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Bolsonaro encontra Léo Moura no Amapá; ONG do ex-atleta recebeu recursos do orçamento secreto

Instituto do ex-jogador recebeu R$ 41,6 milhões nos últimos dois anos por indicação de políticos aliados do Palácio do Planalto

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2022 | 16h34

BRASÍLIA - Em sua viagem a Macapá (AP) na última sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro se encontrou com o ex-jogador do Flamengo Leonardo da Silva Moura, o Léo Moura. Como mostrou o Estadão, o instituto que leva o nome do ex-atleta recebeu R$ 41,6 milhões nos últimos dois anos por indicação de políticos aliados do Palácio do Planalto. Mais de um terço (36,5%) do valor foi enviado via orçamento secreto, prática usada pelo governo para destinar bilhões de reais de dinheiro público a um grupo de parlamentares em troca de apoio no Congresso. O mecanismo, revelado pelo Estadão em maio de 2021, é criticado pela falta de transparência e de critérios na alocação das verbas.

Célio Faria Júnior, chefe do Gabinete Pessoal do Presidente da República, publicou nas redes sociais fotos de Bolsonaro e Léo Moura juntos no Aeroporto Internacional de Macapá. Na tarde deste domingo, as fotos estavam indisponíveis.

Os padrinhos dos pagamentos à ONG de Léo Moura são, principalmente, o deputado bolsonarista Luiz Lima (PSL-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), ex-presidente do Senado. Questionados, ambos defenderam a importância do projeto e negaram irregularidades.

O investimento de R$ 41,6 milhões em uma ONG é considerado descomunal por especialistas em gestão esportiva ouvidos pelo Estadão. O Ministério da Cidadania, ao qual a Secretaria Especial do Esporte está vinculada, diz que os recursos foram indicações de parlamentares, com execução obrigatória, ou seja, sem que o governo pudesse escolher para quem enviar.

A principal ação do instituto é um projeto de escolinhas de futebol chamado Passaporte para Vitória, que atende, segundo a entidade, 6,6 mil jovens de 5 a 15 anos no Rio e no Amapá - o plano é expandir para 30 mil. As inscrições são feitas por ordem de chegada, sem critério social. A ONG não fornece alimentação nem transporte.

No Amapá, 15,6 mil pares de chuteiras e caneleiras foram comprados para atender as seis mil crianças, ao custo somado de R$ 2,1 milhões. O Estado recebeu ano passado 20 escolinhas com os repasses de Alcolumbre, que destinou R$ 15 milhões à entidade via emenda de relator - base do orçamento secreto. Só na capital, Macapá, funcionam quatro unidades. Léo Moura esteve na cidade quando as atividades começaram, em julho, e posou para fotos ao lado do senador, que divulgou as imagens em seu Facebook.

Bolsonaro esteve na capital do Amapá na sexta-feira, 14, para participar do lançamento de um cabo de fibra óptica submerso em rios, por meio do Programa Norte Conectado, que tem o objetivo de expandir a infraestrutura de comunicações na Região Amazônica. O presidente causou aglomeração em Macapá e voltou a minimizar as mortes na pandemia.

"Mostrei, como um general em combate, [como] eu deveria me comportar no momento difícil da pandemia. Lamentamos as 600 mil mortes, mas nós temos que viver, nós temos que sobreviver e temos que vencer", disse Bolsonaro durante o evento. Ao chegar ao aeroporto, o presidente foi recebido por apoiadores, que tiraram fotos com ele aos gritos de "mito". A maioria não usava máscara de proteção. Após realizar uma visita técnica no local da instalação dos cabos, o chefe do Executivo causou aglomeração ao andar, também sem máscara, em meio às pessoas.

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