas, as enchentes na Bahia, a Amazônia em chamas, a Educação e a Cultura e agora trata de forma rasa, com uma ligeireza espantosa, uma guerra que atinge todo o mundo e terá altos custos para os brasileiros.

Assim como o ex-chanceler Celso Amorim, do PT, classifica a reação do Brasil à guerra como “esquizofrênica”, o ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa, da era tucana, define como “dicotomia”. Apesar das sabidas divergências entre eles, ambos estranham as manifestações de Bolsonaro, mas concordam com as notas oficiais e votos do Itamaraty na ONU.

Bolsonaro não diz coisa com coisa, mas o Itamaraty pediu em nota o fim das “hostilidades” e a missão brasileira na ONU votou a favor da resolução do Conselho de Segurança que condenava a ação russa – derrubada pelo veto da própria Rússia. Neste domingo, 28, a missão ratificou na assembleia emergencial o respeito ao direito internacional, à integridade territorial e à soberania da Ucrânia, com cessar-fogo imediato.

Por outro lado, o Brasil discorda do envio de armas pelos europeus e americanos à Ucrânia e das sanções econômicas e diplomáticas que atingem a Rússia em várias frentes. Isso não é neutralidade, é, repetindo o chanceler França, uma “posição de equilíbrio”.

Enquanto o antecessor Ernesto Araújo era mais realista do que o próprio rei, radicalizando e amplificando os erros de Bolsonaro, França tenta amenizar, convencer, dar alguma racionalidade à “esquizofrenia” ou “dicotomia”. E tem aliados no Planalto, como o almirante da ativa Flávio Rocha, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que se encarrega de “tourear” o chefe contra as maluquices.

Assim, o presidente da Ucrânia agradece ao Brasil pelo voto na ONU, mas o representante do País aqui, Anatoliy Tkach, diz que Bolsonaro “está mal informado”. O problema? Quem define a política externa é o presidente. Que, assim como foi grosseiro com a primeira-dama da França, a ex-presidente do Chile e o atual presidente da Argentina, chama Zelenski de “comediante”, por sua profissão. Oremos!

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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