ISAC NÓBREGA/PR
ISAC NÓBREGA/PR

Bolsonaro: ‘Estou comendo o pão que o diabo amassou’

Em almoço com caminhoneiros, presidente defende governo e ouve queixas sobre diesel

Teo Cury e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 17h16
Atualizado 01 de junho de 2019 | 11h24

BRASÍLIA – Em almoço de pouco mais de quarenta minutos com caminhoneiros em um restaurante de beira de estrada em Anápolis (GO), o presidente Jair Bolsonaro disse nesta sexta-feira, 31, que está “comendo o pão que o diabo amassou”. “Não loteamos ministérios, bancos oficiais e estatais”, afirmou. Ele deixou claro que, apesar disso, “só muda (de postura) se alguém cassar o seu mandato”. O comentário foi feito após um dos presentes dizer que faltaria boa vontade com o presidente em Brasília.

Bolsonaro se serviu como os demais clientes. Na mesa em que dividiu com cerca de 30 caminhoneiros, o presidente ouviu reclamações sobre o preço do diesel, questionamentos sobre a reforma da Previdência e estimulou os profissionais a requererem porte de arma. 

A categoria foi uma das contempladas pelo decreto editado no início do mês que flexilibizou as regras para obtenção de armas. “Eu coloquei lá como profissão de risco (caminhoneiros). Quanto mais arma, mais segurança. Se tiver arma de fogo, é para usar”, disse ao grupo. O presidente também se comprometeu em acabar com os radares móveis – “para dar uma folga para o policial rodoviário” – e repetiu sua promessa de aumentar a validade da carteira de motorista para dez anos e passar o limite de pontos para 40. 

A parada de Bolsonaro foi estratégica. Ele mesmo contou que “foi feito levantamento de onde teria mais caminhões” naquele horário. “Eu estava vindo de Goiânia e paramos aqui para conversar com os caminhoneiros”, afirmou. O governo tem adotado várias medidas para evitar uma greve da categoria. Bolsonaro chegou a interferir, até mesmo, em abril no preço do combustível definido pela Petrobrás – um ano depois da greve, o Estado percorreu mais de 2 mil km com um caminhoneiro entre Sinop (MT) e Araucária (PR); veja o especial.

“O que mais pesa no combustível é o ICMS, que é do Estado. Não é a gente. Por isso que eu trabalho para privatizar o refino. Quanto mais tiver concorrência, melhor. Tá ok?”, disse.

O presidente viajou para Goiânia acompanhado de uma comitiva de 73 pessoas, onde participou da Convenção Nacional das Assembleias de Deus. O grupo o acompanhou no almoço com os caminhoneiros. Na nota fiscal, obtida pelo Estado, constam 73 refeições (self-service a R$ 20 por pessoa) e 26 refrigerantes em garrafas de 2 litros (R$ 9 cada) pagos ao restaurante Presidente - Posto e Churrascaria com cartão em nome da Secretaria de Administração da Presidência da República. O almoço serviu como uma espécie de confraternização do presidente com caminhoneiros. O governo disse que não pagou a conta dos “convidados”. 

Na comitiva estavam “bombeiros, policiais militares, equipes de combate à incêndio e de saúde”, afirmou a Secretaria de Comunicação da Presidência. De acordo com três integrantes de governos anteriores consultados pelo Estado, a equipe presidencial neste tipo de viagem gira em torno de 40 pessoas. A Secretaria de Comunicação recomendou à reportagem para pedir explicações via Lei de Acesso à Informação, que tem 30 dias para responder. 

Ainda segundo o Planalto, Bolsonaro não pagou o próprio almoço, pois foi uma cortesia do restaurante. Um funcionário do estabelecimento que preferiu não ser identificado deu a mesma versão. Ele disse ainda que outras autoridades que comeram no local, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, também almoçaram de graça. 

A passagem de Bolsonaro pelo restaurante, que fica ao lado de um posto de gasolina em Anápolis (a 69 km da capital goiana), durou cerca de 40 minutos. Bolsonaro chegou de helicóptero ao local.

Após a publicação da reportagem, a assessoria do Palácio do Planalto divulgou na manhã deste sábado, 1º, nota na qual não considera as "equipes de segurança que dão suporte em viagens presidenciais" como parte da "comitiva" de Bolsonaro. Segundo a Secom, a  "comitiva" tinha 17 pessoas. 

"A nota fiscal obtida pelo jornal, conforme resposta enviada pela Secom à reportagem na noite de sexta, se refere ao pagamento de alimentação de equipes de segurança que dão suporte em viagens presidenciais. Entre eles, bombeiros, policiais militares, equipes de combate à incêndio e de saúde. Esses profissionais não integram a comitiva presidencial. São destacados de órgãos militares locais para a valorização do trabalho dos servidores e a redução de custos para a Presidência da República", diz o Planalto na nota.

COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

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