Nicola Fossella/EFE
Nicola Fossella/EFE

Mulher é presa em ato contra Bolsonaro em Pádua após manifestantes e polícia entrarem em confronto

Horas antes, presidente recebeu o título de cidadão honorário em Anguillara Veneta, cidade natal de um de seus bisavós; na Basílica de Santo António, não foi recepcionado por nenhuma autoridade religiosa

Cássia Miranda e Gina Marques, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2021 | 10h35
Atualizado 01 de novembro de 2021 | 18h20

SÃO PAULO E PÁDUA - A visita do presidente Jair Bolsonaro à região de Pádua, no norte da Itália, foi marcada por protestos nesta segunda-feira, 1º.  Uma mulher foi presa à tarde pela polícia italiana em manifestação contra o presidente que reuniu cerca de 500 pessoas nos arredores da Basílica de Santo Antônio.  Horas antes, Bolsonaro recebeu o título de cidadão honorário de Anguillara Veneta, cidade natal de seus antepassados, onde foi recebido por apoiadores e manifestantes. 

Em Pádua, por volta das 16 horas (no horário local), o grupo que protestava contra o presidente tentou romper o bloqueio policial montado nos arredores da basílica medieval, que recebeu a visita de Bolsonaro. Houve confronto e os policiais reprimiram os manifestantes com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e disparos de jatos d'água. Mesmo após a dispersão, o protesto seguiu, sob chuva forte, pelas ruas estreitas do centro histórico da cidade. Não foram divulgadas informações sobre a mulher detida. 

Bolsonaro fez a visita à noite, quando a basílica já estava fechada ao público e não foi recepcionado por autoridades religiosas. Ainda na semana passada, a notícia da ida do presidente a Pádua não agradou à igreja local. “Não é oculto que a concessão da cidadania honorária tem gerado muito constrangimento para nós”, afirmou, por meio de nota oficial, a Basílica de Pádua na última quarta-feira, 27. O texto lembrava as mais de 600 mil mortes causadas pela covid-19 no Brasil e dizia que a gestão da pandemia está “sob holofotes”. “A Igreja de Pádua, tornando-se porta-voz de um sentimento difundido e em virtude do vínculo que une o Brasil à nossa terra, aproveita a passagem do presidente Bolsonaro para pedir-lhe de todo o coração que seja promotor de políticas que respeitem a justiça, a saúde, o meio ambiente, especialmente de apoio aos pobres”, acrescentava a nota.

 

Nas redes sociais, o deputado ítalo-brasileiro Luis Roberto Lorenzato publicou imagens de Bolsonaro apoiando a mão no túmulo de Santo Antônio de Padova durante a visita, que durou cerca de 40 minutos.

 

Cidadão honorário

Pela manhã, Bolsonaro foi recebido sob gritos de apoio e protesto em Anguillara Veneta, comuna da província de Pádua. Lá, recebeu o título de cidadão honorário. Inicialmente, a cerimônia seria realizada na sede da prefeitura da cidade, mas foi transferida para uma residência do século 17 na região.

A prefeita da pequena cidade de 4 mil habitantes, Alessandra Buoso, é a idealizadora da homenagem ao presidente. Anguillara Veneta é terra natal de um dos bisavôs de Bolsonaro. A outorga à honraria foi aprovada pelo Legislativo local sob protestos da comunidade e de grupos ligados à causa ambiental. Na sexta-feira, militantes chegaram a pichar “Fora, Bolsonaro” nas paredes da prefeitura.

Em transmissão pelas redes sociais antes do evento, Bolsonaro disse estar sentindo uma "emoção muito grande" por "encontrar os parentes" e "rever as raízes". Essa é a primeira viagem do presidente à Itália.

De acordo com a programação oficial divulgada pelo governo, após a cerimônia, que contou com a presença de parentes distantes do presidente, Bolsonaro foi recebido em almoço organizado pela prefeita, que é filiada ao partido de ultradireita Liga.

"Estou animado por estar aqui. Acho que você pode ver. Meus avós vieram daqui. Estou feliz por estar entre pessoas boas", disse Bolsonaro no início do encontro, de acordo com a agência italiana AGI – a maioria da imprensa teve o acesso negado ao evento.

“Deus quis que eu fosse presidente do Brasil e estou honrando a família daquele País. Temos muito apoio popular. Estamos fazendo um ótimo trabalho, que o povo certamente reconhece, ao contrário da mídia”, acrescentou Bolsonaro no ato que durou cerca de quatro horas.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram que a chegada de Bolsonaro à Villa Arca del Santo, residência onde recebeu o título de cidadão honorário, foi tumultuada, com presença da imprensa, apoiadores aos gritos de “mito” e seguranças do presidente. Perto dali, numa praça da cidade, centenas de manifestantes contrários ao chefe do Executivo brasileiro usaram faixas de “Fora, Bolsonaro”, cartazes e camisetas com mensagens contrárias ao político brasileiro e à concessão do título honorário.

A frase "Salvini cretino, Bolsonaro assassino" foi repetida pelos manifestantes, em referência ao senador italiano de ultradireita Matteo Salvinicom quem o presidente deve se encontrar nesta terça-feira, 2.  Comentários em relação à postura negacionista de Bolsonaro durante a pandemia também foram feitos pelos manifestantes. Nos atos convocados pelas redes sociais contra Bolsonaro, os manifestantes ligados a movimentos sociais destacavam que “não é preciso muita análise” para dizer que a presença do chefe do Executivo brasileiro na cidade “é indesejável”. “Nos últimos anos, Bolsonaro se tornou um dos principais baluartes da negação — tanto pandêmica quanto climática — do racismo mais vulgar, colonialismo e sexismo. Por estes motivos não aceitaremos sua presença na cidade”, dizia o texto de convocação para o evento.

Antonio Spada, vereador de oposição, foi um dos que criticaram a homenagem. "Que visite a cidade de onde vem sua família é justo, mas não que o apresentem como um modelo a seguir com a concessão do título de cidadão honorário", afirmou.

Nesta terça, além do encontro com Salvini, está prevista a visita de Bolsonaro ao monumento em honra aos soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra na cidade de Pistoya, que fica a 200 quilômetros de Anguillara Veneta. 

Representante brasileiro da COP-26

Bolsonaro optou por não participar da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26, em Glasgow, Escócia, onde estarão reunidos os principais líderes globais, para marcar presença na agenda pessoal na cidade de origem de sua família.

Para o evento da ONU, o governo decidiu enviar como chefe da delegação o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, como uma “estratégia”, na explicação de Bolsonaro. O vice-presidente Hamilton Mourão, no entanto, disse que a ausência do chefe do Executivo seria para evitar pedradas, já que o Brasil é bastante criticado no exterior por sua política ambiental.

Violência em Roma

Jornalistas brasileiros que acompanhavam Bolsonaro em Roma, onde ele participou da Cúpula de Líderes do G-20 no fim de semana, relataram nesse domingo, 31, agressões por parte da equipe de segurança do presidente. As hostilidades aconteceram, conforme os relatos, antes e durante uma caminhada improvisada do chefe do Executivo com apoiadores que se reuniram frente à embaixada do Brasil. / Com informações da EFE e AFP

Tudo o que sabemos sobre:
Jair BolsonaroItália [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.