Daniel Teixeira / Estadão
Daniel Teixeira / Estadão

Bolsonaro é alvo de panelaços durante pronunciamento

Fala do presidente se dá no dia em que o País registra pela 1ª vez mais de 3 mil mortes pelo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 20h30
Atualizado 24 de março de 2021 | 08h42

O presidente Jair Bolsonaro foi alvo de panelaços durante seu pronunciamento em rede nacional de rádio e TV nesta terça-feira, 23. A fala do presidente se deu no pior dia da pandemia, com 3.158 novas mortes pela covid-19, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Os protestos, que ocorreram sob os gritos de "Fora Bolsonaro" e "Bolsonaro Genocida", foram registrados em locais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Goiânia, Salvador, Natal, João PessoaBelo Horizonte, Maceió e Rio Branco.

A manifestação começou a ser convocada na tarde desta terça-feira e teve o endosso de políticos e personalidades que se posicionam contra o presidente. A cobrança foi por medidas de combate à pandemia. 

No pronunciamento, o presidente afirmou que o governo nunca foi contra a vacinação e prometeu que não faltarão doses para imunizar toda a população. A fala, repleta de distorções, marca um recuo no tom negacionista.

O pronunciamento foi gravado nesta terça-feira, horas depois da posse do ministro da SaúdeMarcelo Queiroga, que substituiu Eduardo Pazuello. O intuito foi melhorar a imagem do presidente, que sofre com o desgaste provocado pela condução da crise do novo coronavírus. Na última quarta-feira, 17, pesquisa Datafolha revelou que o presidente bateu recorde de rejeição, com 54% dos entrevistados considerando sua gestão na pandemia como ruim ou péssima. A pesquisa ainda identificou queda na aprovação a Bolsonaro, com 22% considerando a gestão ótima ou boa - frente a 26% da pesquisa de janeiro. 

Nesta quarta-feira, 24, Bolsonaro vai se reunir no Palácio da Alvorada com governadores e a cúpula do Legislativo e do Judiciário, além do procurador-geral da República, Augusto Aras. A ideia é anunciar medidas para contenção da pandemia, que já dura um ano e chegou ao pior momento no País.

Cidades

Aos gritos de "genocida" e "assassino", manifestantes bateram panela em São Paulo em bairros como Santa Cecília, Vila Madalena, Bela Vista, Pinheiros, Perdizes, Pompeia, Higienópolis e República. Na Barra Funda, carros que passavam pela Avenida Francisco Matarazzo no momento do pronunciamento também participaram do protesto ao som de buzinaços. 

Em Brasília, o panelaço foi registrado em bairros de classe média como as asas Sul e Norte, o Sudoeste e Águas Claras. Na Asa Norte, a manifestação foi acompanhada de gritos de “Fora Bolsonaro” e “Bolsonaro genocida” - o barulho foi mais intenso que em protestos anteriores. 

Ao contrário de panelaços anteriores, a manifestação desta terça-feira em Brasília não foi acompanhada de gritos a favor do presidente. O bater de panelas também prosseguiu por alguns minutos depois do fim da fala do presidente.

No Rio de Janeiro, um intenso panelaço foi promovido em vários bairros durante o pronunciamento do presidente. O barulho das panelas e gritos como “fora, Bolsonaro” e “assassino” foram ouvidos nos bairros de Botafogo, Flamengo, Copacabana, Leme, Ipanema, Glória, Cosme Velho, Laranjeiras, Jardim Botânico, São Conrado (todos na zona sul), Tijuca, Grajaú (zona norte), Jacarepaguá e Barra da Tijuca (zona oeste). O pronunciamento durou menos de quatro minutos, mas na maioria desses bairros os protestos contra a gestão do presidente se estenderam por mais de cinco minutos. 

Moradores da capital mineira responderam ao pronunciamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, com protesto contra o governo federal. Em bairros como Serra e Carmo, ambos de classe média na Zona Sul da cidade, foram feitos panelaços. Houve protestos ainda no Grajaú, Região Oeste da capital, e no São Lucas, na Leste. Na Serra, um apoiador de Bolsonaro disse "fora comunistas", da janela.

Além de baterem panelas, foram ouvidos gritos de "genocida", contra Bolsonaro, por conta das mortes ocorridas no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus. Manifestantes pediram ainda o impeachment do presidente. O protesto foi realizado durante toda a fala cerca de Bolsonaro, que durou cerca de três minutos, e seguiu após o fim do pronunciamento.

Em diversos bairros de Natal e João Pessoa manifestantes também bateram panela. Na capital do Rio Grande do Norte, populares foram às sacadas e varandas dos prédios aos gritos “Fora Bolsonaro” e “Genocida”. O panelaço foi ouvido, principalmente, em bairros das zonas Leste como Barro Vermelho e Ribeira, além de Ponta Negra e Capim Macio, na zona Sul de Natal.

Em João Pessoa, capital paraibana, o panelaço foi registrado nos bairros de Tambauzinho, Bessa, Cabo Branco, Manaíra e Bancários. Também teve buzinaço em alguns prédios da orla da Capital.

Aos gritos de "genocida", "assassino" e de "Fora, Bolsonaro", soteropolitanos protestaram com panelaço em pelo menos 13 bairros da capital baiana durante o pronunciamento do presidente. A manifestação foi ouvida nos bairros da Pituba, Costa Azul, Brotas, Imbuí, Bonfim, Engenho Velho de Brotas, Vila Laura, Cabula, Campo Grande, Caminho das Árvores, Canela, Rio Vermelho e Patamares. Em alguns deles, o panelaço continuou após o fim do pronunciamento.

Todas as regiões de Recife tiveram protestos em forma de panelaço quando  Bolsonaro começou o pronunciamento às 20h30. Há vídeos que registram a manifestação nos bairros da Boa Vista, no centro, em Boa Viagem, na zona sul, nas Graças, na zona norte, e na Várzea, na zona oeste da cidade.

Apesar do alcance, o panelaço foi menor que outros anteriores. De acordo com depoimentos de habitantes desses bairros, o protesto durou cerca de 3 minutos após o pronunciamento. Gritos de “fora Bolsonaro”, “genocida” e fogos de artifícios também foram ouvidos. Nas “cidades irmãs”, Olinda e Jaboatão dos Guararapes, que compartilham os limites territoriais do Recife no norte e no sul, respectivamente, também houve panelaço.

Pelo menos dez bairros de Porto Alegre tiveram registro de panelaços e manifestações contrárias ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na noite desta terça-feira. Bolsonaro se pronunciou às 20h30, e as manifestações aconteceram nos bairros Humaitá, Floresta, Cidade Baixa, Bom Fim, Santana, Tristeza e Cruzeiro, Rio Branco, Cristal e também no Centro Histórico

De acordo com moradores destes bairros, foi possível ouvir vuvuzelas e gritos de "genocida" e "Lula livre" enquanto o presidente se pronunciava em rede nacional. Os bairros que tiverem registros das manifestações contrárias ao presidente são bastante diversos. Enquanto Humaitá e Cruzeiro, na zona Norte e Sul da cidade respectivamente, se caracterizam por moradias mais populares, inclusive com a presença de vilas, os demais são caracterizados pela população de classe média e média alta. Destes, a Cidade Baixa é um conhecido reduto petista, onde inclusive aconteceu uma manifestação de comemoração no dia da libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já outros locais são conhecidos por não ter manifestações políticas mais efusivas, alguns, inclusive, conhecidos como redutos anti-petistas.

Também houve registro de manifestações de motoristas que circulavam pelas ruas durante o pronunciamento de Bolsonaro. Relatos de diversos bairros davam conta de uma das manifestações mais fortes contra o presidente ao longo destes dois anos de mandato. Já em outros bairros das periferias da capital gaúcha, como Sarandi e Rubem Berta, ambos na zona Norte, os relatos eram de silêncio durante a fala do presidente.

Foram registrados ainda panelaços em vários bairros de Curitiba. Um pouco antes, foi registrado um grande buzinaço de apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em frente da sede da Justiça Federal, tão logo o STF decidiu pela suspeição do ex-juiz Sérgio Moro. Já o panelaço, ocorreu em todas as áreas da capital, nos bairros Água Verde, Campo Comprido, na área central e no Bigorrilho, área conhecida por ser um reduto de bolsonaristas. As imagens circularam pelas redes sociais.

Em Florianópolis, houve panelaço na região central nas imediações da Universidade Federal de Santa Catarina. No Kobrasol, um dos principais bairros da cidade vizinha, São José, também houve manifestação. 

Na capital catarinense, outra manifestação, que já estava programada, se armou momentos antes do pronunciamento e acendeu velas na escadaria da Prefeitura. Segundo os organizadores, a manifestação buscou despertar o respeito à vida, às vítimas e ao luto de seus familiares e amigos diante de um momento de naturalização da morte e de descaso das autoridades e dos governos municipal, estadual e federal. O ato marcou os 348 anos da cidade, completados nesta terça, 23. Em uma faixa estava escrito "Quantos mais vão morrer para o genocídio acabar?".

Protestos contra o presidente ocorreram nos principais bairros de Goiânia na noite desta terça-feira, 23. Foram registrados panelaços nos setores Aeroporto, Negrão de Lima Bueno, Jardim Goiás, Eldorado, Centro, Bela Vista, Jardim América, Setor Oeste.

No Negrão de Lima, os gritos foram de "fora Bolsonaro". Houve resposta de vizinhos favoráveis ao presidente, que gritaram "Lula ladrão". No bairro Eldorado teve grito de "assassino" e "Lula livre". Favoráveis a Bolsonaro gritaram "Mito". Além de bater panelas, moradores de prédios acenderam e desligaram as luzes, em apoio ao protesto. Também houve uso de apitos e buzinaços.

A capital cearense registrou panelaços em várias regiões durante o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Os protestos foram fortes, inclusive, em regiões nobres da cidade. O barulho de panelas e gritos "fora, Bolsonaro!", foram registrados em bairros como Aldeota, Meireles, Joaquim Távora, Cocó, Dionísio Torres e Praia de Iracema.

No Espírito Santo também foram registradas manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro. Às 20h30, conforme divulgado pelas redes sociais, milhares de capixabas saíram às janelas para protestar contra o Chefe do Executivo. Em Vitória, na capital, as manifestações ocorreram no Centro Histórico, Jardim da Penha, Praia do Canto e Jardim Camburi. Estes dois são considerados os bairros mais nobres da cidade, reduto bolsonarista nas eleições de 2018.

Em Vila Velha, cidade da Região Metropolitana de Vitória, também foram ouvidos panelaços. Com gritos de “assassino”, “genocida” e “fora Bolsonaro”, os manifestantes protestaram contra as medidas do Governo Federal no combate à pandemia da covid-19. Em outras cidades do estado, como Serra, Guarapari e Linhares foram registradas manifestações.

Belém ficou agitada com o panelaço forte contra o pronunciamento de Bolsonaro. No bairro do Umarizal, no centro da capital paraense, além da manifestação nos prédios com gritos de "Fora Bolsonaro" e "Genocida". Na principal avenida da cidade, a Visconde de Souza Franco, carros acionaram as buzinas. A mobilização também foi registrada nos bairros da Pedreira, Batista Campos, Marco, Jurunas e Parque Verde.

Panelaços em diversos bairros de Maceió foram registrados durante o pronunciamento de Bolsonaro. Em alguns pontos da capital alagoana, o panelaço se estendeu após o término da fala do presidente.

Na área nobre da cidade, manifestantes gritavam “fora Bolsonaro”, enquanto alguns apoiadores do presidente gritavam palavras de apoio. “Vamos colocar o Exército na rua”, gritou um manifestante da sacada de um prédio na área central de Maceió. Muitos maceioenses acompanharam a manifestação das sacadas dos edifícios.

Aracaju, capital de Sergipe, registrou panelaços contra o presidente Jair Bolsonaro. Junto com o ato, palavras de ordem também foram proferidas contra o chefe do Executivo, diante da gestão da pandemia da covid-19.

Os protestos se concentraram em bairros da zona Sul da cidade, como Farolândia, Jabotiana, Luzia e Grageru. Manifestantes chamaram o presidente de genocida e pediram a sua saída do cargo. Em vários prédios, alguns moradores também apagaram e acenderam as luzes próximas às janelas, demonstrando apoio ao ato.

Em Rio Branco, no Acre, também houve protesto, e o assunto se tornou um dos mais comentados do Twitter. / ANDRÉ SHALDER, BIANCA GOMES, BRUNO LUIZ, CARLOS NEALDO, DANIELLE FERREIRA, EDUARDO AMARAL, EDUARDO ANDRADE, FÁBIO GRELLET, FÁBIO BISPO, JANAÍNA ARAÚJO, JOÃO RENATO JÁCOME, JULIO CESAR LIMA, LEONARDO AUGUSTO, MATHEUS BRUM, PEDRO JORDÃO, RICARDO ARAÚJO, THALYS ALCÂNTARA E TUNAY PEIXOTO

Confira a íntegra do pronunciamento de Bolsonaro

Boa noite. Estamos no momento de uma nova variante do coronavírus, que infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros. Desde o começo eu disse que tínhamos dois grandes desafios: o vírus e o desemprego. E em nenhum momento o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia, que poderia gerar desemprego e fome.

Quero destacar que hoje somos o quinto país que mais vacinou no mundo. Temos mais de 14 milhões de vacinados e mais de 32 milhões de doses de vacina distribuídas para todos os estados da federação. Graças às ações que tomamos logo no início da pandemia, em julho de 2020, assinamos um acordo com a Universidade de Oxford para a produção, na Fiocruz, de 100 milhões de doses da vacina AstraZeneca. E liberamos, em agosto, 1 bilhão e 900 milhões de reais.

Em setembro de 2020, assinamos outro acordo, com o consórcio Covax Facility, para a produção de 42 milhões de doses. O primeiro lote chegou no domingo passado. E já foi distribuído para os estados. Em dezembro, liberamos mais 20 bilhões de reais, o que possibilitou a aquisição da Coronavac, através do acordo com o Instituto Butantan. Sempre afirmei que adotaríamos qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa, e assim foi feito. Hoje, somos produtores de vacina em território nacional. Mais do que isso, fabricaremos o próprio insumo farmacêutico ativo, que é a matéria prima necessária.

Em poucos meses, seremos autossuficientes na produção de vacinas. Não sabemos por quanto tempo teremos que enfrentar essa doença, mas a produção nacional vai garantir que possamos vacinar os brasileiros todos os anos, independentemente das variantes que possam surgir. Neste mês, intercedi pessoalmente junto à fabricante pfizer para a antecipação de 100 milhões de doses, que serão entregues até setembro de 2021. E também com a Janssen, garantindo 38 milhões de doses para este ano. Quero tranquilizar o povo brasileiro e afirmar que as vacinas estão garantidas. Ao final do ano, teremos alcançado mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população.

Muito em breve, retomaremos nossa vida normal. solidarizo-me com todos aqueles que tiveram perdas em suas famílias. que Deus conforte seus corações. estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros. somos incansáveis na luta contra o coronavírus. Essa é a missão e vamos cumpri-la. Deus abençõe o nosso Brasil. 

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