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Bolsonaro e o Congresso

O presidente da República não pode ficar neutro nas disputas pela Câmara e Senado

João Domingos, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2018 | 03h00

Depois de uma reunião na quarta-feira com o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que busca apoio do presidente eleito para se reeleger presidente da Câmara, Jair Bolsonaro disse que pretende ficar neutro nessa questão. Lembrou que existem também outros candidatos se lançando ao comando da Câmara, todos eles “muito bons”, conforme entrevista à TV Record, no mesmo dia. 

Muita gente entendeu que, ao falar da existência de outros candidatos “muito bons”, Bolsonaro quis dizer um não para Rodrigo Maia, embora com outras palavras. É possível que não seja exatamente isso. Que ele esteja interessado em ganhar tempo. O presidente eleito nem assumiu e quatro deputados que pertencem à sua base, ou por serem do PSL, ou por terem abraçado a candidatura de Bolsonaro, já lançaram suas candidaturas à presidência da Câmara: Delegado Waldir (PSL-GO), João Campos (PRB-GO), Capitão Augusto (PR-SP) e Alceu Moreira (MDB-RS). 

Como já foi dito, há também a candidatura de Rodrigo Maia, e uma sexta, a do vice-presidente da Câmara, Fábio Ramalho (MDB-MG).

Bolsonaro assumirá a Presidência da República depois de exercer o cargo de deputado, seguidamente, por 27 anos e 11 meses. Nesse período, ele entendeu de sobra como é que funcionam os mecanismos do Congresso. O próprio Bolsonaro, que se declara um militante do baixo clero, e que nunca assumiu a direção de uma comissão qualquer, função pela qual seus colegas brigam até de foice, já se lançou candidato à presidência da Câmara. Sua única intenção era, ao pulverizar a disputa, atrapalhar a eleição de um deputado do PT. Isso quem revela é ele mesmo.

O capitão reformado do Exército sabe que a divisão de candidaturas inviabiliza a eleição de um representante de determinado grupo. Desse modo, como quatro aliados dele se lançaram à disputa, e só um pertence ao PSL, nesse momento o melhor a fazer é anunciar a neutralidade. Até porque o Delegado Waldir já disse que se a direção do PSL o mandar se recolher, ele não a obedecerá. Lançará sua candidatura de forma avulsa. Quanto aos outros, o máximo que Bolsonaro pode fazer é pedir a eles que abram mão da disputa, pois pertencem a partidos que, teoricamente, pelo menos, estão fora do alcance das ordens do presidente eleito, embora aliados.

Com a divisão na base de Bolsonaro, abre-se o espaço para que Rodrigo Maia e Fábio Ramalho trabalhem suas candidaturas. Maia tem boa aceitação no PT e nos partidos de centro-esquerda. Caso estes façam um acordo com o atual presidente da Câmara, e desistam de lançar candidatura própria, tornarão Maia bastante competitivo.

Por fora, e aí mora o perigo para Bolsonaro, corre o deputado Fábio Ramalho. Fabinho, como é conhecido o vice-presidente da Câmara, é quem mais entende de baixo clero hoje. Ele está trabalhando intensamente. Aposta no racha da base do governo para se dar bem. E até se arrisca a um palpite: “Sou o próximo presidente da Câmara”. Ramalho costuma fustigar o ocupante do Planalto. O presidente Michel Temer sabe como ele trabalha.

Por mais que Bolsonaro tenha vendido na eleição a imagem do antipolítico – o que não é, pois de seus 63 anos de vida 30 foram passados na Câmara de Vereadores do Rio e na Câmara dos Deputados –, ele sabe que um presidente da República não pode ficar neutro na disputa pela presidência da Câmara. E também pela presidência do Senado. Mas nesta, pelo menos por enquanto, não se vê uma divisão na base do futuro governo. E Renan Calheiros (MDB-AL), que vai costurando sua volta ao cargo, parece estar disposto a negociar.

A petista Dilma Rousseff quis ficar neutra na disputa pela presidência da Câmara, em 2015, mesmo sabendo que Eduardo Cunha (MDB-RJ) era o favorito e lhe seria hostil. Dez meses depois de assumir a chefia da Câmara, Cunha aceitou o pedido de impeachment de Dilma.

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