Bolsonaro escolhe Nordeste para atacar CPI, vender Auxílio Brasil e enfrentar Lula

Região é considerada celeiro de votos do PT, que ignora teto de gastos e pede mais para Bolsa Família turbinado

Vera Rosa, Brasília

21 de outubro de 2021 | 14h56
Atualizado 21 de outubro de 2021 | 21h59

Em campanha pelo segundo mandato, o presidente Jair Bolsonaro vestiu o figurino de garoto-propaganda do novo “Auxílio Brasil”, de R$ 400, e escolheu o Nordeste para divulgar o programa justamente no dia da leitura do relatório final da CPI da Covid, que pediu o seu indiciamento por crime contra a humanidade em um rol de nove acusações. A estratégia foi planejada para inaugurar obras em dez Estados do Nordeste, mesmo não concluídas, na maratona batizada pelo governo de “Jornada das Águas”. O que Bolsonaro não imaginava é que parte da equipe econômica fosse pedir demissão.

Na cruzada ao celeiro de votos do PT, o presidente tenta virar o jogo com o anúncio de dinheiro para distribuir, mesmo sem fonte de recursos para bancar o novo programa que vai substituir o Bolsa Família. A aventura populista fez com que secretários da Economia, como Bruno Funchal (Tesouro e Orçamento), braço direito do ministro Paulo Guedes, entregassem os cargos. A nova debandada enfraquece Guedes.

A manobra política do bolsonarismo para driblar a crise, com ofertas de “terreno na lua”, já havia sido dissecada pela oposição, tanto que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dobrou a aposta. O Nordeste lidera o ranking de beneficiados pelo Bolsa Família, programa que substituiu o então Fome Zero em 2003, no primeiro ano do governo Lula, e à época teve o nome escolhido pelo publicitário Duda Mendonça, morto em agosto. Dados do Ministério da Cidadania indicam que a região abriga 7,19 milhões de famílias assistidas pelo programa, praticamente a metade do total dos que recebem os repasses do governo.

Como o auxílio emergencial de R$ 300 termina no próximo dia 31 e Bolsonaro tenta a todo custo arrumar um programa social para chamar de seu, em busca da reeleição, tudo foi feito para juntar essas pontas e não deixar a campanha presidencial sem discurso. Acuado pela CPI da Covid, com a popularidade em queda livre e na tentativa desesperada de criar um fato positivo para enfrentar a tempestade perfeita, Bolsonaro comprou briga com a equipe econômica – contrária ao valor de R$ 400 – e disse que quem manda é ele.

Nessa ofensiva, o presidente assumiu os riscos de furar o teto de gastos e de promover estripulias fiscais para pôr de pé o Auxílio Brasil. Para tanto, apesar do voto contrário de Guedes, teve apoio do Centrão e do principal partido do bloco, o Progressistas – legenda que o abrigou durante 11 anos e para a qual ele deve retornar em breve. Mas a derrota da equipe econômica para a ala política pode custar ainda mais caro do que parece. E não à toa que até o mercado fala em aventura populista: o complemento do auxílio, para chegar aos R$ 400, termina em dezembro de 2022, “coincidentemente” depois da eleição.

Com o diagnóstico de que o relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), trabalha “para Lula”, Bolsonaro disse, na Paraíba, que o termo “vagabundo” é “elogio” para o senador. “Não há maracutaia no Brasil que não tenha o nome de Renan”, afirmou ele em São José de Piranhas (PB), durante inauguração de trecho da transposição do São Francisco.

Enquanto o inquilino do Planalto se diz “perseguido” pelo sistema e tenta reembalar um pacote de bondades para tirar votos do PT, principalmente no Nordeste, Lula vai dando a senha dos próximos capítulos da disputa. A ordem no partido é não criticar os R$ 400 do Auxílio Brasil, mas, sim, sustentar que é preciso muito mais, no mínimo R$ 600.

“Ele pode dar R$ 600, R$ 700, R$ 800 porque não é ele que está dando. É o dinheiro do povo que está sendo devolvido”, disse Lula. Na prática, tudo será feito pela oposição para desgastar ainda mais Bolsonaro no momento de sua maior fragilidade política. A ideia é carimbar as atitudes do presidente como “estelionato eleitoral” de quem quer vender terreno na lua. Ou seria na terra plana?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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