Sob vaias e frases de apoio, Bolsonaro come cachorro-quente em Brasília

Sob vaias e frases de apoio, Bolsonaro come cachorro-quente em Brasília

Presidente visitou o filho Jair Renan e teve reunião com o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo

Emilly Behnke e Dida Sampaio, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 19h33

BRASÍLIA - Em dia movimentado, o presidente Jair Bolsonaro terminou o passeio deste sábado, 23, comendo um cachorro-quente em uma quadra da Asa Norte de Brasília, antes de retornar para o Palácio da Alvorada. Ao som de panelaços, vaias e também de frases de apoio, Bolsonaro comeu e tomou um refrigerante do lado de fora do estabelecimento.

Cercado pelo cordão de isolamento feito por seus seguranças, Bolsonaro escutou palavras de apoio de pessoas que estavam próximas, como "Mito", "Você é um herói". Ouviu ainda de apoiadores que "já estava reeleito". Com a máscara no queixo, ele parou para tirar fotos depois que comeu.

Da parte residencial da quadra, contudo, se ouviam panelaços vindos das janelas dos apartamentos. Manifestações contrárias também foram ouvidas de pessoas que passavam de carro. Gritos como "fascista", "fora, Bolsonaro" e "genocida".

Bolsonaro se recusou a responder a perguntas e disse que só falaria "sobre futebol". Ele também acusou a imprensa de fazer aglomerações e chamou os repórteres de "chatos para caramba".

Logo após pedir o cachorro quente, ele questionou se poderia comer no local, que não tinha mesas ou cadeiras do lado de fora. Decreto do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), em razão da pandemia do novo coronavírus, proibiu no início de abril o consumo de alimentos e bebidas em estabelecimentos comerciais.

"Vou consumir onde? Vou comprar e comer onde? Não posso comer aqui fora, não?", perguntou. Contrariando norma local, o atendente do "Cachorro quente do Edivaldo" confirmou que o presidente poderia comer no lugar. O chefe do Executivo comeu em pé enquanto ouvia apoiadores e opositores.

A parada para o lanche ocorreu após Bolsonaro visitar o ministro e amigo, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e o filho mais novo, Jair Renan Bolsonaro. Nos dois locais, o presidente foi recebido com palavras de apoio e também por vaias e panelaços.

Ao sair da casa do filho, o presidente disse que gostava de sentir o clima, o povo, ver como a população estava e sinalizou que ainda poderia fazer uma parada antes de seguir para a residência oficial.

Bolsonaro tem aproveitado os finais de semana para sair pela cidade, em visitas pelo comércio e até mesmo participando de manifestações, contrariando as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde de isolamento social em razão da pandemia do novo coronavírus.

Cloroquina 

Neste sábado, ele deixou o Palácio da Alvorada por volta das 16h para uma visita ao ministro Ramos, e retornou perto das 19h. Na saída da residência oficial, conversou com apoiadores e voltou a defender o uso da cloroquina no tratamento contra a covid-19. O presidente negou-se a responder aos jornalistas e disse que falaria apenas com os cinegrafistas que estavam presentes. Ele contou que tem ouvido testemunho de muitas pessoas que o procuram para relatar o sucesso do medicamento no combate à doença. "Até porque não tem outro remédio. É o que tem. Ou você toma cloroquina ou não tem nada. O que eu chateado também é que quem não quer tomar, não toma", afirmou.

Na última quarta-feira, 20, o Ministério da Saúde divulgou um documento em que defende o uso da hidroxicloroquina para todos os pacientes com covid-19, mesmo os com sintomas leves da doença. Embora não haja comprovação científica da eficácia do medicamento contra a doença, o ministério alegou, no documento, que não tem poder de diretriz, que o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou recentemente que médicos receitem a seus pacientes a cloroquina e a hidroxicloroquina.

Estudo liderado pelo professor Mandeep Mehra, da Escola de Medicina de Harvard, publicado na revista científica The Lancet, feito com mais de 96 mil pacientes internados mostrou que o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina em pacientes com o novo coronavírus, mesmo quando associados a antibióticos, aumenta o risco de morte nos infectados pela covid-19.

Antes de deixar o local, o presidente foi questionado sobre o que ele tinha achado das declarações do ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, dadas ontem com relação ao pedido de apreensão do seu celular. "Somos um mesmo time, eu, Heleno, Fernando (ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva), somos um mesmo time", limitou-se a dizer.

O general Heleno divulgou nota ontem na qual afirma considerar "inconcebível" o pedido de apreensão do celular do presidente Jair Bolsonaro e que, caso aceito, poderá ter "consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional".

A solicitação foi apresentada por parlamentares e partidos da oposição em notícia-crime levada ao Supremo Tribunal Federal (STF). Nessa sexta, 22, o ministro Celso de Mello, relator do caso, pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre assunto.

"O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência alerta as autoridades constituídas que tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional", diz Heleno, em nota divulgada ontem.

Youtubers 

Sem compromissos oficiais na agenda deste sábado, Bolsonaro recebeu ainda Youtubers de perfil pró-governo para um café da manhã no Alvorada. O encontro contou com a presença das deputadas Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF).

Ao Broadcast Político, Carla Zambelli afirmou que os influenciadores comentaram sobre o vídeo no café da manhã com o presidente e apresentaram a impressão que seus seguidores tiveram. "Não teve uma impressão negativa sobre o vídeo na visão desses Youtubers porque o público deles é bolsonarista", disse. E acrescentou: "Assim, é o que todo mundo está falando. Esse vídeo praticamente reelegeu o presidente antecipadamente."

Os influenciadores devem participar de manifestação em apoio ao governo amanhã (24), a partir das 10h. "Os Youtubers combinaram que nesta semana eles viriam (para a manifestação)." Atos pró-governo aos finais de semana têm sido comuns em Brasília. O presidente inclusive costuma comparecer às manifestações.

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